Alguns leitores terão reparado que, durante a campanha eleitoral, pouco ou nada se falou em Ambiente ou em qualquer dos temas que se prendem com a «crise ambiental» ou ecológica que, no entanto, não deixaram de existir nem diminuíram de importância ou gravidade. Que os partidos políticos de maior expressão— com raras e ocasionais excepções— tenham ignorado a dimensão ecológica dos nossos problemas, já é motivo de espanto. Mas se pensarmos que esses mesmos partidos formatam o seu discurso e decisões ao que pensam ser as preocupações dos seus eleitores potenciais, e às suas preferências e «agenda», então é difícil não concluir que a sociedade portuguesa vê com relativa indiferença esse alheamento político. E isso sim, dá-nos que pensar. Se o ambiente abonasse muitos votos, com certeza os partidos políticos e os técnicos de comunicação que os aconselham encontrariam resposta para um «segmento» eleitoral apetitoso.
Mas se é como se viu, então que tem sido feita de tanta «sensibilização» ambiental, e como se entende a difusão, cada vez mais ampla, da consciência alertada para o esgotamento de recursos, para a destruição da paisagem, da biodiversidade, para a contaminação dos rios e do mar, para o desordenamento do território, para as mudanças do clima induzidas pela poluição que expedimos para a atmosfera? Tudo terá ficado submerso nas ondas da crise económica e nas receitas para a vencer. Chegado o país à curva apertada da História onde se atolou, com trauma de perda progressiva de soberania e autonomia de decisões graças ao peso insuportável da dívida, os cidadãos centraram-se nas preocupações imediatas e urgentes— tantas vezes preocupações de sobrevivência.
Só que um pouco de debate e de aprofundamento, indo à raiz dos problemas (é esse o bom sentido da palavra «radical») ---não deixaria de pôr a nu as misérias do modelo de desenvolvimento que escolhemos e promovemos durante largos anos. Talvez devesse ser o tema central de qualquer discussão sobre as causas e as saídas possíveis para a crise. Esse modelo assentou no betão, (não é lugar comum!) entre obras públicas mais ou menos faraónicas e um incentivo brutal (e doentio) à construção e imobiliário, impulsionado pelos juros baixos, pela apelo generalizado à aquisição de casa própria, com a morte anunciada do mercado de arrendamento e o abandono dos centros tradicionais das cidades. Alguém dizia que boa parte da crise financeira nacional se deveu a uma «bolha imobiliária», mais discreta mas não menos séria do que a espanhola.
O abandono da terra, a ausência de políticas para o mundo rural e suas actividades, a ruína da floresta, a expansão desenfreada dos subúrbios citadinos, são outras facetas desse modelo «torto».
Pensou-se que «desenvolver» seria tudo atravessar por auto-estradas, que progredir seria incentivar o consumo que endivida e fragiliza o futuro.
Não permite a crónica mais considerações sobre matérias que dariam pano para mangas. Mas fica a urgência de reflexão sobre que país queremos, que projecto nacional desejamos, a que Europa ambicionamos pertencer.
O modelo de desenvolvimento envolve ambiente e sociedade, envolve economia e ecologia, cultura e natureza. A menos que nos conformemos com as receitas tecnocráticas da «troika» e pensemos ver nessas medidas mais do que um aflitivamente necessário «acerto de contas» com resultados aliás bastante duvidosos.
Pouco disto esteve presente nas eleições, com evidente empobrecimento do debate político. Mesmo tendo ontem sido dia de escolhas políticas e também Dia Mundial do Ambiente. Ironia subtil do calendário!
Bernardino Guimarães
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segunda-feira, junho 06, 2011
sexta-feira, dezembro 31, 2010
O ANO DE TODAS AS CRISES
É costume fazer-se nesta altura do ano o balanço dos últimos 365 dias, agora que o Inverno começa e se celebra o Natal da fraternidade e da reflexão.
Não sei se um tal hábito aproveita muito à preparação de um novo ano, como as resoluções para futuro, em forma de lista de intenções, acabam muitas vezes esquecidas poucos dias depois; mas talvez valha a pena pensar o que foi este 2010 terrível em tantos aspectos. Foi certamente o ano de todas as crises, no que aliás continuou o ano anterior, cheio de sustos bolsistas e privações reais para a maioria.
Para o Ambiente, 2010 foi o ano internacional dos impasses e das grandes promessas não cumpridas. Alguém duvida? Bastará ver que a comunidade das nações se revelou incapaz de realizar alguma coisa de sólido contra dois dos principais problemas da «crise ecológica», a saber as alterações climáticas e a perda de espécies. Quanto ao clima, e depois da desilusão de Copenhaga há um ano, fez-se Cancun— uma estância turística mais amena— para confirmar o fracasso; não se foi além de umas tépidas considerações gerais e da criação de um Fundo Verde para apoio aos países mais pobres, além de uma quase patética resolução empenhando a vontade dos estados no objectivo de não «deixar» o clima global aquecer mais de 2 graus!
A biodiversidade— que era o mote de 2010 como meta temporal para travar o desaparecimento das formas de vida, animais e vegetais--- também teve o selo da inépcia e do derrotismo. Em outra conferência mundial, concordou-se em discordar sobre quase tudo, excepto quanto à gravidade desta «crise das extinções» – e na fixação de outra meta para estancar a sangria: 2020.
Este quadro pouco animador, ou mesmo deprimente, fica a dever-se, em parte, à situação de grave crise económica internacional, que desvia as atenções dos dirigentes para o imediatismo das aflições financeiras. Também a «ecologia» da política mundial se revela hoje favorável às abordagens economicistas e monetaristas, que negam a solidariedade internacional entre os povos— mesmo na Europa cuja base e sentido era precisamente essa solidariedade, agora esquecida— e recusam ver nos sinais de desgaste da Natureza uma ameaça bem concreta, capaz de pôr em causa o futuro das próximas gerações.
Por todo o lado, o liberalismo «salta» de novo como solução— alguns verão facilmente nessa ideologia, grande parte do problema— e assim como prega e impõe a desvalorização do trabalho como túnel de saída da crise, igualmente entende que as preocupações ecológicas são um «luxo» ao qual não se pode ceder: e assim temos mais pobreza e ambiente mais degradado pela certa, receita explosiva e lamentável, verdadeiro retrocesso. De onde se observa a Europa (e todo o Ocidente) a resvalar gradualmente para o modelo económico/social/ambiental que se atribui à China do capitalismo selvagem, em vez de acontecer o contrário, como seria desejável para «civilizar» a globalização.
Mas estes desabafos não se destinam a ajudar o peditório do desalento— o futuro, bem o sabemos, sempre escapa às nossas pretensiosas profecias. Depende de cada um de nós— mesmo que pouco, mesmo que só uma gota de vontade no oceano— decidir o que quer e o que quer fazer. Essa liberdade ainda não nos foi retirada e o mundo «é composto de mudanças» --nem todas más, necessariamente!
Reagir a este estado de coisas e fazer emergir de novo uma agenda ambiental realista é tarefa para 2011— na cidade, na Área Metropolitana, no país e no mundo.
Que um certo «optimismo da vontade» possa vencer o negrume do «pessimismo da razão» que nos cerca, pesada e tristemente dominador!
Bernardino Guimarães
( Crónica publicada no JN em 21/12/2010)
Não sei se um tal hábito aproveita muito à preparação de um novo ano, como as resoluções para futuro, em forma de lista de intenções, acabam muitas vezes esquecidas poucos dias depois; mas talvez valha a pena pensar o que foi este 2010 terrível em tantos aspectos. Foi certamente o ano de todas as crises, no que aliás continuou o ano anterior, cheio de sustos bolsistas e privações reais para a maioria.
Para o Ambiente, 2010 foi o ano internacional dos impasses e das grandes promessas não cumpridas. Alguém duvida? Bastará ver que a comunidade das nações se revelou incapaz de realizar alguma coisa de sólido contra dois dos principais problemas da «crise ecológica», a saber as alterações climáticas e a perda de espécies. Quanto ao clima, e depois da desilusão de Copenhaga há um ano, fez-se Cancun— uma estância turística mais amena— para confirmar o fracasso; não se foi além de umas tépidas considerações gerais e da criação de um Fundo Verde para apoio aos países mais pobres, além de uma quase patética resolução empenhando a vontade dos estados no objectivo de não «deixar» o clima global aquecer mais de 2 graus!
A biodiversidade— que era o mote de 2010 como meta temporal para travar o desaparecimento das formas de vida, animais e vegetais--- também teve o selo da inépcia e do derrotismo. Em outra conferência mundial, concordou-se em discordar sobre quase tudo, excepto quanto à gravidade desta «crise das extinções» – e na fixação de outra meta para estancar a sangria: 2020.
Este quadro pouco animador, ou mesmo deprimente, fica a dever-se, em parte, à situação de grave crise económica internacional, que desvia as atenções dos dirigentes para o imediatismo das aflições financeiras. Também a «ecologia» da política mundial se revela hoje favorável às abordagens economicistas e monetaristas, que negam a solidariedade internacional entre os povos— mesmo na Europa cuja base e sentido era precisamente essa solidariedade, agora esquecida— e recusam ver nos sinais de desgaste da Natureza uma ameaça bem concreta, capaz de pôr em causa o futuro das próximas gerações.
Por todo o lado, o liberalismo «salta» de novo como solução— alguns verão facilmente nessa ideologia, grande parte do problema— e assim como prega e impõe a desvalorização do trabalho como túnel de saída da crise, igualmente entende que as preocupações ecológicas são um «luxo» ao qual não se pode ceder: e assim temos mais pobreza e ambiente mais degradado pela certa, receita explosiva e lamentável, verdadeiro retrocesso. De onde se observa a Europa (e todo o Ocidente) a resvalar gradualmente para o modelo económico/social/ambiental que se atribui à China do capitalismo selvagem, em vez de acontecer o contrário, como seria desejável para «civilizar» a globalização.
Mas estes desabafos não se destinam a ajudar o peditório do desalento— o futuro, bem o sabemos, sempre escapa às nossas pretensiosas profecias. Depende de cada um de nós— mesmo que pouco, mesmo que só uma gota de vontade no oceano— decidir o que quer e o que quer fazer. Essa liberdade ainda não nos foi retirada e o mundo «é composto de mudanças» --nem todas más, necessariamente!
Reagir a este estado de coisas e fazer emergir de novo uma agenda ambiental realista é tarefa para 2011— na cidade, na Área Metropolitana, no país e no mundo.
Que um certo «optimismo da vontade» possa vencer o negrume do «pessimismo da razão» que nos cerca, pesada e tristemente dominador!
Bernardino Guimarães
( Crónica publicada no JN em 21/12/2010)
terça-feira, junho 08, 2010
AMBIENTE EM RECESSÃO
1)Nem as pontuais celebrações do Dia Mundial do Ambiente servem para atenuar o facto: a crise económica tende a fazer passar o Ambiente para segundo plano. A «crise ecológica» tão patente na realidades das coisas, deixou quase os cabeçalhos e certamente as agendas políticas, todas voltadas para os ditames de entidades mais ou menos misteriosas como «os mercados» e as agências de notação de risco. Não deixa de ser evidente que esta crise, dita «do crédito» ou da falta dele, motivou medidas de austeridade cegas, nada inovadoras e que atingem gravemente os critérios de justiça social.
Mesmo se inevitáveis no curto prazo, tais medidas são paliativos que não modificarão nada de essencial. Alguns economistas mais avisados já perceberam que são precisas respostas inovadoras, e que se crédito há abusivamente contraído, esse é em primeiro lugar o do «capital natural» que exploramos sem medida. Uma nova economia tem de partir do abandono da ideia da Terra inesgotável de recursos, começando por valorizar os serviços que a Natureza nos presta.
Se vivemos acima das nossas possibilidades, porque a «pegada ecológica» do nosso consumo excede já o que o planeta pode oferecer, é tempo de parar para pensar: as coisas jamais serão as mesmas e a crise— a económica e a ecológica— pertencem ao mesmo problema/dilema do tempo de hoje. Gastar menos o «capital natural» e construir um sistema viável e socialmente mais equitativo— à escala europeia e global-- não será tarefa fácil. Mas lembremos: nada no mundo tem mais força do que uma ideia cujo tempo tenha chegado!
2)A explosão e derrame da plataforma da BP no Golfo do México não é apenas o maior desastre petrolífero da História, mas pode bem ser o dobre de finados de um tipo de exploração que foi apontado como a maior esperança da indústria. Os furos da prospecção no mar alto tentam responder ao cada vez mais evidente esgotamento comercial das reservas de petróleo em terra. Esqueceram-se, como se vê, as regras mais elementares da prudência e da segurança. Duvida-se que alguma coisa fique na mesma depois desta catástrofe— cuja dimensão ainda nem podemos medir. Seguramente a exploração «offshore» será muito mais cara no futuro próximo, isto se for viável.
Já agora, o que se passa ou vai passar com as licenças de prospecção cedidas ao longo da costa portuguesa? Sabe-se pouco disso. O governo concedeu licenças, os locais permanecem em segredo (ou pelo menos este cronista não tem conhecimento) e seria bom que soubéssemos o que se passa quanto a esse «dossier»!
Sair da dependência do petróleo significa cuidar do ambiente e da economia. Ou teremos o clima cada vez mais desregulado e a prazo todos os oceanos serão o «Mar Morto» da nossa vergonha.
3)Um bando de andorinhões-pretos sobre as ruas movimentadas da Baixa portuense. Silvos agudos, asas velozes em forma de «boomerang», formato aerodinâmico, estas pequenas aves que cortam o céu em todas as direcções pertencem aos ventos e às alturas. Quase nunca pousam, nem para visitar o ninho e alimentar as crias, dormem em voo e a sua agitação devolve-nos uma Primavera melhor. No Outono voltarão às savanas africanas, entre perigos e velocidade estonteante, e as suas figurinhas escuras e nervosas irão sobrevoar paisagens diferentes, outras gentes e casas.
Vê-los é presenciar um suave milagre, que o bulício da cidade esconde. Quase se confundem com minúsculos cometas, os andorinhões-pretos sôfregos de insectos, silhuetas recortadas no azul do céu.
Que tenham boa estadia entre nós os bravos viajantes— sinais de vida por cima das nossas vidas!
Bernardino Guimarães
( Crónica publicada no Jornal de Notícias, 8/6/010)
Mesmo se inevitáveis no curto prazo, tais medidas são paliativos que não modificarão nada de essencial. Alguns economistas mais avisados já perceberam que são precisas respostas inovadoras, e que se crédito há abusivamente contraído, esse é em primeiro lugar o do «capital natural» que exploramos sem medida. Uma nova economia tem de partir do abandono da ideia da Terra inesgotável de recursos, começando por valorizar os serviços que a Natureza nos presta.
Se vivemos acima das nossas possibilidades, porque a «pegada ecológica» do nosso consumo excede já o que o planeta pode oferecer, é tempo de parar para pensar: as coisas jamais serão as mesmas e a crise— a económica e a ecológica— pertencem ao mesmo problema/dilema do tempo de hoje. Gastar menos o «capital natural» e construir um sistema viável e socialmente mais equitativo— à escala europeia e global-- não será tarefa fácil. Mas lembremos: nada no mundo tem mais força do que uma ideia cujo tempo tenha chegado!
2)A explosão e derrame da plataforma da BP no Golfo do México não é apenas o maior desastre petrolífero da História, mas pode bem ser o dobre de finados de um tipo de exploração que foi apontado como a maior esperança da indústria. Os furos da prospecção no mar alto tentam responder ao cada vez mais evidente esgotamento comercial das reservas de petróleo em terra. Esqueceram-se, como se vê, as regras mais elementares da prudência e da segurança. Duvida-se que alguma coisa fique na mesma depois desta catástrofe— cuja dimensão ainda nem podemos medir. Seguramente a exploração «offshore» será muito mais cara no futuro próximo, isto se for viável.
Já agora, o que se passa ou vai passar com as licenças de prospecção cedidas ao longo da costa portuguesa? Sabe-se pouco disso. O governo concedeu licenças, os locais permanecem em segredo (ou pelo menos este cronista não tem conhecimento) e seria bom que soubéssemos o que se passa quanto a esse «dossier»!
Sair da dependência do petróleo significa cuidar do ambiente e da economia. Ou teremos o clima cada vez mais desregulado e a prazo todos os oceanos serão o «Mar Morto» da nossa vergonha.
3)Um bando de andorinhões-pretos sobre as ruas movimentadas da Baixa portuense. Silvos agudos, asas velozes em forma de «boomerang», formato aerodinâmico, estas pequenas aves que cortam o céu em todas as direcções pertencem aos ventos e às alturas. Quase nunca pousam, nem para visitar o ninho e alimentar as crias, dormem em voo e a sua agitação devolve-nos uma Primavera melhor. No Outono voltarão às savanas africanas, entre perigos e velocidade estonteante, e as suas figurinhas escuras e nervosas irão sobrevoar paisagens diferentes, outras gentes e casas.
Vê-los é presenciar um suave milagre, que o bulício da cidade esconde. Quase se confundem com minúsculos cometas, os andorinhões-pretos sôfregos de insectos, silhuetas recortadas no azul do céu.
Que tenham boa estadia entre nós os bravos viajantes— sinais de vida por cima das nossas vidas!
Bernardino Guimarães
( Crónica publicada no Jornal de Notícias, 8/6/010)
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quarta-feira, março 31, 2010
CONTABILIDADE
Muitas das polémicas suscitadas pela defesa de «causas ambientais» radicam numa incompreensão de base, quando não em grosso equívoco: os defensores da Natureza pretendem a preservação de valores ambientais, um rio, um vale, uma floresta, uma zona húmida, que deverão prevalecer em prejuízo de infra-estruturas que pretensamente induzem «progresso» e até «desenvolvimento». Em alternativa radical, a preferência por um desses valores implica a recusa do outro. Se mantemos a paisagem natural, não teremos auto-estrada e barragem e hipermercado, por exemplo. Não admira que o mais das vezes a Natureza fique para trás, porque interesses poderosos podem esgrimir com o argumento (dito de forma definitiva e grave) de que as necessidades humanas de «desenvolvimento», e as promessas de mais emprego e mais prosperidade, não devem ser prejudicadas pelo amor às belezas naturais. Poucos falam do valor que se perde e fica a ideia de que prevaleceu o «realismo».
Significa isto que é preciso abordar, em profundidade, o problema do «valor» da Natureza em termos, não apenas espirituais e culturais, ou éticos, mas igualmente em termos económicos. O divórcio antigo entre Ecologia e Economia tem marcado as grandes decisões do nosso tempo— pese embora a sintomática origem comum das duas palavras. Ambas as disciplinas são jovens enquanto ciências e não tem sido fácil acertar contas entre instrumentos de análise que nos habituámos a ver como «opostos».
Um grande economista português, interessado de forma precursora na Ecologia, Henrique de Barros (que foi em 1975 presidente da Assembleia Constituinte) escreveu que «toda a actividade económica se insere na biosfera» o que justifica tentar «o alargamento do campo de visão dos economistas para além do que é mercantil» e também «a consciencialização económica dos ecologistas». Para este autor a Ecologia privilegia o «homem natural» e a Economia o «homem social»; o âmbito de acção da primeira é o estudo das formas de vida em relação, a segunda observa o mercado e a competição. A Ecologia foca a globalidade e o «ser», a Economia tende para o parcial e para o «ter». Mas, avisa Henrique de Barros, que não é possível continuar a ver a riqueza de uma nação dentro do apertado crivo do PNB, hoje PIB-Produto Interno Bruto, porque este meio de análise não contabiliza o valor dos ecossistemas naturais nem o custo da sua destruição. Além de que «o crescimento económico constante é apenas a filosofia do impossível, a não ser que se trate de crescimento para o caos, se entendermos que tudo finda na morte».
Os leitores hão-de perdoar-me esta incursão por terrenos que não cabem na crónica. Mas quero dizer que existe o «pecado original» da desvalorização da Natureza— com trágicas consequências.
Enquanto em todo o mundo se procura reconciliar teoricamente as duas disciplinas irmãs e inimigas, no concreto se vê ao que chega a separação delas: a nossa economia faz mal, ou nem faz, as contas necessárias. O que vale mais, o rio Tâmega, o rio Tua, o Douro, que são água, fauna e flora, pesca e recreio, paisagem atractiva, agricultura e economia local, património natural e cultural— ou as barragens que prometem aprisionar os rios em paredes de cimento? Na economia que temos, ganham as barragens e suas «vantagens» imediatas. Mas será lógico não atribuir valor económico ao que os rios dão e representam? O mesmo para uma floresta--que só entra nas contas do PIB se for cortada e vendida aos toros!
Muito para mudar na definição do que é riqueza e do que não é. Entretanto, arriscamo-nos a ficar mais pobres, em vários sentidos, em nome de ganhos fugazes e enganosos!
Bernardino Guimarães
(Crónica no Jornal de Notícias em 30/3/010)
Significa isto que é preciso abordar, em profundidade, o problema do «valor» da Natureza em termos, não apenas espirituais e culturais, ou éticos, mas igualmente em termos económicos. O divórcio antigo entre Ecologia e Economia tem marcado as grandes decisões do nosso tempo— pese embora a sintomática origem comum das duas palavras. Ambas as disciplinas são jovens enquanto ciências e não tem sido fácil acertar contas entre instrumentos de análise que nos habituámos a ver como «opostos».
Um grande economista português, interessado de forma precursora na Ecologia, Henrique de Barros (que foi em 1975 presidente da Assembleia Constituinte) escreveu que «toda a actividade económica se insere na biosfera» o que justifica tentar «o alargamento do campo de visão dos economistas para além do que é mercantil» e também «a consciencialização económica dos ecologistas». Para este autor a Ecologia privilegia o «homem natural» e a Economia o «homem social»; o âmbito de acção da primeira é o estudo das formas de vida em relação, a segunda observa o mercado e a competição. A Ecologia foca a globalidade e o «ser», a Economia tende para o parcial e para o «ter». Mas, avisa Henrique de Barros, que não é possível continuar a ver a riqueza de uma nação dentro do apertado crivo do PNB, hoje PIB-Produto Interno Bruto, porque este meio de análise não contabiliza o valor dos ecossistemas naturais nem o custo da sua destruição. Além de que «o crescimento económico constante é apenas a filosofia do impossível, a não ser que se trate de crescimento para o caos, se entendermos que tudo finda na morte».
Os leitores hão-de perdoar-me esta incursão por terrenos que não cabem na crónica. Mas quero dizer que existe o «pecado original» da desvalorização da Natureza— com trágicas consequências.
Enquanto em todo o mundo se procura reconciliar teoricamente as duas disciplinas irmãs e inimigas, no concreto se vê ao que chega a separação delas: a nossa economia faz mal, ou nem faz, as contas necessárias. O que vale mais, o rio Tâmega, o rio Tua, o Douro, que são água, fauna e flora, pesca e recreio, paisagem atractiva, agricultura e economia local, património natural e cultural— ou as barragens que prometem aprisionar os rios em paredes de cimento? Na economia que temos, ganham as barragens e suas «vantagens» imediatas. Mas será lógico não atribuir valor económico ao que os rios dão e representam? O mesmo para uma floresta--que só entra nas contas do PIB se for cortada e vendida aos toros!
Muito para mudar na definição do que é riqueza e do que não é. Entretanto, arriscamo-nos a ficar mais pobres, em vários sentidos, em nome de ganhos fugazes e enganosos!
Bernardino Guimarães
(Crónica no Jornal de Notícias em 30/3/010)
terça-feira, março 30, 2010
A RIQUEZA DAS NAÇÕES
Reconhecer valor económico aos serviços que a Natureza nos presta. Fazer entrar nas contas da cada nação a valorização das riquezas naturais e dos ecossistemas. Parece coisa simples, isto que disse? Mas é de facto uma verdadeira revolução!
Hoje, a economia que temos dá pouco ou nenhum valor àquilo que, no entanto é básico. Quanto valem uma floresta antiga, uma paisagem rural equilibrada, um sistema ecológico que garante a existência de água potável ou de solos aráveis e a protecção contra cheias, uma reserva natural onde se albergam muitas espécies de plantas e animais? Sim, que valor se lhes dá?
A economia esconde a maior parte da verdadeira «riqueza das nações»!
Perante a Economia dominante, cujas noções falíveis governam a nossa vida, tudo isso que é vital vale muito pouco. Ou nada. E muito menos se concebem instrumentos para a sua quantificação.
Talvez isso explique o grau de afastamento da realidade a que tende o capitalismo financeiro das últimas décadas, desligado da economia real e entregue avidamente às especulações mais insensatas e perigosas— conforme se tem visto e sentido.
Por isso vivemos muito acima das nossas possibilidades, não apenas porque no quadro das noções económicas vigentes consumimos muito e poupamos pouco, mas também porque a nossa exigência crescente de recursos naturais finitos faz com que já estejamos a retirar mais da Terra do que aquilo que podem repor os ecossistemas e sua auto-regeneração.
Concretizemos: para efeitos de medição do célebre PIB (Produto Interno Bruto) uma floresta vale dinheiro…se for cortada e transformada em produtos transaccionáveis. As funções ecológicas dos bosques não contam nem um centavo para esse «campeonato»!
Um rio também não tem melhor sorte neste sistema: atribui-se-lhe valor quando for aprisionado, torturado por uma barragem que gere electricidade. Ou seja, contabiliza-se a energia produzida mas aí, com forte probabilidade, já o rio deixou de ser rio.
E nem pensar em dar valor contabilizável às árvores que fixam e enriquecem o solo e contribuem para purificar e preservar a água e a atmosfera.
A Natureza mais ou menos intocada atrai cada vez maiores «fluxos turísticos verdes» --milhões de pessoas que querem ver e viver a paisagem bela e a vida selvagem íntegra e rara— mas nem por isso os valores naturais são contados justamente na riqueza nacional, que toma nota, apenas do que facturam hotéis e pousadas. O mesmo para a biodiversidade, para as plantas que acautelam a segurança genética dos cultivos e a produção de medicamentos, ou para os animais silvestres que tornam equilibrados os seus «habitats» ou fornecem serviços gratuitos como o controle de pragas e a polinização.
Muitos economistas e ambientalistas, pelo mundo fora, estudam agora as formas de atribuir o justo valor económico aos ecossistemas. Se a Amazónia for considerada um dos «pulmões do mundo» isso implica realmente um serviço a toda a Humanidade que é preciso valorizar. E por cá, como no mundo, as regiões mais pobres são aquelas onde se produz aquilo sem o qual não poderíamos viver: água pura, solo produtivo, floresta, alimentos de qualidade, biodiversidade e cenários naturais atraentes. Será isso lógico e justo? As regiões que contam maior fatia no PIB «produzem» muitas coisas que não deveriam ser valorizadas— poluição, stress, voracidade no consumo de energia e outros recursos, resíduos não recicláveis.
O PIB, (e com ele os governos) interessa-se pouco por essa injustiça, que aliás cauciona, e assim nunca os habitantes das zonas rurais do interior serão compensados por tudo aquilo que preservam e oferecem ao nosso mundo super-urbanizado.
Claro que alguns perguntam, legitimamente, se será boa ideia contar em dinheiro os benefícios da mãe Natureza, prodigalizados com graça e de graça?
Talvez não seja muito poético a uma primeira vista, e soe mal até, neste tempo em que tudo se compra e se vende. Pode ser que uma tal mudança na contabilidade da riqueza acarrete inconvenientes e distorções, que deverão nesse caso ser corrigidas e repensadas.
Mas esta transformação a haver, unindo Ecologia e Economia, afigura-se em geral como um dos caminhos para salvar a Natureza— ou melhor, para nos salvar, abrindo talvez uma era em que os serviços da Terra serão geridos com mais inteligência, equidade e em modo de cooperação.
Bernardino Guimarães
(Crónica para a Antena 1, em 18/3/010)
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