Entre os números que espelham a crise, o desemprego, as empresas que fecham, a confiança que desce, os problemas sociais que se avolumam e preocupam, e aqueles outros que trazem um pouco de alento, as exportações que aumentam, a maior importância da investigação e ciência, há ainda outros números. Mesmo para quem seja definitivamente avesso a estatísticas— não se pode deixar sem atenção a realidade mais surpreendente: como seja a de que, em 2010, ano de crise e de quase paragem no crescimento económico, Portugal viu crescer, e bastante o seu consumo de energia. Também surpreendentemente, entre nós aumentou o peso dos resíduos sólidos urbanos. Quer dizer: em ano de austeridade e de aperto de cinto, consumimos mais energia e fizemos mais lixo. Paradoxo? Facto difícil de explicar, certamente, e ainda não se viu pista que esclareça estes resultados que, além do mais, andam ambos em contra-vapor do que na Europa se passa. Mesmo nos países onde a depressão económica não se fez sentir tão dramaticamente.
Uma coisa é certa: a nossa rota não é de sustentabilidade nem para lá caminha, mas de desperdício e de ineficiência com múltiplas causas, que importaria compreender. Desde logo porque alguma coisa está tremendamente errada num país que consome energia de forma crescente— mais 3,3% no ano passado— sem qualquer relação com a criação de riqueza e de bem-estar social. Não faz sentido, simplesmente.
Algumas coisas, para já podem ser apontadas— falhou totalmente a intenção de promover a eficiência energética e a poupança. A trajectória que se constata levará o país, por absurdo, a dobrar o seu consumo de energia em poucos anos!
Se a produção de electricidade cada vez mais, incorpora fonte renováveis, o que é positivo, convém não esquecer que essa mudança se faz em parte com recurso a obras com enorme impacte no ambiente, como as barragens. Valerá a pena sacrificar o rio Tâmega— tão ligado à nossa cultura e cuja beleza foi cantada por autores ilustres ao longo do tempo— torná-lo numa cascata de embalses e contra-embalses, emparedá-lo e torcê-lo-- para produzir electricidade destinada ao desperdício? A melhor energia é a que não se utiliza e o facto de não termos o mínimo de eficiência e inteligência no seu uso pode pôr em causa a necessidade de trucidar rios e fazer desaparecer vales. Legitimamente se pergunta: serão necessárias essas obras e esses sacrifícios de ecossistemas e paisagens?
Fazer o mesmo ou mais, usando a mesma energia, este deveria ser o objectivo. Mas será necessário um esforço importante, e o Estado terá de dar o exemplo e o impulso— a menos que, e isso seria bom sinal, os cidadãos, a chamada «sociedade civil» queiram ter neste caso parte significativa. Muita coisa se pode fazer na base, e a iniciativa cívica tende a suprir a ineficácia e o peso inerte das instituições oficiais.
O que se diz sobre a energia, pode dizer-se sobre os resíduos. Convém perceber, antes do mais, como é que apesar da nítida—e documentada—retracção do consumo, ainda é possível que aumente o lixo urbano produzido? Toda uma política desaba, apesar da propaganda, face à realidade. Temos baixas ou muito baixas taxas de reciclagem (embora em lento crescimento) e nulas iniciativas para reduzir o volume de resíduos, nas embalagens e na promoção de práticas de reutilização, que aliás só vêm diminuindo.
Um país em processo de empobrecimento, com excesso de desigualdade social e pesadas nuvens negras sobre a forma de dívida e baixa produtividade, mas que aumenta exponencialmente o consumo de energia e gera cada vez mais resíduos, pode dizer-se que está doente. Doente o país e errados os remédios que lhe receitam.
Bernardino Guimarães
( Crónica publicada no Jornal de Notícias em 15/2/2011)
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terça-feira, fevereiro 15, 2011
quarta-feira, setembro 01, 2010
RECICLAGEM
A ser verdade que boa parte dos resíduos separados pelos cidadãos do Porto e depositados nos ecopontos, é misturado pelos serviços de limpeza municipais com o lixo indiferenciado, sofrendo o destino comum da incineração—estamos perante um triste exemplo do que não deveria nunca ser feito. Do que não julgaríamos possível.
A reciclagem doméstica de resíduos é uma importante fracção do que deverá ser uma política de tratamento adequado dos chamados « lixos urbanos» reduzindo o monstruoso desperdício de recursos valiosos e a dramática escassez de locais de deposição dos restos do grande festival do consumo.
A falta de oportuna recolha domiciliária dos materiais separados—apenas ensaiada como experiência que infelizmente, não se generalizou—faz da ida ao ecoponto um gesto de voluntarismo cívico, de doação de tempo e de esforço que muitos cidadãos repetem diariamente, desmentindo a tão propalada indiferença geral e apatia. Uma soma colossal de pequenos sacrifícios que em prol do ambiente são realizados, sendo as autarquias beneficiadas financeiramente com o produto desses esforços anónimos que enchem os contentores tricolores. Ainda em muito menos escala do que em alguns países, a reciclagem entrou no vocabulário e na rotina de muitos, e é felizmente crescente a sua expressão.
Mas tudo isso depende, em primeiro lugar, de uma coisa simples: confiança. O gesto de civismo assenta na credibilidade do processo. Cidadãos que separam correctamente e depositam os resíduos nos ecopontos disponíveis, câmara municipal de os recolhe a tempo e horas e os encaminha fielmente para a unidade onde serão processados devidamente.
Se um destes elos se quebra, nada funciona. E como repor a confiança que tenha sido quebrada?
Já de há muito se constata que, pelo menos no Porto—mas o problema deve sentir-se em muitos concelhos—os ecopontos, uma vez cheios, não são esvaziados atempadamente, gerando maus cheiros e a perplexidade dos que a eles ocorrem, carregando sacos de resíduos, por vezes implicando deslocações consideráveis seja qual for o estado do clima. Vítima do seu próprio sucesso, atraiçoada por quem tem obrigação de a promover, eis a reciclagem literalmente nas ruas da amargura.
A simples suspeita de que o destino dos resíduos possa ser o mesmo que o dos lixos amalgamados e indistintos, irá seguramente infligir danos irreversíveis a um processo que seria preciso alargar e incentivar de várias maneiras.
Se é verdade que tal sucede, exige-se explicações e credibilidade para evitar que tal se repita. Sendo falsa a alegação, a Câmara deverá fazer o serviço público de esclarecer a cidade, afastando dúvidas sobre a eficácia e lisura dos seus procedimentos neste caso da reciclagem.
Reciclagem que não é tudo, diga-se de passagem, em matéria de gestão sustentável dos resíduos. A Redução é mesmo mais importante ainda, pois não podemos insistir na loucura do aumento da produção de lixo. E a Reutilização também é importante, sendo que nesse aspecto estamos mesmo a andar para trás!
Seja como for, sem mobilização cívica e esclarecimento público aprofundado nada se fará—e isso exige verdade e transparência como condição primordial!
Tudo isto, que tem a ver com resíduos e a forma como os encaramos e tratamos, se insere, ou deve inserir, no quadro mais vasto de procura de sustentabilidade, de procura de soluções para os problemas ambientais que se acumulam e agravam. Mas pouco se vê nessa sentido, enquanto outras tristezas de Verão se agigantam, para nosso desgosto: fogos florestais devastadores, abandono de animais, mortandade nas estradas. Mas isso são outros contos, outras crónicas!
Bernardino Guimarães
( Crónica publicada no JN, 31/8/010)
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