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sexta-feira, julho 01, 2011

JACARANDÁ

Na minha rua, como em algumas outras ruas do Porto, floresceu um jacarandá. Explosão de cor, festa das cores. Azul e violeta, roxo. As flores são pequenos sinos de azul e aparecem tardiamente, entrando brilhantes neste belo mês de Junho, quando bate mais forte o coração da cidade.
As variações de luz, a intensidade maior ou menor dos raios solares, a chuva leve que amiúde cai, tudo isso altera a coloração do jacarandá, como se quisesse exibir não apenas esplendor, mas versatilidade. E o tempo, sempre o tempo, vai diminuindo a frescura e a profusão das flores, até que desaparecem, como se um meteorito lilás e veloz ali tivesse passado.
Não há muitos jacarandás no Porto, mas nota-se o esforço de plantação destes espécimes nos últimos anos, atenção do município que a cidade agradece.
Vale a pena lembrar o jacarandá solitário e monumental, de provecta idade, ali no Largo do Viriato e que morreu há pouco tempo, para consternação dos seus muitos admiradores quotidianos.
As árvores são um elemento fundamental na ligação urbana entre cultura e natureza, entre cidade e natureza. Pode dizer-se que uma prática ambiental avisada, em qualquer grande cidade, começa pela atenção e cuidados com a árvore urbana. E uma de duas: ou bem que queremos que sejam mais e mais saudáveis as árvores citadinas, ou bem que não. Esta última opção revela-se sempre desastrosa. Há um fortíssimo princípio estético, ou se quisermos, decorativo e harmonizador que depende da existência de árvores. As cidades não podem prescindir desse capital de formosura e de equilíbrio. O elemento visual é porém apenas um dos factores a ter em conta.
Alguém disse um dia que, ainda que soubesse, de ciência certa, que o mundo iria acabar amanhã, continuaria plantando árvores. Isto para realçar que há na estima que se dedica à árvore uma espécie de enaltecimento da esperança. Estes seres únicos fincam-se na terra mas apontam o infinito. Radicam no solo de uma pequena nesga de terra mas é o longe que sugerem. Dada a sua relativa longevidade, simbolizam também a vitória sobre o tempo, a perenidade num mundo que vive o efémero e verifica a impermanência. Daí que uma política para as árvores---coração de uma política ambiental urbana— possa ser entendida como um «pacto entre gerações» --para lá dos impulsos dos dias que correm.
Árvores lembram-nos a necessidade de cuidarmos e gerirmos bem o espaço urbano, para que ele seja acolhedor para todos os que na cidade habitam e trabalham. Uma cidade com mais natureza é uma cidade mais humana e nesta afirmação se nega o dualismo que ainda faz a chuva e o bom tempo nos urbanismos esquemáticos.
Ameaçadas estão sempre as árvores— aprisionadas em caldeiras exíguas, vegetando em passeios de pedra ou no meio do asfalto, sem espaço, sem ar, manietadas e poluídas.
As podas regulares são talvez a agressão mais estúpida e maléfica— embora hoje as câmaras municipais estejam mais conscientes desse facto e evitem cada vez mais o arboricídio «bem intencionado» e ignorante, não faltam particulares retomando a malvada e inútil tradição.
Outros perigos: a má escolha das espécies, pouco adequadas ao local para onde se destinam. As obras na via pública, valas e outras, nas imediações de árvores, que ferem e mutilam as raízes ou impermeabilizam o solo em volta. Ultimamente, a moda dos relvados trouxe consigo a rega excessiva, desperdício de água que afecta as árvores presentes, encharcando-as até à asfixia radicular e ao apodrecimento. Para não falar do puro vandalismo!
Vida dura, a das árvores. Mas as cores do jacarandá em Junho bradam um azul transcendente, resistente, poesia vegetal na rua congestionada.
Bernardino Guimarães
Junho 2011

sábado, fevereiro 13, 2010

DEFENDER AS ÁRVORES

É tão difícil, entre nós, defender as árvores dos seus inimigos, ao ponto de ser preciso heroísmo… e algum risco físico? As árvores não ficam sozinhas no chão, aquando de loteamentos e obras públicas e privadas que determinam o seu corte e morte prematura; não, porque também os que procuram defendê-las se sujeitam a maus-tratos e a provarem o pó da rua, agredidos pela intolerância dos arboricidas.
Grande nau, grande tormenta; e a notícia recente que nos deu conta de uma agressão a um cidadão que protestava contra o corte de árvores num loteamento no centro de Rio Tinto, não pode deixar de nos preocupar. O tal cidadão caiu no erro de contestar, no local, o abate de árvores antigas, num terreno que fica no desvio da rua da Ranha pela rua Amália Rodrigues, em direcção ao centro comercial Parque Nascente. Aí sucedeu o crime, que é duplo: segundo o cidadão contestatário e agredido, foram abatidos sobreiros, o que como todos sabem é ilegal, e exemplares de outras espécies incluindo um carvalho de grande porte e idade provecta. Os responsáveis da obra é que não estiveram com meias medidas, e vá de espancar o cidadão protestativo. Mártir da causa das árvores? Na verdade, custa a crer que tal coisa se conceba. Seria de esperar que já hoje fosse mais consensual a necessidade de proteger as árvores, como elementos essenciais da harmonia e beleza da paisagem, e sobretudo partes vitais do que devia ser a qualidade de vida urbana ou rural.
É a passividade que impede, tantas vezes, o protesto contra os desvarios de uma minoria voraz e boçal que devora peça a peça tudo aquilo que é bonito e útil e significativo em nome do seu e exclusivo interesse imediato.
De qualquer forma, é de saudar a coragem e a preocupação cívica de quem tenta opor-se a tais brutalidades, e com brutalidade igual é tratado.
A autarquia de Gondomar disse a um jornal que nada tinha a haver com o assunto, nem com a violência que atingiu uma pessoa nem com o corte das árvores, por ser privado o loteamento, como privada foi a agressão. Mas aqui a gente pára e pasma: então não é a Câmara, neste caso a de Gondomar, a entidade que licencia estes empreendimentos? Assim sendo, como não viu, em tempo útil e fase de projecto, que a lei de protecção dos sobreiros é—como o são as leis todas--para cumprir? E que permitir ali, daquela forma, arboricídio e desarborização, é agravar ainda mais o caos urbanístico e ambiental de uma zona fortemente degradada?
Em suma: uma agressão até agora impune e sobreiros no chão que são também crime sem castigo.
E dá para reflectir: como podemos progredir e avançar, com tais processos e mentalidades? De que serve encher a boca com ambiente, sustentabilidade e ordenamento?
As árvores, sacrificadas um pouco por todo o lado, deixam-nos. Ficamos mais pobres e mais sós. A continuarmos deste modo, a única sombra que teremos é a de uma pesada e gravosa mediocridade.
Bernardino Guimarães
(Crónica na Antena 1, em 11/2/010)

sexta-feira, maio 29, 2009

AS ÁRVORES

Não podemos saber como sente uma árvore. Mas podemos razoavelmente lembrar-nos de como nos sentimos ao vermos uma árvore. Estática, presa ao solo, enraizada no seu bocado de terra, embora crescendo verticalmente em direcção às alturas, a árvore corporiza a ideia da fixação, da solidez, da fidelidade ao lugar.
Mas essa imobilidade tem o poder de transformar tudo à sua volta. Água do solo é bombeada pelas raízes e vai incorporar-se na massa vegetal, que capta do alto a luz com a qual, através da fotossíntese, se recria diariamente. A evapotraspiração partilha humidade com o meio envolvente. Uma árvore, de certa maneira, de mais do que uma maneira, une terra e céu, energia e matéria, litosfera e atmosfera, água, luz e ar— num mesmo processo biológico. A copa de uma árvore muda a paisagem, o clima local, o grau de luminosidade (e de sombra) de um lugar.
Aos nossos olhos, a árvore aprisionada e imóvel volve-se em agente de mudança que tudo mexe e move, que tudo altera, que tudo propicia. Paradoxo? Seja como for, esta «magia» é conhecida dos homens desde sempre. E nem prescindimos delas nas cidades, o nosso «habitat» por excelência. Árvores alinhadas rigidamente ao longo de alamedas e avenidas. Árvores em ruas, em praças, em jardins, até mesmo nos interstícios das vias rápidas que cercam a cidade.
As que vicejam nos escassos parques e jardins são mais felizes, podendo entregar-se àquela perenidade suave que as caracteriza e que parece rir-se da passagem do tempo.
Tratamos mal, muito mal, as árvores urbanas, tanto quanto necessitamos delas. Fixadas no meio do concreto, as raízes confinadas, em caldeiras exíguas e rodeadas de cimento, feridas por obras na via pública e atravessadas por toda a sorte de infra-estruturas, as árvores resistem. Resistem às podas assassinas, ao vandalismo, à opressão urbana do asfalto e do betão. O pior é que, se quase todos assumem, nas cidades, a falta de espaços verdes e de arborização condigna e ninguém parece negar a utilidade e essencialidade da árvore para o bem-estar dos citadinos— a verdade é que o comportamento quotidiano de muitos desmente esse consenso. As câmaras municipais são regularmente inundadas de cartas e mails pedindo podas, solicitando cortes, reclamando arboricídios, exigindo sevícias. Tantas vezes por motivos fúteis— a folhinha que suja o automóvel, o raminho que caiu na soleira do prédio, coisas assim.
A fixidez da árvore no chão torna-se assim numa armadilha mortal. Não há fuga possível. E o pouco que há de Natureza na cidade desvanece-se. Todos perdemos com isso.
Bernardino Guimarães
Fotos de Raízes.e.Asas
(Crónica radiofónica na Antena 1, emitida em 28/5/09)