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sexta-feira, março 18, 2011

LUA HOJE

Esta noite as sombras serão maiores e marcharão mais firmes atrás de nós. Haverá luz do azul profundo clareado pelas galáxias, derramado como leite sobre o mar sobressaltado.
Esta noite o luar será como um raio universal de gravidade e magma aceso. As estrelas perseguirão os gatos pelos muros e a hera crescerá voltada para o céu antes do dia. Haverá rosas sim, de um roxo inquietante e pulsarão no Olimpo vegetal sorvendo mantras e músicas brancas como o meio-dia.
As horas passarão mais lentas, magnéticas e cruéis, e não é certo que a música das esferas deixe de ecoar do mais profundo das eras.
Uma faca apocalíptica rasgará o mar até ao abismo onde moram os seres sem olhos nem carne, radiação pura, e as pedras sempre verdes nos baús marinhos, e monstros levantarão sua figura uma única vez.
Será a dança das algas; o cortejo infindável dos peixes que sonham, dourados e roucos, banhados de veludo e de distância.
Já na terra tudo pulsará de encontro às altas montanhas, sem rotações, sem retorno, a água fará perguntas, as crianças terão olhos enormes nas janelas transparentes.
Sombra dos insectos e seu canto surdo, quase mineral. Navios milenares reencontrados.
Memórias de prodígio e rouxinóis feiticeiros. Morcegos triunfantes no berço das flores.
E azul de um azul novo, transbordante e tímido, síntese dos azuis que até agora se escondiam sobre o mar entre as pérolas incendiadas, vagas vagamente plenas, vingança do sal e do nevoeiro.
Esta noite todos dormirão no quarto crescente e a água crescerá nos intervalos do nada, espectáculo do cosmos estreando, atracção universal que um melro guardará no seu bico de madrugada e fogo.
BG

domingo, novembro 15, 2009

ÁGUA NA LUA

13.11.2009 - 20:39 Por Clara Barata, no « Público».
É a confirmação: no lado escuro da lua, nas crateras permanentemente obscuras do pólo sul, há muita água congelada. O choque do motor de um foguetão Centauro contra a cratera Cabeus, a 9 de Outubro, observado de perto pela sonda LCROSS da NASA, permitiu confirmar o que outros engenhos enviados até ao satélite natural da Terra tinham já sugerido com bastante certeza.


"Estamos em êxtase", disse Anthony Colaprete, cientista do projecto LCROSS, citado num comunicado de imprensa divulgado pela agência espacial norte-americana."Múltiplas provas mostram que estava presente água tanto na pluma de vapor como na cortina de materiais ejectados pelo impacto. Ainda temos de fazer mais análises para estudar a concentração e distribuição da água e de outras substâncias, mas é seguro já dizer que a cratera Cabeus tem água", explicou.Os espectrómetros que iam na sonda mostram uma assinatura química inconfundível nos espectros do ultravioleta e do infravermelho, que só pode ser água. "Nenhuma outra combinação razoável de compostos correspondia às observações. A possibilidade de haver uma contaminação do motor Centauro também foi posta de parte", adiantou Colaprete.Assim sendo, ficam os cientistas sem qualquer sombra de dúvida na sua mente: há água na Lua, o que facilitaria qualquer tentativa de colonização.

A água pode ser usada para consumo humano, claro, mas também para fazer combustível para foguetões, por exemplo.Só que o sonho de regressar à Lua e aí construir bases foi mais uma vez afastado, com a publicação, no fim do Verão, de um relatório de uma comissão independente sobre qual deve ser a estratégia da NASA.O regresso à Lua, abandonada desde que o último astronauta norte-americano pisou o seu solo poeirento, em 1972 (só algumas raras sondas a visitaram desde então), fora anunciado pelo Presidente George W. Bush em 2004, mas foi agora considerado um passo desnecessário, que o orçamento da NASA não comporta.No entanto, descobrir água na Lua, congelada há muitos milhões de anos, pode permitir-nos descobrir como era o Sistema Solar então — mesmo usando só máquinas.

terça-feira, agosto 04, 2009

LUA, LUA

Quarenta anos passados sobre a longa viagem da Apolo XI -- a vez primeira em que pés humanos pisaram a Lua-- é normal que nos lembremos mais do nosso satélite natural, palco de uma célebre aventura.
Lembro-me da emissão, preto e branco, da TV; das imagens quase irreais; da tensão da chegada daqueles embaixadores da humanidade, os passos lentíssimos de Armstrong e seus companheiros no solo lunar, que eram mais voo que caminhada. E recordo-me que, tirando os olhos da pantalha luminosa, espreitei a Lua que se vê da janela, de todas as janelas— e era igual a sempre, branca e magnética, muda e branca, mas andavam homens por lá, aos pulos! Depois aprendi os nomes que tinham sido atribuídos, precária geografia, aos lugares da Lua: o Mar da Tranquilidade ficou-me na memória, afinal uma planura rochosa, esburacada de meteoritos. E a palavra «alunar» há-de sempre permanecer entre as minhas favoritas. Aquele grande «salto para o género humano» foi bem sucedido, se julgarmos pelas consequências e resultados? Alguns dizem que pouco mais restou além de umas centenas de quilos de rochas lunares…por mim, não consigo desvalorizar o feito, a gesta heróica e a ambição, óbvio moderno paralelo com as Descobertas marítimas do século XVI que nos revelaram a Terra, nosso lar de sempre. Ambos os acontecimentos estarão na génese de um conceito «global» para o destino humano. E creio mesmo que, se a visão da aridez da Lua, a sua ausência de atmosfera num deserto mineral, exposto à crueza da poeira e radiação cósmica, foi impressiva e importante, mais decisiva ainda terá sido a visão da Terra. O «planeta azul» já tinha sido fotografado a partir do espaço, mas vê-lo da Lua, àquela distância, produziu como que um abalo fundamental— a começar pelos astronautas, que se disseram comovidos com a aparente fragilidade do nosso planeta, da sua cor turquesa, ponto insignificante mas singular na galáxia onde se situa, oásis de vida que não sabemos se tem correspondência, como e onde. A vida é um mistério. Um mistério que neste casulo se desenvolveu, com os seus sinais primordiais e básicos— água, seres elementares, oxigénio, atmosfera, diversificação das formas de vida, que dependem e ao mesmo tempo criam condições de vida, e de vida que muda e se adapta e se transforma.
As longas e difíceis jornadas dos astronautas ajudaram à recolocação do homem e da sua casa ancestral no seu lugar próprio, no mesmo momento em que pareciam abrir-se as portas para outros cenários e outras distâncias. A ciência avançou— esperemos que a consciência também. Surgiram, como sempre, novos símbolos, novos mitos.
Parece que lá para 2020 voltaremos à Lua com naves tripuladas, coisa que já não acontece desde 1972. Entretanto, sondas viajam milhões de quilómetros até aos confins da galáxia ou abordam Marte, nele pousando e indagando, ou ainda enviam-nos imagens de cenários tão extraordinários como o das poeiras e outros detritos cósmicos que formam os anéis de Saturno.
Mas nunca compreenderemos o espaço infindo se não descobrirmos e conhecermos a Terra e— mais do que isso— aquilo que é preciso encontrar e fazer para que na Terra continuemos a ter a nossa sede e os nossos pés, mesmo se podemos viajar para longe com as nossas máquinas, a imaginação ou o corpo de humanos pioneiros.
A aventura precisa de raízes. O avanço da técnica tem de ser acompanhado do que alguém chamou a «esfera da consciência» universal e global--mas individual antes de tudo. Aqui entra e Ecologia e a vontade de gerir bem a nossa terráquea herança, tão ameaçada.
E só a partir daí, e por isso mesmo, seremos integrantes da grandeza e dos enigmas do Universo.
Bernardino Guimarães
(Crónica na RDP-Antena1, em 23/7/09)