quarta-feira, maio 06, 2009

LITORAL

Voltamos sempre às praias, a esse horizonte de mar que nos atrai e encanta. Cada ano se repete o êxodo para as estâncias marítimas e nem os avisos sobre a crueza inusitada dos raios ultravioletas nem mesmo, por vezes, a evidente contaminação das águas e da areia nos demovem. O litoral é ponto de encontro, o turismo de sol e praia continua sendo o prato forte da oferta portuguesa, enfim, dir-se-ia que nada se coloca entre o nosso objecto de desejo e a realidade física e ecológica que o litoral é.
Só que...o litoral, a extensa costa marítima portuguesa, tão variada na sua morfologia e nas suas potencialidades, encontra-se num mau momento. A crise anunciada torna-se preocupante: erosão costeira, praias que encolhem face ao avanço do mar, areias que se somem por efeito das vagas, falésias que fraquejam e dão de si. Este panorama pode observar-se um pouco por todo a costa. Mercê de fenómenos naturais agravados pelos erros humanos.
Se a subida do nível dos mares é coisa mensurável, concreta, tendo como principal causa o aquecimento da temperatura global, as tais alterações climáticas que a nossa poluição atmosférica está já a produzir, a capacidade de resistência do litoral está enfraquecida e responde mal ao avançar das vagas. Porque as areias já não chegam ao litoral trazidas pelos rios ao longo do seu curso, travadas pelas barragens; porque a construção de edifícios, estradas, barracos e o simples pisoteio, destruíram os cordões dunares e a vegetação que os fixava; porque as barreiras artificiais contra a invasão das ondas apenas conseguem agravar, muitas vezes, o problema, empurrando-o para mais adiante; enfim, porque a cobiça, o desmazelo e a falta de civismo e de saber conduziram a este recuo do território, e ninguém pode prever onde acabará. Com oitenta por cento da população aglomerada perto do litoral, o país bem devia reflectir sobre as causas das coisas e o que fazer para evitar o pior. A despeito de leis e planos, sempre úteis mas insuficientes por falta de coragem política, a verdade é que se continua a cometer os mesmos erros. Tomemos o litoral da Área Metropolitana do Porto - desafio o leitor a percorrê-lo, numa destas manhãs, para ser mais agradável o passeio, e a ver, com os seus olhos, os crimes mais recentes. Verá urbanizações junto ao mar e até em cima do que eram dunas, piscinas municipais (!) e hotéis também em dunas, com o mar a cavar erosão no nível mais abaixo, ameaçando a prazo pessoas e bens. Verá, infelizmente, estradas sem estética nem sentido quase a roçar as praias e placas anunciando mais urbanizações nas poucas zonas onde o litoral não estava ainda betonado. A inconsciência não tem limites?
Finalmente, «operações de requalificação» anunciam-se ou mostram-se — pior a emenda que o soneto, estradões de asfalto paralelos á costa, mais construções, o que resta de dunas confinadas a faixas exíguas, entre vias rodoviárias, parques de estacionamento...e o mar que todos os anos reclama mais espaço. Este desastre merece um plano de emergência efectivo, com medidas corajosas e esclarecidas, antes que o pior aconteça— mesmo que doa aos interesses de rapina instalados. Mas quem avança com tal empreitada? De tanto se querer rentabilizar o espaço junto ao mar, já pouco resta de atractivo e de paisagisticamente saudável. Mas a costa corroída, todos os anos um pouco mais, é aviso que não pode ser ignorado. Muito
do que se construiu será posto em causa, não já—desgraçadamente—por auditorias e inquéritos—mas pela primacial força das ondas, face ás quais não há defesas infalíveis e permanentes.
Bernardino Guimarães

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