sexta-feira, maio 22, 2009

LINCE-IBÉRICO

Não se ouve senão o canto das aves e o ruído furtivo do vento. A tarde vai avançada, a luz já escasseia. No velho barranco, coberto de urzes e esteva, de tojos e de silvas, com azinheiras antigas pontuando aqui e ali e medronheiros baixos que se desenham no monte entre o matagal, um grupo de coelhos bravos alimenta-se num ponto mais aberto, junto ao ribeiro que corre. Os animais não podem suspeitar que bem perto, disfarçado no mato ressequido de Verão, espreita um predador fantástico e silencioso— um grande gato de libré pintalgada por manchas negras, sob o manto cor de mel do pêlo: o lince ibérico, o mais raro felino do mundo, um dos últimos sobreviventes de uma espécie mítica e ameaçada. Em breves minutos, decide-se vida e morte--o lince é paciente mas a sua investida é de uma rapidez fulgurante. Um coelho— sua presa de eleição— pode tornar-se na refeição do dia.
A escassez de coelho bravo, afectado tragicamente pelas sucessivas epidemias da mixamatose e da febre hemorrágica, terá sido o dobre de finados para o lince, que nunca verdadeiramente foi abundante, como o não são nunca os grandes predadores, mas cujo lar foi em tempos, pelo menos quase toda a extensão da Península Ibérica. Não aprecia as florestas densas, embora possa viver nelas, preferindo o matagal mediterrânico e os montes povoados esparsamente por azinheiras, sobreiros e medronheiros. Também não parece ser afeiçoado ao mais alto das serranias e evita sempre terreno descoberto. O que não admira— tudo nele parece feito para esse paraíso da ocultação e da vida discreta que são os velhos matagais onde o emaranhado do sub-bosque proporciona esconderijos e locais ideais para ver sem ser visto. Ver e visão— eis palavras que se referem ao lince mitificado— os seus olhos amarelos/esverdeados foram sempre, e sem necessidade de grande exagero, evocadores de prodígios. Linx pardinus é de facto uma exclusividade ibérica. Sempre o foi? Até hoje se discute se os vestígios de lince existentes nos Pirinéus Franceses e noutros locais do sul da Europa pertencem, ou pertenceram, a esta espécie. Isto porque o nosso ameaçado lince tem um parente, o lince-europeu ou boreal ( Linx linx), maior e mais pesado, menos «manchado»e de tonalidade mais clara.
Este felino vive nas latitudes nórdicas, nos Alpes e nos Balcãs, estando hoje em apreciável recuperação, tendo reaparecido na Suiça, na Itália e na Alemanha, após bem sucedidas operações de reintrodução na Natureza.
O outro «primo» ibérico e europeu é o gato-bravo (Felis silvestris) bastante mais pequeno e não menos misterioso, que em Portugal é escasso e pouco estudado e é parente muito próximo dos nossos gatos domésticos— a mesma espécie, para alguns naturalistas.
O lince ibérico é muito territorial. Cada indivíduo ocupa uma porção grande de habitat favorável. Individualista extremo, apenas a época do cio o leva a socializar— por escassas semanas. Os juvenis dispersam ao deixarem os cuidados da mãe procurando novos territórios.
Em Portugal, o lince deve ter começado a regredir mais significativamente no começo do século XX, ou ainda antes, mas a sua presença está referida um pouco por todo o território nacional. Há sinais de lince no sec XIX na Serra do Gerês, e na Estrela também.
Mesmo nas últimas décadas (anos 80 do sec XX) a presença do felino— sempre muito difícil de avistar e quase só detectável por depoimentos raros de populares, por serem apanhados em armadilhas ou através dos excrementos— era referida, por exemplo, nos seguintes locais: Montezinho, Mira, serras algarvias, Vale do Sado, Barrancos/Contenda, serra de Aires e Candeeiros, Sudoeste alentejano, etc. Possivelmente, tratava-se já de populações /relíquia, sem viabilidade, excepto talvez no caso das Serras algarvias onde estará presente até hoje e no interior alentejano.
A barragem do Alqueva «cortou» certamente alguns dos corredores naturais do lince e terá inviabilizado um habitat muito extenso.
E claro está, na Malcata, onde uma população pequena e muito dependente das trocas com os linces do outro lado da fronteira, acabaria por tornar-se célebre.
De facto, em 1979, uma campanha, lançada pela Liga para a Protecção da Natureza, marcou fundamente o ambientalismo português do pós-25 de Abril: «Salvemos o Lince e a Serra da Malcata» era o mote que ficou famoso. Chamou a atenção para essa espécie pouco conhecida, jóia do património natural português, e para um espaço, a Malcata, na altura ameaçada pela plantação industrial de eucaliptos. Em certo sentido, foi uma campanha coroada de êxito, porque em 1981 foi criada a Reserva Natural da Será da Malcata e a eucaliptização integral da Serra impedida.
Já quanto ao, lince, as coisas não foram tão felizes— apesar de alguns esforços realizados, em 1992 estimava-se que existissem na Reserva entre 4 e 5 indivíduos. Estudos mais recentes não têm encontrado vestígios do felino mais raro do mundo.
Entre as causas de extinção do lince em tão amplos territórios ancestrais da espécie, esteve a escassez de coelho, como referimos. O lince é um especialista na captura deste lagomorfo, como ele característico da região ibérica/mediterrânica. Mas isso não significa exclusividade— capturam aves de todo o tipo (nas marismas do Guadalquivir— Doñana--caçam patos junto à água) roedores pequenos, lebres de quando em vez e até crias de corço, se puderem apanhá-las.
A captura de linces é hoje ilegal. Mas durante décadas, este felino, como todos os outros predadores, foi perseguido intensamente, nos coutos de caça e fora deles. Nos anos 70, revistas de caça ainda o classificavam como «nocivo» e ofereciam-se prémios pelo seu abate. As únicas fotos de lince que conhecemos em Portugal são de exemplares abatidos em caçadas!
Uma política de salvaguarda desta espécie tem de passar, naturalmente, pela tentativa de criação em cativeiro, ainda de resultado incerto em Espanha e nula em Portugal. Chegados a este ponto, com uma população tão reduzida, essa tentativa é inevitável. Mas a conservação dos núcleos existentes, com medidas rigorosas e aplicadas no terreno, continua a ser indispensável. Medidas para favorecer a reprodução e alimentação do coelho, recuperação de habitat degradado, evitar perturbações irreversíveis como a florestação com espécies exóticas ou com muita densidade, estradas que atravessam o território linceiro, armadilhas e cercados em coutadas de caça, tudo isso é urgente e deve ser feito com rigor e usando todos os meios necessários.
Portugal deve ter uma política para o lince, protegendo os locais onde a sua presença ainda é suspeitada e recuperando e guardando as zonas onde será possível o seu regresso. A reintrodução futura de linces criados ex-situ de nada servirá se o seu habitat estiver degradado ou modificado, cheio de elementos hostis. Mecanismos como a Rede Natura são indispensáveis, e nem se pense que se salva o lince com medidas desgarradas ou esperando passivamente os êxitos de Espanha.
Ninguém nos perdoaria no futuro que falhássemos na salvaguarda do lince-ibérico, tesouro que a todo o custo devemos guardar para as gerações vindouras.
Mas atenção— o belo e misterioso predador nada é isoladamente, curiosidade mediática de um tempo que já passou. O lince é, deve ser, a alma da Natureza selvagem da nossa terra, da nossa paisagem bravia e nesse contexto é que faz sentido pleno o esforço para o salvar da extinção.
Tal como nos finais da década de 80, em Portugal o lince continua a ser o símbolo e a pedra de toque da conservação da Natureza. Não porque mereça, mais do que milhares de outras formas de vida ameaçadas, ser salvo da extinção. Mas porque o que acontecer quanto ao lince, hoje tão falado e famoso, provará se existe ou não conservação da Natureza no nosso país. O drama do lince é assim o drama dos ecossistemas e das espécies todas…é afinal o nosso drama!
Situações do lince— os censos realizados em Espanha em 2003 deram o alarme: a população de linces é muito mais reduzida do que se pensava. Uns 200 indivíduos no total, talvez pouco mais do que 30 fêmeas adultas reprodutoras.
Os núcleos principais são hoje: Andújar-Cardeña (90-100 linces) E Doñana (30-35) seguido dos montes de Toledo, serra Morena e dispersamente no sistema Central Ocidental.
Em Portugal calcula-se um efectivo na ordem da uma dezena ou pouco mais, mas não há dados fiáveis. O mais certo é que haja apenas indivíduos isolados, sem grande viabilidade reprodutora. Os últimos excrementos de lince confirmados no nosso país datam de 1997 (vale da Ursa, Malcata) e serra da Adiça, Alentejo, em 2001. Mas a zona onde se depositaram mais esperanças é no Algarve (Espinhaço de Cão, Monchique e Caldeirão) zonas muito afectadas por incêndios nos últimos anos.
Uma situação extrema de ameaça, sem paralelo com qualquer felino no mundo inteiro. A União Internacional para a Conservação da Natureza classificou-o como «criticamente em perigo».
Bernardino Guimarães

(Desde o momento em que foi escrito este texto, uns anos atrás, alguma coisa mudou. A situação do lince no estado selvagem piorou, seguindo o trágico plano inclinado. Mas um programa de criação em cativeiro, em Espanha, tem dado resultados positivos, até surpreendentes. Parece que esse sucesso levará, mais tarde ou mais cedo, à instalação em Portugal de um centro de reprodução, dependente da cedência de linces espanhóis e da existência de uma infra-estrutura material e humana complexa— que ainda não se vê.
Estes linces voltarão aos seus habitats naturais? Para tal é forçoso que haja habitat idóneo e teme-se que esse venha a ser o problema. Fiquemos atentos!)

5 comentários:

  1. Parabéns ,brilhante trabalho de investigação sobre o Lince.
    ...
    "tudo nele parece feito para esse paraíso da ocultação e da vida discreta que são os velhos matagais onde o emaranhado do sub-bosque proporciona esconderijos e locais ideais para ver sem ser visto. Ver e visão— eis palavras que se referem ao lince mitificado— os seus olhos amarelos/esverdeados foram sempre, e sem necessidade de grande exagero, evocadores de prodígios".
    Lince, ser inteligente e de olhos maravilhosos!

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  2. Didático e de leitura agradável, gostei muito do caráter informativo do seu texto. Agradável sobretudo pela linguagem poética que permeia sua prosa sem desfocar o real intuito de alerta.

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  3. que belo trabalho de investigaçao tenho e pena dos linces deviam-se proteger e nao mata-los
    ASS:ANONIMO

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  4. Caro peregrino,
    Belas tuas palavras sobre tão raro, indefeso e elegante animal da fauna dessa região...
    De certo que estaremos na torcida para que em breve esteja funcionando com sucesso o Centro de Reprodução em Portugal, ajudando assim a solucionar parcialmente o processo antes que seja mais irreversível ainda.

    Teus esforços e empenho com certeza farão muita diferença mas não te esqueces que existem bem mais animais nessa mesma situação...
    É o caso da onça da Amazônia Ocidental... que espera um milagre pra sua própria sobrevivência... este sim, é o felino mais raro do mundo...
    Muita sorte para teu Lince-Ibérico...

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  5. Caro Bernardino

    Bem haja por este excelente artigo sobre o Linx pardinus.

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