terça-feira, fevereiro 16, 2010

DENDROFOBIA


Foto de Alberto Guimarães

Uma moléstia parece ter-se instalado no país. Insidiosa, obscura, generalizada. Dendrofobia é o seu nome. Confesso que só recentemente dela tomei conhecimento. Uma breve consulta enciclopédica permite esclarecer o sentido da estranha palavra: «medo mórbido de árvores». Ou «pânico extremo às árvores e a tudo o que com elas se relaciona.» Os entendidos em dendrofobia advertem que «na sua maioria, os dendrófobos não têm consciência de ter esta fobia.»
A coisa deve estar tão espalhada que afecta as atitudes das instituições, tal como as dos homens; e reflecte-se— tudo o indica— na gestão política das entidades públicas e em procedimentos técnicos que às árvores dizem respeito.
Fica assim tudo mais claro. Nesta era das manias e dos excessos em prol da saúde, havia de ser doença a explicação para aquilo que de outro modo, só podia ser ódio. Antes assim.
Mas a consequência desta ilação é aceitarmos que somos governados por dendrófobos, presentes no sistema partidário e nos diferentes escalões do poder democrático. Como não têm, o mais das vezes, consciência do seu problema, estas pessoas agem motivadas pela sua aversão, sublimada em opções técnicas e urbanísticas, em escolhas pragmáticas e outras meras desculpas, muito variadas mas resultando todas na destruição, mutilação, supressão das árvores da paisagem urbana e um pouco por toda a parte.
A chamada «modernização das escolas» deve ter sido obra da malvada dendrofobia, e não da Parque Escolar SA. Quando olhamos do exterior para a Escola Carolina Michaelis (ou para a Aurélia de Sousa, ou para várias outras) vemos o vazio deixado pela desarborização sistemática e integral. A bizarra patologia andou por ali!
E as podas que continuam a fazer-se sentir, tornando árvores frondosas em cotos estéreis e inestéticos, sem ramos e guilhotinados na extremidade do tronco? Não se culpe a incompetência e a estupidez, que a razão última desses atentados mora na enfermidade dos autores.
E mesmo os sobreiros abatidos, por exemplo, em Rio Tinto, há dias, violando uma lei da República sob a passividade de quem licenciou a obra (A Câmara de Gondomar) e cortando cerce carvalhos antigos, pois devemos atribuir os créditos desse vandalismo à dendrofobia. O facto de os perpetradores desse acto terem ainda espancado um cidadão que fazia valer o seu protesto, nada mais é senão a fobia estendendo-se com fúria aos humanos que com árvores se aliam.
Haja pois compreensão e esperança. Condizendo com o espírito do tempo, uma explicação clínica lança nova luz sobre a mortandade de árvores. Os parques de estacionamento onde havia jardins e árvores, bem poderiam ser antes parques temáticos de dendrofobia explicada às crianças e demais cidadãos curiosos.
E nas ruas, há os que denunciam a folhinha que caiu levemente sobre a capota de um automóvel, ou verberam os «bichos» que as árvores «criam» e entram pelas janelas incautas. Tudo isso, meus amigos, é dendrofobia aplicada e militante.
Agindo como se de uma conspiração se tratasse, mas na realidade bastando-se na sua solitária obsessão, os dendrófobos moldam as paisagens, ditam o destino de muitos espaços públicos, projectam praças e jardins de pedra, deleitam-se com a árvore que morde o pó do chão, com a mata que ardeu, com a estrada inútil que devassa um bosque e com a poda mutiladora que cria estátuas de horror para que todos possam ver, duradoiro, o poder de uma fobia em acção.
Apenas faz-me confusão por que logo havia de ser Portugal tão afectado por tal problema. Países há onde todos parecem gostar de árvores, e esse amor é visível nas cidades e nos campos.
Originalidade nacional ou somente azar?
Bernardino Guimarães
( Crónica publicada no JN em 16/2/010)

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