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domingo, abril 25, 2010
ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS VÃO ORIGINAR ESTADOS FALHADOS E AUTORITÁRIOS
no Diário de Notícias, Ciência, hoje
Alerta: não é o fim do mundo, mas pode ser o fim de muitos Estados. Antonio Marquina, catedrático de Relações Internacionais da Universidade Complutense de Madrid e coordenador do livro 'Global Warming and Climate Change - Prospects and Policies in Asia and Europe', editado em Nova Iorque, Londres e Sydney, avisa que a segurança entre vários países está em risco devido ao aquecimento global e à desertificação
Antonio Marquina, professor catedrático de Relações Internacionais na Universidade Complutense em Madrid, acaba de editar o livro Global Warming and Climate Change - Prospects and Policies in Asia and Europe -, que perspectiva o impacto e as consequências do aquecimento global e das alterações climáticas na Ásia e na Europa. A obra, que começou a ser preparada há três anos e tem contributos de 29 especialistas asiáticos e europeus, chama a atenção para os problemas de segurança, que vão colocar-se a nível mundial, devido à proliferação de Estados "falhados", como a Somália e o Afeganistão.
A falta de água, de alimentos e de condições de vida mínimas, nomeadamente em alguns países asiáticos e no Norte de África, provocarão novas migrações e o surgimento de mais regimes autoritários. O Norte e o Sul da Europa, dentro de 30 anos, serão igualmente duas realidades bem distintas e haverá uma profunda clivagem entre os países que hoje fazem parte da União Europeia.
No livro descrevem-se situações provocadas pelas alterações climáticas que podem colocar em causa a segurança humana. Trata-se de um alerta?
Mais que isso, é uma reflexão sobre dados científicos que temos e que conhecemos e sobre aspectos que ainda hoje nos parecem pouco compreensíveis. Ainda não sabemos ao certo as interconexões de determinados fenómenos, mas, em função do que conhecemos, deduzimos uma série de consequências muito importantes e às quais há que dar a maior atenção. Gostaríamos que os governos e a opinião pública reflectissem sobre as consequências do aquecimento global nas vidas das pessoas, já que vai ter um impacto importante na vida de milhões de pessoas. Muitos países perderão força, capacidade de governo, de fornecer serviços públicos... E outros haverá que, devido a esta incapacidade, entrarão em colapso e terão graves convulsões políticas e sociais.
Aquilo a que chama "Estados falhados"...
Sem ser alarmista - a partir de 2030 até final do século - verificamos que há problemas de uma certa envergadura que, em função de uma extrapolação sobre a aplicação das políticas de mitigação ou de adaptação que existem, vão ter consequências terríveis se não se fizer algo mais. Haverá muitos países perdedores, muitos, e também ganhadores.
A que países se refere?
Estamos a falar de países da Ásia e da periferia da Europa.
Do Sul?
Sim. O Sul da Europa vai ser o grande perdedor devido às alterações climáticas. Perde no crescimento económico, nos recursos disponíveis, na disponibilidade de água. Terá de reorientar a despesa pública e não pública para os recursos básicos que vão escassear.
Vamos ter então conflitos por causa da água, dos alimentos... por causa da sobrevivência mais básica?
Primeiro vamos ter uma nova afectação de recursos, que deveriam ser destinados à melhoria da vida da população. Essa nova gestão dos recursos será essencial para que as populações possam comer e beber e também para uma distribuição de água pela agricultura, indústria, urbanização... A redistribuição vai ser complicada e há processos que já não têm solução. Por exemplo o da água dos rios em muitos países da bacia do Mediterrâneo, no Norte e no Sul, que já registam uma redução muito significativa ao longo dos últimos 40 anos. Em Marrocos, verificou-se nas ultimas quatro décadas uma diminuição de 35% no fluxo de água dos rios.
É possível que a temperatura suba 1 ou 2 graus na próxima década? Isso agravará a situação?
Depende das zonas. Para o Mediterrâneo, calcula-se - sendo optimista - que possa chegar a subir cinco ou seis graus ainda neste século. Em 2020, a subida das temperaturas, com base em medições realizadas nos anos 50 ou 60, poderá chegar a ser de um ou dois graus. Se ultrapassar este valor, imagine-se o que vai custar a adaptação a essa nova realidade.
E quais serão as consequências para a Península Ibérica?
Vão ser consequências líquidas. Boa parte das verbas que se poderiam empregar, por exemplo para o bem-estar da população, para melhores cidades, melhor meio ambiente, para o habitat, vão ter de ser para algo mais básico, que tem a ver com a água. Mas onde vamos conseguir água suficiente para tantas pessoas?
Há dados que podem demonstrar que isso vai realmente acontecer assim?
Os dados com que trabalhamos resultam de investigações feitas ao longo de anos. Na questão da água citamos estudos feitos pela União Europeia e pelo Ministério do Ambiente espanhol para o caso de Espanha. Os mapas são projecções que se fazem da actualidade até 2030 acerca de reservas e diminuições de recursos de água que são muito significativas em todo o Sul da Europa. A água para a agricultura vai reduzir-se drasticamente porque esta tem de servir também para as cidades e para a indústria. Essa vai ser a questão mais importante para que os governos tomem decisões nos próximos anos. Já é possível calcular os gastos em dessalinizadoras, em energia para tirar o sal à água, em instalações e na depuração da água para que possa ser reutilizada.
Vamos então pagar muito caro a água e a alimentação?
Sim, vai ser muito caro.
A Península Ibérica vai desertificar-se?
Sim, a desertificação é crescente. Mas, para já, é muito mais grave o que está a passar-se no Norte de África. O processo de desertificação em Marrocos, Argélia, Tunísia, até ao Egipto, é enorme. Isso vai provocar novas migrações? A Europa vai estar mais pressionada... Sem nenhuma dúvida.
Mas, se no Sul da Europa também houver escassez de água e de alimentos, para onde vão esses imigrantes que vêm do Norte de África?
O impacto vai ser muito diferente, dependendo dos casos. Por exemplo em Marrocos, em que 44% da população vivem da agricultura, mas que é uma agricultura de subsistência, que está nos limites, qualquer subida de temperatura de um grau ou de dois graus, qualquer alteração na estação das chuvas - antes era de seis em seis meses, agora é de três em três - poderá agravar a situação agrícola que, como disse, já está a atingir os limites. A Líbia e a Argélia também estão na mesma situação. O único país que se salva, para já, a nível agrícola, é o Egipto por causa do delta do Nilo. Mas isso só será assim enquanto o nível do mar não subir. Ora, os números mais conservadores falam de uma subida do nível do mar de meio metro neste século. Há outros estudos que indicam um metro, metro e meio e até dois metros...
Neste livro, há também uma importante abordagem aos problemas da segurança provocados por estas alterações do clima. Quais são as perspectivas? Terá de haver intervenções militares?
O que sabemos é que há questões muito sérias, que vão afectar a vida das pessoas, dos Estados, da segurança estatal. Se há Estados falhados ou Estados que se debilitam muito e onde a autoridade central não chega - caso da Somália e Afeganistão - que começam a dar problemas e a afectar a segurança de milhões de cidadãos, então vamos ter de acabar por intervir. Isso é uma das coisas que dizemos neste livro. Trata-se da responsabilidade de proteger que actualmente só se aplica para casos de grandes massacres. Mas, se isto continua assim, o Conselho de Segurança da ONU vai ter de reconhecer que existe a necessidade e a responsabilidade de proteger os cidadãos de Estados que são incapazes de fornecer o mínimo, porque estão enfraquecidos, porque dependem da importação para sobreviver ou porque tem imigrações internas maciças. Estes Estados vão estar sem capacidade para enfrentar seja o que for.
Significa que vai haver uma grande clivagem entre o Norte e o Sul?
O entendimento entre o Norte e o Sul será cada vez mais difícil. E note-se que a tendência é para o agravamento dos regimes autoritários. Na Ásia, estes casos já são notórios e no Norte de África, também. Os regimes só mudam em função da alternativa que as pessoas têm para viver melhor.
E a Europa?
Partindo de um estudo e projecções de alterações climáticas graduais, é claro que os países do Norte da Europa irão aumentar o seu poder em relação aos países do Sul, que estarão mais debilitados. O equilíbrio de forças vai mudar.
As alterações climáticas tornaram-se uma prioridade dos líderes europeus. A União Europeia tem feito um bom trabalho de casa?
A Europa fez o que tinha a fazer e fê-lo inclusivamente bem na Cimeira de Copenhaga. O que se passa é que ninguém segue a Europa nesta questão. A União Europeia tem de ser mais pragmática, mais negociadora. Afirmar- -se como actor normativo não a levou a sítio nenhum. Pode ser que tenha de ser necessário reduzir um pouco as suas posições para poder convencer a China, a Índia e os EUA e chegar a acordos concretos. As políticas de mitigação e de adaptação às alterações climáticas são muito diferentes na Ásia e na Europa. Com a excepção do Japão e da Coreia do Sul, ninguém na Ásia fez ainda nada.
terça-feira, dezembro 08, 2009
COPENHAGA É AQUI
Começou a Cimeira Mundial de Copenhaga sobre as Alterações Climáticas. Entre ansiedade e esperança. Veremos até que ponto as nações são capazes de ultrapassar inércias e egoísmos nacionais para chegarem a uma plataforma viável. O consenso geral da comunidade científica (mesmo que se façam ouvir, como é natural, vozes dissidentes) é de que, se não for reduzida significativamente a quantidade de dióxido de carbono e outros gases de efeito de estufa, lançados para a atmosfera como subprodutos da nossa voracidade por energia— e por combustíveis fósseis--, o clima mudará aceleradamente e isso provocará danos imprevisíveis. Procura-se que a temperatura média da Terra não aqueça mais do que 2 graus até ao final do século— que desse aumento já nos não livramos— para impedir que a «febre do planeta» suba mais ainda, sabe-se lá quanto.Tenho abordado nestas crónicas a necessidade de as cidades— que é onde mais se consome, energia e outros recursos, e mais se polui— terem uma estratégia de redução do seu impacte ambiental. Venho alertando para a urgência de a Área Metropolitana do Porto fazer esse esforço de inovação e de racionalidade, o que aliás só ajudará a colocar esta região urbana no rol daquelas que preparam bem o futuro, em termos de energia, de eficiência energética sobretudo, de transportes, de ordenamento do território e urbanismo. Muita coisa tem avançado nesse sentido— mas ainda longe daquilo que seria desejável.
Temos pois de criar as condições para poluirmos menos e diminuirmos o nosso contributo regional para as alterações climáticas globais.
Mas o mal tem uns 150 anos, desde os alvores da industrialização, e em parte já estará feito. Quer dizer: se podemos evitar a amplificação catastrófica da ameaça climática, não está já ao nosso alcance evitar o que serão efeitos negativos induzidos pelo aquecimento do clima em cerca de dois graus médios.
Pelo que importa que haja uma «estratégia de adaptação» ao nível local e metropolitano como nacional.
Começando por saber o que nos diz a melhor Ciência sobre os impactes climáticos com incidência nacional e regional nas próximas décadas. Que impactes podem ser esses e como podemos prepararmo-nos para os enfrentar.
Exemplos: como prevenir males maiores no litoral que já hoje recua e se desfaz em certas zonas. O aumento do nível do oceano apenas irá agravar o fenómeno. Secas mais prolongadas e estios mais severos causarão mais problemas às florestas e à agricultura e não deixarão de afectar a quantidade e qualidade da água disponível. Seria sensato pensar nisso agora e não quando for tarde de mais. O aquecimento do clima terá consequências, ainda mal estudadas, em produtos que são de há muito baluartes da economia regional—o vinho do Porto por exemplo. E que novidades trará ao turismo? As pescas serão outro sector que verá modificações, de resto já em curso, com algumas espécies tradicionais a fugirem das nossas águas para nelas aparecerem peixes de origem subtropical. Estudar bem estes itens e tantos outros, que terão incidência diversa em cada região, deveria ser uma tarefa também presente na agenda do Grande Porto.
A saúde e a protecção das populações causa preocupação. Temos planos que enfrentem ondas de calor como a de 2003, que causou milhares de mortes em Portugal?
Aí tudo falta, creio; planos de emergência que salvem vidas e urbanismo que integre nas prioridades a amenização do clima urbano, com mais zonas verdes e circulação de ar e de água não obstruída, entre outras medidas urgentes.
Adaptação— vamos ouvir esta palavra muitas vezes no futuro próximo!
Bernardino Guimarães
(Crónica publicada no Jornal de Notícias a 8/12/09)
segunda-feira, agosto 10, 2009
CLIMA EM PORTUGAL
Do « Público»10.08.2009 - 08h41 Helena Geraldes, Romana Borja-SantosO Verão está com ares de Primavera, especialmente nas manhãs e noites ventosas, e os veraneantes andam algo inquietos com a "partida" climatérica. E têm razão. Houve dias de Primavera mais quentes. E as temperaturas médias de Julho foram mais baixas do que os valores normais, segundo o Instituto de Meteorologia.A máxima registou uma diminuição de 0,5ºC e a mínima de 1,2ºC. E também choveu mais do que seria normal, especialmente nas regiões do Noroeste.Contudo, dois novos estudos científicos a que o PÚBLICO teve acesso provam a inconstância do clima, dando conta daquilo que tem vindo a acontecer com a temperatura e a precipitação nas últimas décadas em Portugal.João Andrade Santos, do CITAB (Centro de Investigação e Tecnologias Agro-Ambientais e Biológicas) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, estudou as alterações da temperatura em Lisboa no século XX. "Observámos subidas bastante significativas da temperatura máxima durante todo o ano, com particular intensidade em Março [quase mais 4ºC]", contou ao PÚBLICO. "A tendência para o aumento da temperatura é mais acentuada a partir dos anos 70. É uma tendência muito clara."Além disso, são cada vez mais frequentes as temperaturas extremamente elevadas na capital. "O período de retorno de uma temperatura superior a 40ºC era, na primeira metade do século XX, de cerca de 50 anos, tendo caído para 25 anos na segunda metade deste século", explicou."A temperatura em Lisboa é, obviamente, diferente do resto do país. Mas o comportamento e evolução desta série [baseada em dados da estação meteorológica do Instituto Geofísico Infante D. Luís, em Lisboa, a mais antiga do país] é muito semelhante às restantes e as conclusões podem ser extensíveis a quase todo o continente", notou.Menos chuva em MarçoNão são só as temperaturas que estão a mudar. O mesmo acontece com os padrões de precipitação. Entre 1950 e 2002, a precipitação nos meses de Março na Península Ibérica registou uma redução de oito por cento e de três por cento nos meses de Abril e Maio. Estas foram as conclusões de um estudo do Instituto Pirenaico de Ecologia, em Saragoça (Espanha), publicado no mês passado. "Tem-se assistido a uma redução progressiva desde meados do século XX e todas as projecções indicam que esta projecção se vai manter depois de 2050", disse ao PÚBLICO Sergio Vicente, do instituto espanhol. Na Primavera e Verão, esta redução pode atingir os 15 por cento.Não obstante, os cientistas acreditam que as estações do ano continuarão a ter o seu lugar. "As mudanças que identificámos não são suficientes para alterar o padrão anual de precipitação", salvaguardou.Para Filipe Duarte Santos, coordenador do projecto SIAM (Climate Change in Portugal. Scenarios, Impacts and Adaptation Measures), "é mais difícil fazer projecções para a precipitação porque é uma variável mais difícil de modelizar. Mas quanto à temperatura, não há dúvidas. O sinal de aumento é bastante claro na Península Ibérica", comentou ao PÚBLICO.Ainda assim, este investigador - que estuda o impacte das alterações climáticas desde a década de 80 do século passado - não hesita ao explicar as variações na precipitação com a localização do anticiclone dos Açores. "Quando o anticiclone tem uma intensidade elevada, bloqueia as superfícies frontais que são levadas para norte e não chegam ao Sul da Europa." A tendência para o futuro é chover mais no Norte da Europa e menos no Sul porque o anticiclone dos Açores deverá deslocar-se para norte. "Todos os modelos são concordantes nisto."O que é certo é que estas "partidas" do clima não são de hoje. Há 122 anos já Portugal andava inquieto, mas não os veraneantes e sim os agricultores. "Dizem os nossos lavradores que as estações estão mudadas, porque a época das grandes chuvas - a dos frios rigorosos - e a dos grandes calores já não condizem com as de outros tempos", escreveu o Visconde de Monte-São (Manuel dos Santos Pereira Jardim, 1818-1887), numa publicação de 1887 da Universidade de Coimbra. Mais de um século depois, continuamos a falar sobre a variabilidade do clima. E a tentar identificar o que são alterações naturais ou causadas pelo homem.
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adaptação e mitigação,
alterações climáticas
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