Estaremos à beira de um novo «choque petrolífero»? Os ventos que sopram do norte de África apontam nessa direcção. Uma inquietação forte tomou conta dos mercados e o preço do crude subiu, levando os especialistas a prever o custo do barril na casa dos 200 dólares, ainda este ano. A verdade é que poucos contariam com convulsões sociais e políticas tão fundas e graves em países que eram a ilustração perfeita da imobilidade e do conformismo. Povos habituados e sofrer em silêncio, resolveram desmentir o costume e mudar o curso da História. Alguns dos países onde se verifica a «revolta árabe» não possuem petróleo. Outros sim. Os países ocidentais, a começar pela vizinha Europa, dão conta da sua imprevidência: não só descuraram a sua independência face aos exportadores de «ouro negro» como pactuaram longamente com regimes tirânicos onde os direitos humanos eram espezinhados. O poder do dinheiro e a comodidade das fontes de abastecimento falaram mais alto. Vemos assim Portugal a dar-se conta da sua dependência do petróleo da Líbia, por amor do qual se voltou a dar a mão e hospedagem ao líder absoluto, anos antes considerado terrorista e ameaça global. A política do «realismo» e do interesse económico acima dos princípios, descobre agora a sua fragilidade e a sua imprudência num mundo de mudanças rápidas e de movimentações voláteis.
Em que nos afecta isto? Basta pensar na despesa crescente, visto que a dependência energética total, acende nos combustíveis fósseis, pouco ou nada diminuiu e que qualquer oscilação nos preços virá a ter consequências financeiras graves.
Será que o aumento dos preços do petróleo e do gás natural era assim tão imprevisível? A recuperação económica mundial— ainda a sair do colapso bolsista/bancário— seria suficiente para fazer crescer, gradualmente os preços, à medida que aumentasse a procura. O que agora se enfrenta é uma provável escalada rápida e sem transição.
O mundo dependente dos combustíveis fósseis é um mundo perigoso. A nossa vida pode ser afectada nas suas rotinas e isto em tempo de crise e de penúria de recursos.
Resta saber se este sobressalto pode ser oportunidade.
Nas cidades, é imperativo adoptar novos modelos de mobilidade. A eficiência energética tem de ser a regra e a base de todas as medidas. As redes energéticas terão de ser «inteligentes» e descentralizadas, de modo a poupar desperdícios de «transporte». O consumo deve ser orientado para critérios de maior proximidade, reduzindo a distância/quilómetros entre produção e consumo. Cidades menos extensas e mais compactas (reabilitando construções antigas em vez de construir novo) permitirão serviços de transportes públicos mais eficientes e cómodos e menos tempo diário perdido pelos cidadãos.
Em Espanha, adoptou-se há dias um novo e mais baixo limite de velocidade nas estradas, medida com a qual o governo conta poupar mais de 10% de combustível.
Também neste caso iremos copiar os nossos vizinhos? Vale a pena pensar no assunto.
De um modo geral, acabou o tempo das certezas que nos vendiam. Acabou há muito tempo, mas só agora o vamos percebendo. Mais uma vez, ambiente e economia se cruzam nesta curva apertada: o que fizermos para ultrapassar a «era dos combustíveis fósseis» deverá ser importante para resolver a crise das alterações climáticas e a perda de biodiversidade, a crise ecológica global.
Uma região metropolitana como a do Porto deve saber antecipar os impactos das mudanças que nos interpelam— e ser actor do seu destino como aglomeração urbana em vez de apenas sofrer as consequências de decisões e factos que acontecem longe de nós.
Bernardino Guimarães
(Crónica publicada no Jornal de Notícias em 1/3/2011)
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terça-feira, março 01, 2011
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