quarta-feira, abril 15, 2009

OUTROS CAMINHOS

Em anterior crónica, falamos das «novas» auto-estradas que o governo incluiu no pacote dos «investimentos públicos», um erro que, afinal de contas, perpetua um determinado modelo— o do «crescimento» sem critério nem sustentabilidade, em termos ambientais e económicos. Teremos mais poluição, mais destruição do território, maior favorecimento do automóvel e dependência do petróleo importado. Em troca de vantagens virtuais ou apenas momentâneas.
Mas é claro que o investimento de recursos públicos pode ser criativo e gerar riqueza, procurando melhorar as condições de vida das pessoas agora e no futuro. Nesse sentido, a reabilitação urbana deveria ser alvo desse esforço do Estado, em termos e dimensão bem maior do que até agora.
Para a cidade (e área metropolitana) do Porto, trata-se de uma tarefa fundamental. Os esforços desenvolvidos nos últimos anos pela Câmara Municipal e corporizados pela acção da Sociedade de Reabilitação Urbana devem considerar-se muito positivos e algumas realizações são já visíveis no terreno. Mas é evidente que a dimensão da tarefa exige também uma aposta nacional— o Estado deve envolver-se e empenhar recursos para que seja possível avançar mais e mais rapidamente. Eis um sector onde o dinheiro dos contribuintes será bem gasto— com vantagens para todos.
Recuperar o edificado antigo do Porto – como de Lisboa e de outras cidades portuguesas— pode trazer vantagens de vários tipos: em termos imediatos a criação de emprego e a reconversão, que a crise impõe, da capacidade instalada das empresas de construção e afins, até agora empenhadas numa vertigem insustentável de abertura de novas frentes de construção, enquanto o centro das cidades caía de podre.
A imagem do Porto será muitíssimo beneficiada e as zonas históricas ganharão vida, sobretudo se forem aplicadas políticas capazes de impedir uma reabilitação que expulse as populações menos abonadas economicamente – e que antes procure equidade e mistura social; toda a Área Metropolitana beneficiará em termos de ordenamento do território e será possível deter a expansão incontrolada das periferias, já que uma população considerável se fixará de novo no centro, deixando espaço livre para outras finalidades nos concelhos limítrofes, por exemplo para a preservação da paisagem e dos «corredores ecológicos» vitais. Os transportes poderão ser planeados de forma integrada e diminuirá a distância emprego/ casa de muitas pessoas, minorando o uso do automóvel nas deslocações.
A reabilitação urbana é uma prioridade nacional— merecendo da parte do governo, ao menos, parte dos fundos que se destinam a aumentar uma rede rodoviária já sobredimensionada e inútil na sua desmesura. Deixar a tarefa unicamente nas mãos das autarquias é injusto e não permite obter resultados em tempo razoável. Este é um assunto que diz respeito à afirmação do Porto!
Uma recente lei, ou projecto de lei, sobre esta matéria, parece ir na direcção certa, facilitando mecanismos de recuperação dos prédios abandonados e degradados. Mas onde estão os meios financeiros para que a tarefa entre em «velocidade de cruzeiro»? Destinam-se todos aos «grandes projectos», vistosos mas de utilidade duvidosa?
Reabilitar o que está degradado em vez de construir de novo é um caminho, por onde passa economia e ecologia.
Vemos que o sector da construção começa a perceber que aí se joga o seu futuro.
Mais importante do que isso— joga-se o futuro da cidade e o bem-estar e equilíbrio de toda a região.

Bernardino Guimarães
( Crónica publicada no Jornal de Notícias ontem, 14/4/2009)

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