1)Nem as pontuais celebrações do Dia Mundial do Ambiente servem para atenuar o facto: a crise económica tende a fazer passar o Ambiente para segundo plano. A «crise ecológica» tão patente na realidades das coisas, deixou quase os cabeçalhos e certamente as agendas políticas, todas voltadas para os ditames de entidades mais ou menos misteriosas como «os mercados» e as agências de notação de risco. Não deixa de ser evidente que esta crise, dita «do crédito» ou da falta dele, motivou medidas de austeridade cegas, nada inovadoras e que atingem gravemente os critérios de justiça social.
Mesmo se inevitáveis no curto prazo, tais medidas são paliativos que não modificarão nada de essencial. Alguns economistas mais avisados já perceberam que são precisas respostas inovadoras, e que se crédito há abusivamente contraído, esse é em primeiro lugar o do «capital natural» que exploramos sem medida. Uma nova economia tem de partir do abandono da ideia da Terra inesgotável de recursos, começando por valorizar os serviços que a Natureza nos presta.
Se vivemos acima das nossas possibilidades, porque a «pegada ecológica» do nosso consumo excede já o que o planeta pode oferecer, é tempo de parar para pensar: as coisas jamais serão as mesmas e a crise— a económica e a ecológica— pertencem ao mesmo problema/dilema do tempo de hoje. Gastar menos o «capital natural» e construir um sistema viável e socialmente mais equitativo— à escala europeia e global-- não será tarefa fácil. Mas lembremos: nada no mundo tem mais força do que uma ideia cujo tempo tenha chegado!
2)A explosão e derrame da plataforma da BP no Golfo do México não é apenas o maior desastre petrolífero da História, mas pode bem ser o dobre de finados de um tipo de exploração que foi apontado como a maior esperança da indústria. Os furos da prospecção no mar alto tentam responder ao cada vez mais evidente esgotamento comercial das reservas de petróleo em terra. Esqueceram-se, como se vê, as regras mais elementares da prudência e da segurança. Duvida-se que alguma coisa fique na mesma depois desta catástrofe— cuja dimensão ainda nem podemos medir. Seguramente a exploração «offshore» será muito mais cara no futuro próximo, isto se for viável.
Já agora, o que se passa ou vai passar com as licenças de prospecção cedidas ao longo da costa portuguesa? Sabe-se pouco disso. O governo concedeu licenças, os locais permanecem em segredo (ou pelo menos este cronista não tem conhecimento) e seria bom que soubéssemos o que se passa quanto a esse «dossier»!
Sair da dependência do petróleo significa cuidar do ambiente e da economia. Ou teremos o clima cada vez mais desregulado e a prazo todos os oceanos serão o «Mar Morto» da nossa vergonha.
3)Um bando de andorinhões-pretos sobre as ruas movimentadas da Baixa portuense. Silvos agudos, asas velozes em forma de «boomerang», formato aerodinâmico, estas pequenas aves que cortam o céu em todas as direcções pertencem aos ventos e às alturas. Quase nunca pousam, nem para visitar o ninho e alimentar as crias, dormem em voo e a sua agitação devolve-nos uma Primavera melhor. No Outono voltarão às savanas africanas, entre perigos e velocidade estonteante, e as suas figurinhas escuras e nervosas irão sobrevoar paisagens diferentes, outras gentes e casas.
Vê-los é presenciar um suave milagre, que o bulício da cidade esconde. Quase se confundem com minúsculos cometas, os andorinhões-pretos sôfregos de insectos, silhuetas recortadas no azul do céu.
Que tenham boa estadia entre nós os bravos viajantes— sinais de vida por cima das nossas vidas!
Bernardino Guimarães
( Crónica publicada no Jornal de Notícias, 8/6/010)
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terça-feira, junho 08, 2010
segunda-feira, maio 31, 2010
AFUNDAMENTO
O que está a suceder no Golfo do México, desde a explosão da plataforma petrolífera da BP, Deepwater Horizon, excede quisquer pesadelos de desastre ambiental. Vai para mês e meio que aconteceu e o buraco, situado a 1500 metros de profundidade continua a jorrar milhões de litros de petróleo por dia. Cada quatro dias o crude derramado iguala o que o famoso Exxon Valdez deixou no mar do Alaska, com as consequências que se sabe. Nas costas da Luisiana, e onde o rio Mississipi se espraia ao encontro do mar, a maré negra começa a invadir tudo. Mas a procissão ainda vai no adro. Todas as tentativas da BP resultaram em fracasso. Nada detém a fuga que ameaça eternizar-se. Qual será então a solução?Mesmo a mais cega fé nas virtualidades da técnica nos deixa inquietos.
Enquanto os santuários de vida selvagem e alguns dos mais importantes locais de nidificação e invernada de aves da América, as pescas, o turismo, a própria navegação comercial começam a sentir os pesados e negros efeitos, a BP afunda-se na sua incompetência e avidez. Afunda-se também Obama e a sua admnistração?Seria irónico que assim fosse, quando se sabe que nunca o presidente gozou das simpatias da poderosa indústria petrolífera. Mas pode pagar o preço de não ter sido suficientemente coerente com as suas afirmações eleitorais, por exemplo quanto a medidas para travar os avanços das petrolíferas em vários pontos das costas norte-americanas.
Afunda-se com a plataforma--e com o golfo do México--a saga da extracção petrolífera no mar, que a indústria dizia ser segura e a única forma de contornar o cada vez maior esgotamento das jazidas em terra, pelo menos na América. O poder político lá foi no canto da sereia, perfurou-se sempre mais fundo e com menor segurança--e os resultados estão à vista. O pesadelo tornou-se real e ninguém sabe quando acaba.
Mas sejamos justos--os responsáveis por esta tragédia ( anunciada) são todos os fomentadores da verdaeira doença, dessa adicção letal que é a dependência dos combustíveis fósseis. Se calhar todos nós, dopados em gasolina barata, indiferentes na prática ao drama do clima que muda e dos oceanos que morrem, incapazes de recusar o modelo de desenvolvimento insustentável e insensato que nos vendem todos os dias como sendo não apenas o melhor, mas o «único».
Afunda-se nesta tragédia a era do petróleo?Antes fosse assim, mas nada é menos certo. O optimismo tecnológico a arrogância dos potentados petrolíferos, com um desastre de dimensões inimagináveis em mãos, tudo isso sofreu certamente um rude golpe!
Demasiado visível o desastre, demasido nítida a impotência para o resolver. Os aprendizes de feiticeiro recuam em desordem--mas ainda são eles os poderosos!
Como aconteceu com o Titanic, ninguém vIu o iceberg. ninguém viu o óbvio ululante. Tanto pior para todos.
As ilusões do «progresso» pagam-se caro, por vezes.
Bernardino Guimarães
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