«Sob um governo que prende qualquer homem injustamente, o único lugar digno para um homem justo é também a prisão. Hoje em dia, o lugar próprio, o único lugar que Massachusetts reserva para os seus habitantes mais livres e menos desalentados são as suas prisões, nas quais serão confinados e trancados longe do Estado, por um ato do próprio Estado pois os que vão para a prisão já antes tinham se confinado nos seus princípios. E aí que devem ser encontrados quando forem procurados pelos escravos fugidos, pelo prisioneiro mexicano em liberdade condicional e pelos indígenas, para ouvir as denúncias sobre as humilhações impostas aos seus povos; é aí, nesse chão discriminado, mas tão mais livre e honroso, onde o Estado planta os que não estão com ele mas sim contra ele - a única casa num Estado-senzala na qual um homem livre pode perseverar com honra. Se há alguém que pense ser a prisão um lugar de onde não mais se pode influir, no qual a sua voz deixa de atormentar os ouvidos do Estado, no qual não conseguiria ser tão hostil a ele, esse alguém ignora o quanto a verdade é mais forte que o erro e também não sabe como a injustiça pode ser combatida com muito mais eloqüência e efetividade por aqueles que já sofreram na carne um pouco dela. Manifeste integralmente o seu voto e exerça toda a sua influência; não se deixe confinar por um pedaço de papel. Uma minoria é indefesa quando se conforma à maioria; não chega nem a ser uma minoria numa situação dessas; mas ela é irresistível quando intervém com todo o seu peso. Se a alternativa ficar entre manter todos os homens justos na prisão ou desistir da guerra e da escravidão, o Estado não hesitará na escolha. Se no ano corrente mil homens não pagassem os seus impostos, isso não seria uma iniciativa tão violenta e sanguinária quanto o próprio pagamento, pois neste caso o Estado fica capacitado para cometer violências e para derramar o sangue dos inocentes. Esta é, na verdade, a definição de uma revolução pacífica, se é que é possível uma coisa dessas. Se, como já ouvi um deles me perguntar, o coletor de impostos ou outro funcionário público qualquer indagar: "Mas o que devo fazer agora?", a minha resposta é: "Se de fato quiser fazer alguma coisa, então renuncie ao seu cargo". Quando o súdito negou a lealdade e o funcionário renunciou ao seu cargo, então a revolução completou-se. Mas vamos supor que há violência. Não poderíamos considerar que uma agressão à consciência também provoca um tipo de ferimento grave? Um ferimento desses provoca a perda da autêntica humanidade e da imortalidade de um homem, e ele sangra até uma morte eterna. Posso ver esse sangue a correr, agora.»
Henry David Thoreau, extracto de « A Desobediência civil.»
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segunda-feira, julho 05, 2010
domingo, julho 26, 2009
HENRY DAVID THOREAU
Um grande vulto da literatura norte-americana, que é também um símbolo da defesa das virtudes do homem livre face aos poderes e às injustiças e uma fonte permanente de inspiração para os movimentos ambientalistas— falamos de Henry David Thoreau, ensaísta, poeta e memorialista, nascido em 1817 na cidade de Concord, em Massachusetts.As suas obras ainda hoje fazem dele uma referência fundamental para muitos.
Diz-se que Martin Lhuter King e Mahatma Gandhi encontraram nos trabalhos de Thoreau fontes para a via da não-violência activa, em defesa de ideais libertadores.
A Natureza era, para este escritor, mais do que um passatempo ou cenário para o retemperar de forças. O que marca o percurso de Thoreau é o agudo sentido crítico em relação ao mundo do seu tempo, um século XIX muito cioso das comodidades e vantagens do «progresso» entendido como crescimento contínuo do bem-estar material. Esse sentido de recusa continua a ser actual, como actual é a procura de uma vida despojada das ânsias e escravidões da vida «moderna» --sem que isso queira dizer espírito retrógrado ou opositor da ciência. Mas Thoreau viveu como escreveu, numa coerência que o levou a habitar numa cabana perto do pequeno lago de Walden Pond, numa existência de grande simplicidade onde encontrou o sossego necessário à concepção da que foi a sua obra-prima «Walden ou a vida nos bosques», publicado em 1854—e recentemente editada em Portugal.
Um dos maiores vultos da cultura americana é assim, de algum modo a expressão do contrário daquilo que é o lado mais visível do «american way of life» --na sua imagem de desperdício, consumismo e alguma superficialidade.«Um homem é rico em proporção ao número de coisas que se pode dar ao luxo de não ter» escreveu Thoreau, que viu no progresso reduzido à dimensão económica e quantitativa uma realidade que «produz meios aperfeiçoados para atingir um fim que não se aperfeiçoou».
Naturalista autodidacta, Thoreau registava minuciosamente as suas observações no seu diário. O crescimento das plantas de diferentes espécies, a floração de cores múltiplas, o ruído do vento nas copas da árvores, a chegada das aves migradoras, os murmúrios do lago onde tantas formas de vida coexistem, tudo isso aparece na sua obra, particularmente em «Walden», descrevendo uma vida simples, de trabalho duro e contemplação sábia.
Outro grande escritor e seu amigo, Ralph Waldo Emerson, disse que «era um prazer e um privilégio caminhar com ele. Conhecia os campos como uma raposa ou um pássaro, e como ele atravessava-os livremente por caminhos só dele».
Thoreau explica em «Walden» a sua decisão de abandonar a cidade, mal compreendida por muitos: «Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido.»
Outro facto fundamental na vida e na obra de Henry Thoreau foi a sua passagem pela prisão. O escritor, em revolta contra a escravatura vigente nos EUA e ainda contra a invasão do México, decidiu que face a um governo injusto, que ignorava valores morais essenciais, não podia pagar impostos nem submeter-se a um tal estado de coisas; «com um governo que prende alguém injustamente, o lugar do homem justo é na prisão. A prisão é, num estado esclavagista, o único lugar onde um homem livre pode viver com honra» – escreveu Thoreau.
Libertado após alguns amigos terem pago os seus impostos— contra sua vontade— o escritor deixou esta sua experiência impressa no livro «A Desobediência Civil» uma das obras de Thoreau mais conhecidas e comentadas— também disponível em português.
Morre em 1862. O que escreveu-- e o seu testemunho-- permanece actual, para todos os que amam a integridade do Homem e a harmonia com a Natureza.
Bernardino Guimarães

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