sábado, maio 30, 2009

A CIDADE SEM FLORES

Chega o calor, adivinha-se o Verão--tempo de «estação parva», eu bem sei. Mas a cidade torna-se habitável, mais legível nas suas (minhas) geografias sentimentais. Não sendo o momento para grandes voos sobre problemas fulcrais na agenda política e económica, será permitido abordar o trivial que a ocasional calma urbana nos inspira?
Não sei se os meus caros leitores já repararam, mas o Porto— como outras cidades, que o facto não se limita às velhas muralhas da Invicta— perdeu as suas flores. Um vento de erradicação florística varreu tudo, desde as incursões urbanísticas «Porto 2001» até hoje. Canteiros, jardins inteiros, artérias citadinas onde jardineiros, com gosto e esforço que vinha de longe no tempo, semeavam e plantavam cores e formas, discretas ou extravagantes, sob a forma de plantas com flor— tudo foi desaparecendo. Os espaços verdes recentemente intervencionados ilustram bem essa campanha de «limpeza botânica», sendo visível a triste perda de diversidade e de colorido. Arbustos também não são tolerados— e o que se vê parece tudo igual, uma ou duas espécies ralas e cabisbaixas, sempre as mesmas, como que saídas da mesma fábrica de verde sem matizes ou subtilezas, impondo a sensaboria e a uniformidade mesmo onde antes, se cultivavam canteiros de flores multiformes que minoravam, aos olhos do passante, a secura e o cinzento da urbe nos seus melhores recantos.
Qual a causa desta coisa? Que escola de pensamento fez das plantas com flor um inimigo a abater, uma excrescência pirosa a evitar, uma memória de padrões e cores e perfumes que a pós-modernidade não pode consentir?
È quase certo que jardim ou logradouro urbano, praça ou avenida reabilitada (deveria dizer «requalificada?») igual a espaço sem flores. Essa fórmula parece não sofrer de dúvidas, mesmo metódicas, nem remorsos: o leitor pode comprovar essa intransigência um pouco por todo o lado. Moda? Directiva inflexível de arquitectos amantes do cimento e do granito pintado, cuja suave tonalidade não admite contraste, provocação de cores vivas?
Pobre cidade que em vez de apreciar flores sofre os «grafittis»!
Para titular esta crónica estival, servi-me, desvirtuando-o, do nome do romance de Augusto Abelaira «A Cidade das Flores». Para mostrar o dilema do cronista, trago aqui também a canção do compositor brasileiro Geraldo Vandré «P`ra Não Dizer Que Não Falei das Flores». Sim, um dever que a consciência me impôs— e fica protestado.
Os cidadãos deveriam poder falar de flores? Escolher entre modelos possíveis para os (poucos) espaços verdes e entre concepções que ninguém explica ou esclarece, apenas são impostas, talvez para desgosto da maioria?
Já que se fala de jardins, sabe-se que a Câmara Municipal vai reformular o Jardim da Cordoaria, consumindo avultada verba só para corrigir uma série de absurdos mais insustentáveis e entorses de resolução inadiável. Poucos anos passados sobre a «requalificação» do velho jardim romântico, alguma coisa teria de ser feita! As soluções adoptadas foram de tal forma inadequadas e insensíveis— e de gestão impossível— que não se pôde evitar a nova intervenção. Pena é que não se encare a restauração integral da Cordoaria, um jardim verdadeiramente assassinado e descaracterizado em 2001. Ficará para a história da cidade como uma intervenção tão cara como infeliz— que ao menos se aprenda com o erro crasso!
Talvez ajudasse, nestas situações, uma maior atenção, um escrutínio cívico sobre as decisões que a todos afectam. Atempadamente.
Como se diz na referida canção de Geraldo Vandré: «Vem, vamos embora/ Que esperar não é saber/ Quem sabe faz a hora/ Não espera acontecer…/
Bernardino Guimarães
Fotos de Raízes.e.Asas
( crónica publicada no Jn em Agosto do ano passado)

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