Mostrar mensagens com a etiqueta George Orwell. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta George Orwell. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, fevereiro 23, 2010

ORWELL EM REVISTA

Os leitores do Peregrino--supondo que existem--já devem ter percebido que, neste blogue, George Orwell é fugura grata.
O homem da « novilíngua», conceito que hoje podemos ver em funcionamento na perversão manipuladora das palavras pelo(s) poderes de plantão, o escritor talentoso que se transformou em « profeta político», o desocultador dos totalitarismos, merece-nos toda a atenção.
« A Quinta dos Animais» ( ou «Triunfo dos Porcos») « 1984» e « Homenagem à Catalunha», entre outras obras deste amante da liberdade e da lucidez, deveriam ser revisitadas com mais frequência.
A francesa «Magazine Littéraire» dedicou ao escritor britânico boa parte do seu número 492 de Dezembro. Um soberbo « dossier» que o Peregrino apreciou e aqui deixa, para que conste. BG

sexta-feira, janeiro 15, 2010

GEORGE ORWELL--PORQUE ESCREVO

Colocando de lado a necessidade de ganhar a vida, penso que haja quatro motivos para escrever, ou pelo menos para escrever prosa. Os motivos existem em diferentes graus em cada escritor e as suas proporções variam de tempo em tempo, de acordo com a atmosfera em que ele está vivendo. Tais motivos são: (1) Completo Egoísmo, o desejo de parecer esperto, de ser comentado, de ser lembrado depois da morte, de se desforrar dos adultos que os esnobaram na infância, etc., etc. Os escritores compartem esta característica com cientistas, artistas, políticos, advogados, soldados, negociantes bem sucedidos – em suma, com toda a camada superior da humanidade. A grande massa dos seres humanos não é agudamente egoísta. Depois dos trinta anos, eles quase abandonam completamente o sentido de serem pessoas individuais – vivem principalmente para os outros, ou são sufocados embaixo de trabalhos enfadonhos. No entanto, há uma minoria de pessoas talentosas, voluntariosas, que estão determinadas a viverem suas próprias vidas até o fim – e os escritores estão nesta classe. Os escritores sérios, eu tenho que admitir, são ainda mais vaidosos e egocêntricos que os jornalistas, embora sejam menos interessados em dinheiro.
(2) Entusiasmo Estético, a percepção da beleza no mundo exterior ou, por outro lado, nas palavras e no seu arranjo correto. O prazer do impacto de um som no outro, na firmeza da boa prosa e do ritmo de uma boa história. O desejo de compartir uma experiência que se sente que é valiosa e não deveria ser perdida. O motivo estético é muito fraco em uma porção de escritores, mas mesmo um escritor de panfletos ou um escritor de livros escolares tem palavras e frases preferidas que lhe apelam por razões não utilitárias; ou talvez tenha sentimentos fortes sobre tipografia, largura das margens, etc. Além do nível de um guia de horário de trens, nenhum livro está livre de considerações estéticas. (3) Impulso Histórico, o desejo de ver as coisas como elas são, de descobrir os fatos verdadeiros, de guardá-los para a posteridade.
(4) Propósito Político, usando a palavra "político" no sentido mais amplo possível. O desejo de levar uma palavra em uma certa direção, de alterar a idéia de outras pessoas sobre o tipo de sociedade pela qual devem aspirar. Mais uma vez, nenhum livro é genuinamente livre de preconceito político. A percepção de que a arte não deveria ter nada a ver com a política é, em si mesma, uma atitude política. Pode-se pensar como estes vários impulsos lutam uns com os outros e como variam de pessoa a pessoa, de um tempo a outro. Por natureza – considerando "natureza" o estado em que se atinge quando se torna adulto –, sou uma pessoa na qual os três primeiros motivos seriam mais fortes que o quarto. Em uma época de paz, eu talvez tivesse escrito livros ornamentais e meramente descritivos – e teria permanecido quase descuidado de minhas lealdades políticas.
George Orwell