segunda-feira, julho 13, 2009

GRAND CANYON

O Grand Canyon faz parte da imagem da América, tanto quanto a Estátua da Liberdade, e povoa a imaginação de quem apenas ouviu falar deste imenso espaço natural. Não é despropositada esta notoriedade, que faz viajar milhões de americanos e de estrangeiros até às impressionantes paisagens, quase o paradigma da obra da Natureza que o Homem mal compreende, mas que fascina e prende pela grandeza ou desmesura, e pelo mistério.
«Manual de História Geológica ao vivo» dos últimos dois mil milhões de anos, moldado pelas forças telúricas em desfiladeiros majestosos e agrestes, o Grand Canyon invade-nos pelo espaço, pela consciência que nos dá sobre a força da Terra, a sua terrível e bela capacidade de transformação. Um dos desfiladeiros mais espectaculares do mundo, com mais de 1500m de profundidade, e 447 km de comprimento, cavado pelo rio Colorado, empresta-nos uma sensação de pequenez e pasmo.
A mesma sensação que terá assaltado os primeiros visitantes humanos. Os indíos veneravam este território grandioso, e chamavam-lhe «água que penetra na Terra» ou «descida-ás-profundezas. Os espanhóis reconheceram ali «montes mais altos do que a Catedral de Sevilha» e o missionário Tomás Garcês baptizou o rio do canyon com o nome de Colorado— o rio vermelho, por causa da sua cor.
Trata-se de um ecossistema complexo. Ao percorrermos todo o comprimento do canyon, atravessamos, dizem os especialistas, seis das sete zonas climáticas do mundo— do clima alpino ao clima desértico. Pode-se caminhar com temperaturas estivais de 48 graus nos locais mais fundos, mas no Inverno neva abundantemente no fundo da garganta.
A esta variedade de ambientes corresponde uma biodiversidade surpreendente, sobretudo para quem tenha desta vastíssima região uma ideia apenas mineral, onde ressalta a aridez: a realidade é bem diferente. Aqui subsistem mais de 1500 espécies de plantas, algumas são endemismos locais, mas a flora compõe-se de plantas que pertencem a quase todas as regiões biogeográficas da América do Norte, o que confirma o carácter de encruzilhada climática e biológica deste local.
Florestas e bosques espelham-se por todos os locais favoráveis, com pinheiros-do-Colorado, abetos-de-sitka, choupos-tremedores-americanos, pinheiros-amarelos e zimbros de várias espécies.
Quanto a fauna, por estas paragens pode ver-se os veados-wapiti, veado-mula, carneiros das Montanhas Rochosas e antilocapras velozes. Predadores, apesar da extinção do lobo, hão vários, como o puma, o lince-fulvo ou «bob cat», o coiote. De salientar o esquilo-de-Kaibab, que só aqui pode ser visto. Mais de 300 espécies de aves (pode ver-se o pelicano e o falcão-peregrino, por exemplo) e numerosos peixes, anfíbios e répteis completam, apenas quanto a vertebrados este alto lugar da Natureza bravia norte-americana.
O Grand Canyon fica no Estado do Arizona e é Parque Nacional desde 1919, ocupando quase cinco mil quilómetros quadrados!
Já anteriormente, o presidente Theodore Roosevelt tinha impulsionado a sua protecção legal, através da classificação do território como «Património Nacional», em 1908.
As rochas e o desfiladeiro monumental pôde ser visto à vista desarmada, a partir do espaço, a bordo da Apolo 11, pelos astronautas atónitos: era difícil aceitar que a grandeza da gigantesca fenda fosse visível mesmo a uma tal distância!
Património da Humanidade (assim classificado pela UNESCO) desde 1979, o Parque Nacional do Grand Canyon tem sido vítima do seu próprio sucesso e fama— o «excesso de carga» induzido por milhões de visitantes por ano, começou há muito a causar desgastes. A presença humana, se desregulada, pode, sabemo-lo bem, tornar-se também uma «força geológica» negativa.
Hoje procura-se disciplinar o acesso dos visitantes e estabelecer regras mais apertadas. A procura de tamanha beleza e de ensinamentos que só a Natureza pode dar, tem também o outro lado da moeda.
Mas espera-se que as grandes formações graníticas e xistosas, esventradas pela força do tempo e da água há milhões de anos, possa sempre manter-se como um dos locais mais belos e enigmáticos do nosso planeta!
Bernardino Guimarães

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