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A sensação é mesmo de abandono, os socalcos perfeitos, intocados pelo tempo e pelas intempéries contrastam com a vegetação seca de ervas daninhas resistentes ao calor, de plantas que quase aparentam ser da orla de um qualquer areal degredado e interminável.
As poucas casas variam entre a idade abandonada do que foi deixado para trás e as casas filhas de emigrantes da América do sul, retornados às origens depois de muitos anos, com uma mistura de modas e culturas que torna as construções estranhas e um tanto ou quanto descontextuadas.
Dentro do autocarro que me leva, perco a noção do tempo, enquanto vou ouvindo a mesma lengalenga do guia em quatro línguas diferentes. Logo no inicio pede desculpa, não sabe falar português, mas fala num espanhol perceptível. Felizmente, a torre de Babel que me transporta é confortável e tem ar condicionado.
A subida é íngreme, e em pouco tempo subimos desde o mar até aos 2000 metros de altitude. A temperatura que se faz sentir e a secura constante da paisagem monótona fazem-nos esquecer que passamos do mar à montanha, não foram os ouvidos a se queixar da diferença de pressão.
À nossa frente, como num sonho, aparece a cratera de Cañada, a segunda maior do mundo, na sua paisagem lunar de 20 kms de circunferencia, marcada por tons de negro basáltico das lavas que por lá passaram. Por entre o castanho e o negro brilham as pedras de Obsidiana reflectindo os raios de sol. A Pedra Pomes faz parte daquela paisagem lunar, em tons claros de areia.
Do outro lado de onde nos encontramos, virtualmente no centro da cratera, aparece o Teide, imponente nos seus 3717 metros de altitude, a mais alta montanha de Espanha. Comparativamente à cratera, o Teíde é uma formação recente.
Paramos para as fotos obrigatórias, e persigo uma lagartixa negra de tamanho considerável que não se deixa ser fotografada na sua privacidade. Admiro-me com as plantas e os repteis que sobrevivem à pressão da altitude de montanha.
Mas seguimos caminho, que o dia é curto e a viagem longa. Atravessamos a cratera sempre com o Teide na mira. Fazemos uma pausa para mais umas fotografias.
Descemos para o litoral Norte, até Puerto de La Cruz, que já foi um dia uma cidade turística importante, antes do sol desértico do sul da ilha ter sido valorizado. O Norte de Tenerife e constantemente nublado e de temperaturas mais amenas que o sul. A nossa viagem foi bem escolhida, num dia limpo e solarengo.
Ao descer a encosta, algo nos lembra o Norte Madeirense, a descida da Encumeada, embora menos luxuriante. Conforme nos aproximamos da cidade, regressa a tipicidade canária das cidades hoteleiras sem grande arquitectura ou planeamento paisagistico ou carácter pessoal.
E seguimos.
Damos um salto a Icod de Los Vinos... confesso que na minha ignorância já sonhava com o precioso néctar que não vi nem vinhas... lá, fizemos uma paragem rápida para fotografar o dragoeiro milenário. Confesso que queria vê-lo de perto, tocá-lo, comprovar de mim para comigo que é tudo o que dizem. Mas contive-me e submeti-me a admirar à distancia a estranha árvore da floresta da Macaronesia.
Regressámos à torre de Babel de quatro rodas com o seu guia poliglota a caminho de Garachico para um merecido almoço numa tasca da esquina sem tapas nem paella, mas com uma excelente sopa de legumes, óptimas costeletas e preços divinais.
Garachico foi em tempos um importante porto marítimo para as colónias espanholas da América do sul. Uma erupção em 1706 destruiu-a, deixando-a coberta de lava, mas os locais ainda falam disso como se a lava escorresse pelas paredes sobranceiras ao mar.
No litoral criaram-se poços, piscinas naturais entre basalto salpicado pelo mar e pela costa. Os locais melhoraram-nas criando mais um ponto de atracção turístico e um excelente local para "ir a banhos", poiso de canários e turistas.
BELEZA ESCONDIDA
De volta ao nosso transporte, subimos novamente a montanha, por estradas ingremes, enquanto o guia nos lembra do perigo que é conduzir um autocarro por lá e da sensação de fim de boca de que há informações que dispensávamos. subimos até Masca, uma vilazinha perdida no alto da montanha, a três horas do mar a pé, onde se refugiavam os locais dos ataques de piratas. têm uma pequena igreja de pedra, duas ou três casas, e uma infinidade de artigos locais e tradicionais "made in taiwan" à venda, mesmo ao lado de uma esplanada de preços exorbitantes. Local simpático.
Continuamos a nossa jornada até ao miradouro onde se vêm ambos os lados da ilha.
As diferenças entre Norte e Sul são gritantes, a própria montanha, castanha de um lado aparece-nos verde, de vegetação luxuriante do outro, como se de sítios diferentes se tratasse.
Do miradouro, a olhar a sul, vemos à direita a ilha de La Palma e à esquerda La Gomera. ficamos com a sensação de um livro de adolescencia ao estilo das brumas de Avalon, ao vê-las surgir do mar por entre neblina.
E voltamos à encosta sul. Há uma ultima pausa onde o guia nos aconselha as compras do costume, mel da montanha, vinho de Lanzarote, postais a confirmar a viagem. O regresso é passado em silencio, provocado pelo cansaço, pelo calor e pela monotonia da paisagem agreste do sul.
A nossa torre de Babel vai se desfazendo, enquanto vão saindo os turistas de ocasião cada um para o seu hotel. Endereços de e-mail são trocados, sorrisos e "até um dia". Nos rostos cansados há um brilho diferente. Afinal, Tenerife não é só um sitio de hotéis a preços irreais para passar as férias possíveis. Há beleza escondida para quem se aventurar para além da piscina do hotel.
Sandra Fernandes
(Texto e fotos).jpg)
(Texto e fotos)
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