Elisabet Silva, hoje no Diário de Notícias/ Ciência
Estudo feito ao longo de 46 anos concluiu que várias espécies de pássaros estão a ficar mais pequenas e com menos peso. É a sua forma de adaptação à subida da temperatura
As aves estão a ficar mais pequenas e mais leves. A razão? O aquecimento global. É esta a conclusão de um grupo de investigadores que examinou os dados de quase meio milhão de pássaros que de 1961 a 2007 foram medidos e pesados na reserva natural na Pensilvânia (Estados Unidos). A maior diferença foi a diminuição em 4% de uma espécie (bico--grosso-de-peito-rosa). Os cientistas garantem que os animais não apresentam qualquer problema de saúde ou de risco de extinção, pois apenas se estão a adaptar à subida média da temperatura global, o que é visto como normal, pelo menos, por agora. Só a longo prazo será possível realmente entender o impacto da redução de tamanho e peso nas aves afectadas.
Das 102 espécies analisadas durante as várias épocas do ano, algumas vivem em zonas de reserva, outras migram no Inverno e as restantes são as que chegam dos neotrópicos. Josh Van Buskirk, da Universidade de Zurique (Suíça), Robert Leberman e Robert Mulvihill, do Mu-seu Natural de Carnegie da reserva na Pensilvânia, relataram as suas descobertas na revista científica Oikos.
"Em média, a descida do tamanho e peso das aves migrantes reduziu 1,6% em 46 anos", explicou Josh Van Buskirk, referindo-se aos animais que migram na América do Norte. Porém, há casos em que o animal teve uma queda de peso de 4%, como aconteceu com o bico-grosso-de-peito-rosa. O rouxinol-de-kentucky (3,3%) e o sanhaço-escarlate (2,3%) seguem-se na lista das aves em que a redução é mais expressiva.
E é no peso que a diferença é maior, pois, a nível de tamanho (calculado através da medição da asa), a redução é menos significativa.
Esta evolução ocorreu durante 20 gerações de aves, não sendo tão rápida como à primeira imagem pode parecer, avisam os especialistas.
Buskirk considera mesmo que "as consequências são positivas" para os animais, pelo menos para a maioria. "Outros estudos demonstram que algumas espécies vão beneficiar, enquanto outras podem ser prejudicadas", referiu Buskirk. Mas só o tempo irá comprovar esta teoria, revelando os benefícios e os efeitos prejudiciais.
A regra da biologia que explica a redução de tamanho e pe-so nos animais à medida que a temperatura global sobe é a lei de Bergman, mas por determinar está ainda como é que as aves se vão adaptar ao ficarem mais pequenas. Isto é, que consequências reais de sobrevivência podem ou não sofrer. Só a longo prazo é que se poderá tirar conclusões concretas, admitem os investigadores.
Certo, comprovado e documentado é que das 83 espécies que migram na Primavera, 60 ficaram mais pequenas; das 75 que migram no Outono, foram 66 aquelas onde se verificaram diferenças; no Verão, foram 51 espécies de 65 e, no Inverno, em 26 foram 20 as que perderam tamanho e peso
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segunda-feira, março 15, 2010
quinta-feira, janeiro 28, 2010
AS AVES
Entre tanta notícia trágica e grave, de catástrofes e de sofrimento, alguma coisa sempre aparece para nos aliviar a alma; depende claro dos nossos interesses e preferências, aquilo que nos prende a atenção e nos faz esquecer a rotina baça dos dias ou as agruras da condição humana. A mim alegrou-me, por exemplo, a notícia, que li na revista do Parque Biológico de Gaia, assinalando a presença, documentada por fotógrafo, de uma pequena ave no Estuário do Douro: um falaropo-de-bico-grosso, espécie muito raramente assinalada entre nós. O mais interessante é que se trata de uma ave pelágica, ou de alto mar, que frequenta pouco as orlas costeiras. A ave é natural do Árctico, onde nidifica na Primavera, e portanto terá percorrido milhares de quilómetros para chegar até cá. O mau tempo tê-la-á trazido até à zona húmida onde o Douro se mistura com o oceano.Sempre o voo migrador das aves impressionou os homens de todos os tempos. Pensar que pássaros pequenos efectuam migrações que cruzam continentes, voando muitas vezes durante a noite, vencendo mil perigos e orientados por sistemas de navegação que em boa parte ainda nem compreendemos, já que o fenómeno das migrações das aves é ainda um «dossier» em aberto para a Ciência, apesar de tudo o que se foi aprendendo ao longo dos anos.
Orientação pelas estrelas ou pela posição do sol, ou pelo magnetismo da Terra que minúsculas glândulas no seu corpo permitem detectar e seguir, ou ainda a conjugação maravilhosa destes factores, o mistério persiste.
Na Antiguidade chegou a pensar-se que as aves hibernavam, já que desapareciam em determinada época do ano; houve quem pusesse a hipótese de emigrarem, sim, mas para a Lua. Hoje sabemos que uma andorinha que risca o céu sobre os telhados do Porto, no Verão, passará a estação seguinte nas savanas africanas, onde os insectos nunca faltam. Uma garça, um pintassilgo-verde ou uma ave de rapina que voam sobre um campo português nos rigores do Inverno, na Primavera criarão nas costas da Escandinávia.
A anilhagem sistemática permite desvendar o rumo dessas viagens, roteiros milenares. As aves fizeram a globalização antes de todos os outros seres, e navegaram pelos ares ligando continentes quando os homens, se existiam, nem sequer sonhavam com a realidade de um mapa-múndi.
Acresce que Portugal é um grande aeroporto internacional para as aves, conectando as rotas migratórias europeias e africanas. Muitos locais, como as zonas húmidas, sapais, estuários, lagoas costeiras, ou as planícies alentejanas, ou as montanhas do interior, fazem parte do sistema ecológico onde se movimentam as aves viajantes, uma maravilha da Natureza que devemos prezar e preservar. Não sei se já deram pelos estorninhos que proliferam por vezes nas árvores do Porto, no Inverno, ou pelos tordos que ainda visitam os campos em volta da Invicta. Esses bandos, já exaustos, vêm do norte da Europa e pousam nas nossas paragens, buscando alimento e abrigo.
Qualquer um de nós pode ajudar estas criaturas fantásticas e aprender a observá-las.
Eu olho para o pisco-de-peito ruivo imóvel no muro do jardim, e para a alvéola bicando insectos no relvado. Mentalmente saúdo as pequenas/grandes aventureiras. E agradeço-lhes. Enquanto existirem, quem poderá aborrecer-se?
Bernardino Guimarães
(Crónica para a Antena 1 em 28/1/010)
Foto de Raízes.e.Asas
Etiquetas:
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