quinta-feira, junho 18, 2009

OS POMBOS E A CIDADE

O tempo tudo muda. Mudam-se as vontades acerca das mais diversas coisas, tecem-se desvairadas, peremptórias sentenças sobre tudo e mais alguma coisa, alterando o que dantes era consensual.
Depende da visão que predomina sobre as coisas. Os pombos, essas pacíficas— e símbolos de paz— aves urbanas, não escaparam a essa modificação de perspectivas. Hoje parece que predomina, em relação aos prolíficos pombos das cidades, uma visão que se diria higienista radical, prenhe de angústias hipocondríacas e modernas. Onde já vai o olhar, anteriormente dominante, dos pombos como presença poética, atenuando um pouco a aridez agressiva do espaço urbanizado? Dos pombos emblema turístico, a sua ruidosa agitação como parte da vida das praças e dos jardins?
Algumas senhoras de coração demasiado terno, que alimentam e protegem as aves, fornecendo-lhes alimento e água, passam agora por agentes do mais rematado incivismo, puníveis por édito municipal e carregando a culpa de pavorosas epizootias transmissíveis.
Estas aves, sem o suspeitarem, foram apanhadas no meio de uma das famosas «mudanças de paradigma?»
Uma das aproximações possíveis a este caso, passa pela abordagem da cidade como um ecossistema, por artificial que seja, obra do Homem por excelência, mas habitat de muitas outras espécies vivas. Algumas aves, privadas dos seus meios de eleição, queimadas as florestas, declinante a agricultura, betonado o espaço rural, anulados ecossistemas críticos como os bosques ribeirinhos e as sebes vivas— procuram refúgio, as mais adaptáveis e oportunistas, no território urbano. Aí não temem as espingardas dos caçadores e os efeitos letais dos pesticidas não se fazem sentir com a mesma intensidade. Parece ser o caso do melro-preto. Mas é também o que acontece com a rola-turca, que colonizou o Porto nos anos 60 do século passado, proveniente da Europa Oriental. Com alguma atenção é possível descobrir, em algum jardim da cidade, as toutinegras, os piscos, até poupas, pica-paus, pegas…e aves de rapina de quando em vez, diurnas e nocturnas, sem falar das aves marinhas e aquáticas que visitam o Douro e seu estuário. Pelo contrário, as andorinhas e andorinhões são cada vez mais escassas (falta de lugar de nidificação?) mas o ladino pardal-comum não parece que esteja ainda a sofrer, aqui, a drástica diminuição de efectivos que ocorre na Europa. Portanto, aves não faltam. Que dizer da proliferação das gaivotas-argênteas, que agora se instalam na cidade e, ao que consta, se tornaram predadoras…de pombos?
O pombo doméstico, pombo da literatura, pombo-correio, pombo ornamental dos concursos columbófilos— descende em linha recta de um pombo selvagem, o pombo-das-rochas, (Columba livia) espécie hoje muito rara na forma original. Encontrou, com o apoio humano, condições óptimas na cidade, com muito alimento, abrigo e locais para procriar.
Impõe-se algum bom senso. Claro que é necessário controlar as populações de pombos, tentando contrariar uma proliferação excessiva. As condições sanitárias devem ser monitorizadas. Mas evitemos mais um fundamentalismo, que já os temos em excesso! Quando se refere que os dejectos dos columbídeos corroem os monumentos e edifícios históricos, apetece perguntar se não é maior a ameaça da poluição vinda dos escapes dos automóveis, principal causa de corrosão do património construído. E quanto a doenças pulmonares induzidas pelos pombos— sem ignorar essa realidade— não deveríamos preocupar-nos também com os níveis altíssimos de partículas em suspensão a que estamos todos expostos?
Não façamos dos pombos…o principal problema ambiental das cidades— seria o cúmulo do ridículo!
Bernardino Guimarães

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