A impermanência é a regra, constatam os filósofos. Tudo, mesmo aquilo que nos parece imutável e solidamente perene, traz em si os germes da mudança. Como um rio, cuja água nunca é a mesma, enchendo segundo a segundo com rumo definido, só aparentemente fixo. A observação da Natureza ajuda-nos a entender, ou até a aceitar essa marcha do tempo sulcando marcas na esfera biológica, moldando a vida, as formas de vida e as características das criaturas. Pretender ficar isento e apartado dessa lei inelutável, que integra princípio e fim, seria ilusão ou escasso entendimento. Muito menos a crónica, esta que aqui se transmite, que vive do que acontece e portanto do tempo, e já por isso é regida por Cronos, um personagem sisudo que era divindade governadora do Tempo e associado também a Saturno, planeta dos anéis e dos dedos que movem o Destino—o que quer que Destino seja.
Estranho (e entranhado) é este gosto pelo eco das ideias e das palavras, esta vertigem de dizer aos outros, de chegar aos ouvidos e de vencer distâncias e silêncios. Fazer opinião? Talvez seja vanidade apenas. Sabemos que opinião publicada não faz opinião pública, que a voz— levada pelas ondas pelo éter fora, levitando em frequências moduladas, fica afinal ali, presa no seu próprio instante, inerme e pretensiosa. Que pensa disso quem ouve?
Mesmo a vontade de propagar alguma coisa sobre Ambiente e Natureza, na tentativa de incentivar à sua «defesa», pode bem ser equivocada.
Durante muitos milénios (o Tempo uma vez mais!) os homens quiseram defender-se da Natureza, não defendê-la. Casos de vida e de morte. Abrigo contra as intempéries, machado contra a floresta bravia, armas para a caça, astúcia contra os animais competidores, luta pela sobrevivência, mãos para a entreajuda.
A Natureza seria simultaneamente Mãe criadora e pródiga e ameaça permanente, contradição bem resolvida pelos arremedos metafísicos dos nossos antepassados.
Assim foi ao longo dos séculos, até ao dealbar da idade moderna. Muita coisa mudou a partir daí. Essa mudança veio a colocar-nos em tal posição de domínio que é a Natureza que aparenta ser vítima, necessitada de protecção e cuidados.
O nosso humano domínio (que tem como arquétipo Prometeu, o herói que rouba aos deuses o fogo do Céu) arrogante e de vistas curtas, modificou realmente a ecologia do planeta. Mas o perigo que decorre dessa insensatez não pende tanto sobre a Terra como sobre as nossas mesmas cabeças. Poluída e degradada, a Terra continuará a sua marcha e pode faze-lo sem nós, que nunca deixamos de depender dos seus serviços e da saúde dos recursos que nos oferece.
A crónica multiplicou-se em indignações, errou muitas vezes, terá sido injusta sem o saber. Olhou sobre a cidade (e o mundo) com olhos falíveis e precários. Bateu-se, amou causas e falou de casos.
Pouco importa o eco que de si deixaram as crónicas que passaram. Quiseram ser sempre (mas será que foram?) palavras incertas no momento certo.
Bernardino Guimarães
(Crónica emitida pela Antena 1, 28/4/2001)
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quinta-feira, abril 28, 2011
quinta-feira, dezembro 31, 2009
QUASE EM 2010--CRONOS, OU SATURNO. SEMPRE O TEMPO

Cronos é considerado como sendo o senhor dos deuses durante o ciclo das divindades tenebrosas, época em que governavam as forças destrutivas. Segundo a tradição clássica, Cronos simbolizava o tempo, e , por isso, Zeus, ao derrotá-lo, conferira a imortalidade aos deuses. Era representado como um ancião empunhando uma foice e freqüentemente aparecia associado a divindades estrangeiras propensas a sacrifícios humanos.
Saturno
Na mitologia romana, Cronos corresponde à Saturno. Divindade de origem itálica muito antiga, Saturno era um deus romano que foi sempre identificado com o deus grego Cronos.
Dizia-se que Cronos (agora Saturno) tinha vindo da Grécia para a península italiana depois de ter sido expulso do Olimpo por Zeus (Júpiter), seu filho, que o destronou e o atirou pela montanha abaixo. Júpiter, ou Zeus, tinha sido o único filho de Saturno salvo (pela mãe, Reia) de ser devorado pelo pai, que temia que algum dos seus descendentes lhe viesse a usurpar o trono.
Saturno, expulso da montanha sagrada, instalou-se então em Roma, na colina do Capitólio, onde terá fundado uma aldeia fortificada, Saturnia.
Saturno
Na mitologia romana, Cronos corresponde à Saturno. Divindade de origem itálica muito antiga, Saturno era um deus romano que foi sempre identificado com o deus grego Cronos.
Dizia-se que Cronos (agora Saturno) tinha vindo da Grécia para a península italiana depois de ter sido expulso do Olimpo por Zeus (Júpiter), seu filho, que o destronou e o atirou pela montanha abaixo. Júpiter, ou Zeus, tinha sido o único filho de Saturno salvo (pela mãe, Reia) de ser devorado pelo pai, que temia que algum dos seus descendentes lhe viesse a usurpar o trono.
Saturno, expulso da montanha sagrada, instalou-se então em Roma, na colina do Capitólio, onde terá fundado uma aldeia fortificada, Saturnia.
(Saturno-Ou Cronos- devorando um filho), Francisco de Goya,1819-1823
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