terça-feira, abril 07, 2009

VALE DO CORONADO

Já sabemos que, para muitos decisores políticos, urbanistas, planeadores e tecnocratas, o mundo rural, a terra, o solo agrícola, não merecem consideração. O que se vê é mesmo a tentativa de associar ruralidade a atraso e pobreza. O uso do solo para fins agrícolas é apenas tolerado, relegado para bem longe das cidades, que a lógica das mais valias e da especulação fundiária a isso conduz. Não admira, por isso, que sobre o Vale do Coronado penda agora uma pesada ameaça.
Mas de que estamos a falar? De um vale agrícola, cuja superfície ocupa partes dos concelhos da Maia e da Trofa, formado por terras de aluvião, férteis e abundantes em água. Esses terrenos pertencem, pela sua qualidade, à Reserva Agrícola Nacional, configurando uma das maiores manchas de solo arável na Área Metropolitana do Porto. Centenas de hectares abrigando agricultura viável e populações que, em boa parte, apesar do processo de urbanização adjacente, beneficiam das vantagens económicas e ambientais de uma tal paisagem, de contornos seculares.
Mas o governo, através do Ministério das Obras Públicas, anunciou há um ano a instalação, em pleno Vale do Coronado, de uma plataforma intermodal, integrada na chamada Rede Nacional de Plataformas Logísticas. Agrupar um conjunto de estruturas de apoio aos diferentes tipos de transportes, agilizando o tráfego de mercadorias e induzindo economias de escala— assim dizem os entendidos— pode até ser uma ideia defensável. Mas a localização, meu Deus, é que não podia ser mais infeliz e desastrada.
Voltamos ao início— que importa a fertilidade de um vale, a vida de tantas pessoas, uma paisagem íntegra e valiosa enquanto tal, sequer a necessidade de mantermos os poucos solos que ainda temos para produção alimentar de qualidade? Outros valores se alevantam, aparentemente. E a decisão política de ali construir, de betonar e poluir o Vale e as suas águas, foi tomada e reafirmada. Pouco se sabe do assunto desde o anúncio da decisão, e nada tem sido discutido. A contestação vai subindo de tom, partindo dos agricultores, reunidos na cooperativa agrícola de Santo Tirso e Trofa e na sua congénere da Maia, e pelas populações, especialmente as das freguesias de S.Mamede do Coronado, de S.Romão do Coronado e de Folgosa, que têm comparecido a sessões em número considerável.
Face ao silêncio do Ministério (esperemos que não seja prenúncio de inflexibilidade) crescem inquietações. A Convergir – estrutura interassociativa ambientalista, tomou posição: «Com a construção da plataforma naquele local, a paisagem esteticamente agradável e a biodiversidade aí existente serão profundamente afectadas, assistindo-se à fragmentação da paisagem e do habitat, bem como à destruição de solos férteis, com a correspondente disfunção ecológica. O ruído aumentará e o acréscimo da circulação de viaturas pesadas será responsável pela libertação de grandes quantidades de partículas e de químicos poluentes. Tudo isto provocará perturbações na saúde das populações e danos nos edifícios e no ambiente.»
A verdade é que há alternativas de localização para a dita plataforma. O Vale do Coronado é que não pode ser removido para outro lugar, e o património económico, ecológico e cultural que encerra perder-se-á para sempre.
A agricultura não deve ser erradicada das periferias urbanas. Persistir nesse caminho é um erro trágico, que aliás contraria o que se vai fazendo em muitos países da União Europeia. Destruir a paisagem rural, substitui-la por betão e asfalto, eis o que pode ser considerado um crime contra o (nosso) futuro, mesmo que cometido em nome do sacrossanto progresso.
Bernardino Guimarães

(esta crónica, publicada no Jornal de Notícias em Setembro de 2007, permanece actual— porque o vale ainda lá está, fértil, e a ameaça persiste.)

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