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quarta-feira, abril 28, 2010

LAVAGEM VERDE

«Greenwaching», nem mais, ou «lavagem verde» para não cairmos na detestável moda de utilizar palavras e chavões em inglês em todo e qualquer discurso que se pretenda «actual». Actualidade em português não falta a este tema, digo eu, tão diligentes são as mentes que anunciam, todos os dias, produtos, marcas e actividades cada vez mais «verdes.» Se verdes são os campos primaveris, esta cor que nos transmite esperança surge associada a quase tudo; o leitor, em querendo confirmar o que digo, só terá de compulsar os jornais, perder algum tempo vendo publicidade na TV. O «marketing» virou-se para a ecologia e tudo, mas tudo, vende melhor com esse perfume de clorofila e de ambientalismo comercial. Bancos, cosmética, automóveis, condomínios, lixívias, centrais atómicas, o que seja, não passam sem nos demonstrarem o quanto são amigos do ambiente e amorosos com a Terra. A palavra-chave é quase sempre «sustentabilidade.».
Mas sustenta-se mal face aos factos, muita desta profissional «lavagem verde» --que podemos definir como sendo a prática de empresas e instituições alterarem dissimuladamente os seus produtos e actos de forma a parecerem mais amigas do ambiente.
Há quem diga que este fenómeno, de expressão global, também traz consigo alguma coisa de bom. Pelo menos indica, com o seu manto diáfano de fantasia, alguma preocupação com o ambiente. Nem tudo pode ser mentira, alguma verdade lhe há-de ser misturada, caso contrário seria demasiado evidente. Compreende-se a observação. Só que de facto, em certos casos, não existe mesmo nem sombra de autenticidade nesta venda enganosa de ilusões.
Li outro dia um trabalho de uma organização internacional, os Amigos da Terra, no qual constavam exemplos instrutivos: um anúncio da Shell mostrava flores saindo da chaminé de uma refinaria de petróleo, em vez de fumo negro. Uma grande campanha da indústria do óleo de palma apresentava o seu produto como «solução verde», antes que os consumidores soubessem da devastação que o cultivo do mesmo causou e causa nas florestas tropicais e os conflitos com os agricultores africanos, por exemplo. Uma empresa inundou as televisões de vários países com publicidade ao carvão (imagine-se) como energia limpa…ilustrada com anúncios onde surgiam modelos em poses sexy a trabalhar numa mina!!! Risível ou não, quem não vê por cá coisas parecidas?
Lembrei-me logo da campanha omnipresente da EDP sobre as barragens, com imagens de cegonhas-pretas e águias-reais— precisamente espécies que perderão o seu habitat com a construção das barragens! Mesmo quem apoie a solução hidroeléctrica, por outras razões, não pode deixar de aceitar que haverá perda de biodiversidade, pelo que alguma forma perversa e subliminar de controlo das mentes deve ter sido ensaiada. Vale a pena ler o escritor George Orwell e as obras onde denuncia a «novilíngua» com a qual se subverte a linguagem, trocando o sentido das coisas de modo a confundir…e a reinar!
Quem defende os consumidores e a verdade no mercado?
Claro que existem etiquetas fiáveis, rótulos de confiança— mas é preciso conhecê-los bem!
E a «lavagem verde» dos poderes políticos, centrais ou locais? Será menos perniciosa? De facto pode ser que seja ainda pior, e as técnicas de «marketing» usadas são igualmente muito sofisticadas…ou descaradas. Um número de telejornal e eis que as políticas de betão no urbanismo, e da rodovia nos transportes, ou das «grandes superfícies» no comércio…se redimem com quaisquer proclamações de plenas de «sustentabilidade!»
É uma pena, mas nesta coisas, meus amigos, não se pode ser ingénuo!
Bernardino Guimarães
(Crónica publicada no Jornal de Notícias, 27/4/010)

domingo, maio 17, 2009

EDP: LEDOS ENGANOS





Bem sabemos que, na globalizada sociedade de comunicação, a imagem é tudo. Ou pelo menos é muito. Por «imagem» entenda-se a impressão que prevalece, a ideia que nos fica de uma pessoas ou instituição. O cuidado com essa aparência não tem de ser coisa má, e reconhece-se que a comunicação é mesmo uma necessidade nos dias de hoje. Imagem de marca. «Marketing» mais ou menos agressivo. Marqueteiros mais ou menos imaginativos.
Poder de sugestionar.
Mas quando a imagem de uma entidade (projectada com estrondo e alguma arte, despendendo somas estratosféricas) não corresponde em nada com aquilo que se sabe sobre o que a dita entidade faz, quando o que se proclama fica a anos-luz do que realmente é e quer, como havemos de chamar a uma tal projecção? Publicidade enganosa? Dom de iludir, como diz a canção?
A EDP, empresa poderosa e cotada, com vincadas raízes (serão tentáculos?) e avultadíssimos lucros (que bom proveito lhe façam!) inunda-nos literalmente de imagens e sons: na TV, nos jornais, na Internet, na Rádio. Quadros bucólicos embrulham a mensagem esperançosa. Música celestial. Aves que planam sobre paisagens íntegras. No texto de um anúncio lê-se: «a EDP, enquanto líder europeia na construção de nova geração hídrica, já está a fazer a sua parte: criando condições para a conservação da águia-de-Bonelli, da cegonha-preta e do Abutre do Egipto, promovendo a reflorestação…». Fiquemos por aqui! Belo anúncio. Mas não é a mesma EDP que, responsável pela construção da Barragem do Baixo Sabor, da Foz do Tua entre outras, vai destruir irremediavelmente e inundar, os habitats destas mesmas espécies, e de muitas outras? Apetece parar para pensar. Já alguém chamou a esta «campanha de informação» o cúmulo da hipocrisia. Talvez seja também a «lavagem verde» de imagem mais criativa— e despudorada— de sempre. E engenhosa, não há como negá-lo à eléctrica empresa: antecipando problemas, antes que os portugueses dêem conta do valor do que vai ser aniquilado, uma «barragem de contra-propaganda» ofusca as eventuais denúncias. O manto diáfano da fantasia cai, sobre a nudez crua da verdade.
Nenhum preconceito anima este cronista contra a produção hidroeléctrica e as barragens em geral— mas parece ser do senso comum identificar valores que nenhuma geração de electricidade pode negar…às gerações futuras!
A flora, a fauna, a paisagem, os cultivos agrícolas, os bosques, a paisagem, é verdade— não sabem nadar. Mas a EDP sabe produzir propaganda, tanto quanto quilovátios. Pouco importa. Se vão submergir para sempre rios únicos, património natural precioso, conjuntos de biodiversidade e ecossistemas insubstituíveis, até linhas ferroviárias, então mais valia que o fizessem em silêncio. Por respeito. Ou então argumentassem de forma racional. Deixando as águias-de-Bonelli e as cegonhas-pretas no fundo da nossa memória, onde parece que terão, desgraçadamente, derradeiro refúgio.
Bernardino Guimarães
(Crónica radiodifundida pela Antena 1 em 14/5/09)