sábado, julho 11, 2009

GESTOS SIMPLES

O Ambiente, a causa da defesa do meio que nos rodeia, da procura de uma relação positiva com a Natureza, tem mesmo os seus heróis anónimos. Pessoas como todos nós. E o ambiente que nos rodeia, sabemo-lo bem, é a Terra, nossa esfera imperfeita e bela e azul, onde nos encontramos e nos fazemos homens. E a rua ao lado e a nossa rua, o jardim, a árvore de que gostamos tanto há tanto tempo, o nosso canto. A ecologia, ciência e gesto, tem a seu favor heróis felizes e desconhecidos, vejam lá. Como aquela senhora, já idosa, que vi outro dia separando cuidadosamente e depositando os materiais num ecoponto. Imagem banal?
Abordei-a, timidamente, perguntei-lhe se sempre fazia aquilo, de forma aparentemente tão habitual que as mãos não se enganavam nas cores dos contentores, amarelo, azul, verde, cada coisa no seu lugar. Ficou a olhar-me por instantes e respondeu-me que sim, que sempre, que queria ajudar, sabia das lixeiras enormes onde já não cabia mais lixo, hoje desperdiça-se tanta coisa menino (dito isto, há tanto tempo que ninguém me chama menino!) que os vidros podiam cortar as mãos dos senhores que recolhem o lixo, assim é melhor. Que o neto a tinha incentivado, aprendeu na escola, e mais disse que o plástico não se desfaz na terra: antigamente os restos de comida, as cascas, iam para os animais, o que ficava estrumava as hortas, agora vivemos em apartamentos, que se há-de fazer? Assim mesmo, digo eu, e tão gentil e tão comum, que me lembrei de como é bom haver agentes incógnitos que todos os dias repetem gestos de boa vontade como estes, mas a quem ninguém dedica notícias, e que se calhar nada sabem de Ecologia, palavra que evoca o governo da casa, usada pela primeira vez por um cientista alemão de nome Ernest Haeckel, nos idos de 1866.
E sempre pensando no gesto anónimo da senhora cujas mãos decididas aderiram ao princípio da reciclagem e o puseram em prática, (será que ouviu falar de aquecimento global? Não perguntei.) senti a necessidade de recordar todos aqueles, que com esforço e dedicação, dão o melhor de si próprios em defesa da sua terra, do seu espaço verde, do seu rio, sem esquecer que terra, verde e rios nunca são de ninguém, pertencem a todos. Ajudar o mundo a ser um bocadinho melhor, todos os dias, sem esperar nada em troca que não seja viver dignamente. Mesmo contra o estabelecido e se for preciso contra os dogmas do «progresso» medido em cimento e em consumo de energia.
Essas pequenas intervenções, de tão simples, prescindem dos inflamados discursos plenos de amor pela Terra, do jargão tecnocrático e do economês que invade pouco a pouco o discurso sobre Ambiente, com «sustentabilidades» truncadas e «sinergias» que escondem os pormenores onde moram os ledos enganos e equívocos. Os dignitários dos poderes de turno precisam de falar do Ambiente para neutralizar quaisquer gestos consequentes. O trabalho eficaz pelo Ambiente precisa de gestos quotidianos e concretos, de razão esclarecida e de civismo.
Não há dúvida, a senhora que vi usar o ecoponto, fazia-o porque queria aliviar o «seu» mundo dos resíduos à-toa, de lixo que perturba e polui, dando-lhe utilidade e sentido.
Agora que Ambiente, Ecologia se arrisca a transformar-se em assunto esotérico, só ao alcance de especialistas encartados, ou, pior ainda, agenda de celebridades e de gente poderosa em busca de boa consciência, não deixa de ser refrescante sentir que a mensagem passou – ou talvez partiu— de quem realmente pode ajudar— pessoas comuns, cidadãos inteiros, com rosto nítido e história ignorada, como a senhora com quem conversei numa tarde clara, à beira de um ecoponto.
Bernardino Guimarães
(do arquivo Peregrino. Publicado a 27/6/2007 no Jornal de Notícias)

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