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Como se fosse uma praga que teremos de suportar sempre, entre aquelas que nos indignam e enojam, como o hábito de cuspir para o chão, as buzinadelas dos automobilistas e certas praxes académicas. Mas o melhor caminho será a resignação perante o que é degradante e boçal?
Consequência directa do abandono de animais é a lotação esgotada dos «canis municipais». Estruturas antigas e arcaicas o mais das vezes, sofrendo de falta de investimento crónico— que as autarquias neste caso não acham por bem gastar dinheiro. Resultado: instalações exíguas e indignas; pessoal não qualificado e não formado; falta de assistência veterinária, quando não maus tratos; alimentação péssima; alojamento para os animais verdadeiramente «abaixo de cão», onde se amontoam indistintamente animais doentes, contagiosos e animais saudáveis, onde o nome «canil» parece induzir a incapacidade de instalar gatos e outros com necessidades específicas.
Em vez de se promover a esterilização adequada e a sensibilização pública para a vergonha do abandono, opta-se pelo mais fácil: captura, aprisionamento em condições inenarráveis e abate a prazo. Falta também o incentivo à adopção informada.
Terá chegado a hora de os autarcas se preocuparem com esta chaga? Bem sei que não dá votos…mas é sabido que uma sociedade espelha no trato dos animais o seu grau de civilização. E que infligir sofrimento desnecessário a seres pelos quais somos responsáveis só pode definir uma comunidade humana doente e atrasada.
Para não ser injusto: alguns canis já não correspondem a este padrão sinistro e degradante: dizem-me que o de Valongo prima pelo cuidado com o bem-estar animal, promovendo a adopção como prioridade. Porto e Gaia pensam, pelo que li, em instalações conjuntas e construídas para o efeito, o que significaria encerrar as actuais e horrorosas instalações de acolhimento dos nossos amigos de quatro patas.
Mas resta muito para fazer. Começando pelo princípio, a concepção que se tem do problema: animais domésticos não são «resíduos urbanos» que devam ser recolhidos, armazenados e eliminados com a mesma lógica que preside ao saneamento básico. Trata-se de seres vivos e fomos nós humanos, nós comunidade e cidade, que os reduzimos à miséria e à dor depois de os termos criado para nosso prazer e companhia. Precisa-se de nova visão para este tema que pesa sobre as nossas consciências. A boa cidade é a que cuida bem de tudo e tudo integra numa harmonia de racionalidade e de compaixão.
Nem se pense que pode ser solidária e fraterna, humana para todos os nossos semelhantes a sociedade que insiste na crueldade e na indiferença quando de animais se trata. O «mundo cão» é invenção nossa.
2) Mudando de assunto: já temos segunda auto-estrada Porto-Lisboa! Bastou apenas a abertura do troço final da A 29 que liga Estarreja e Angeja e pronto. Não se nota já a aceleração do «progresso» rumo ao «crescimento»? Agora podemos optar e ir a Lisboa por 2 auto-estradas diferentes. Não ao mesmo tempo, que a ubiquidade não é dom que alguém tenha, mas alternadamente, para não enjoarmos ao ver sempre a mesma paisagem. E assim vai o país do asfalto, que as construtoras dirigem rumo a incerto túnel!
Bernardino Guimarães
(Publicado no Jornal de Notícias, em 15/9/09)
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