Foi-se o dia que lhes atribuíram, ficaram as árvores. Ou pelo menos ficaram as que sobram de todos os rancores, circunstâncias e más vontades que as impedem, às árvores, de viver e de crescer. É claro que as efemérides nem sempre deixam marcas. O dia 21 de Março, neste clima ameno e agora já primaveril, não é tempo de plantar árvores e mesmo assim o plantio faz parte de toda a cerimónia que se preze…para a fotografia certamente. Quantas sobreviverão?
Estou certo de que mesmo as escolas que, renovadas e restauradas por édito governamental e de onde muitas e grandes árvores foram removidas, destruídas em nome do «progresso», até essas hão-de ter realizado a sua comemoraçãozinha adequada e reconfortante.
A função das árvores na ecologia e na economia, na balança de pagamentos e no ar que se respira, na beleza que inspiram e na riqueza que geram, isso foi propalado e discursado por todos os cantos da pátria. Pena é que continue sem haver ideia e vontade que salve e mantenha a floresta e cuidado e atenção que valorize a árvore.
No mundo todo, perderam-se já metade das florestas primárias ou originais por acção humana. A outra metade está querer a destruição das florestas húmidas, arrasadas sem dó nem piedade para dar lugar aos cultivos.
Mas na Europa quase nada resta do coberto vegetal de há uns séculos atrás, e apenas o replantio fez de novo surgir o verde no Velho continente, sem os valores naturais inseridos na vida da floresta antiga.
Somos nós, europeus e portugueses em particular, compradores de vasta madeira tropical proveniente da África ocidental e da América do sul, e boa parte desse comércio é ilegal e não respeita em perigo. Sempre que usamos óleo de palma, por exemplo, incentivamos sem as condições mínimas de sustentabilidade no corte e na gestão dos recursos florestais. Mas somos pródigos em conselhos dirigidos aos países do sul, apelando à protecção das matas tropicais sem pensarmos que, afinal de contas, sem compradores não há comércio e muito menos fora da lei e sem certificação exigível.
Por cá, também o dia mundial da floresta e da árvore foi ocasião para as habituais considerações sobre a importância da floresta. Mas será floresta, terá direito a esse nome, um infindável conjunto de árvores de uma só espécie, clonadas umas das outras por vezes e ainda por cima exóticas, quer dizer, sem relação com os ecossistemas das regiões onde são fixadas? Matas de produção, comerciais, são uma coisa; outra é a floresta que quase já não temos. Mas ambas estão ameaçadas põe um invasor implacável, o fogo, e parece que os meses outonais e invernosos nos fazem esquecer os dramas de cada Verão, que já só recordaremos quando os noticiários estivais, ou antes disso, nos derem conta das chamas percorrendo o país inteiro.
Para mudar isso, um só dia é mesmo muito pouco.
Bernardino Guimarães
(Crónica emitida em Antena 1, 24/3/2011)
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quinta-feira, março 24, 2011
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