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quarta-feira, abril 27, 2011

O PAÍS DAS ROTUNDAS

A nossa paisagem modificou-se, o perfil de cidades e vilas foi profundamente alterado. Estas últimas décadas foram de ilusão de prosperidade e de oportunidades desaproveitadas, como bem sabemos. Dessa euforia mal orientada, ou perversamente instilada, ficaram marcas visíveis até do espaço, porque alguns satélites podem registar imagens impressivas do que foi a «obra feita» um pouco por todo o lado. As rotundas são a marca e a expressão de um certo tipo de mentalidade e também de uma certa forma de gastar os dinheiros públicos. Proliferam, são milhares, pontuam todo o território urbano e suburbano, e nelas, nesses círculos fatais da nossa idade, se investiu boa parte da criatividade e do esforço de muita gente. Os autarcas competem pelo maior número, profusão e grandeza das suas rotundas. Os automobilistas fizeram delas o seu recreio permanente. Como instrumentos de ordenamento do tráfego, ou como adornos indispensáveis a uma terra com orgulho, as rotundas transformaram-se no mais marcante dos sinais de «progresso» avassalando a paisagem portuguesa. Os sociólogos, ou os psicólogos, mais do que os engenheiros de trânsito, poderão, se o quiserem, retirar desta obsessão pelo redondo movente, as ilações mais esclarecedoras. Limitemo-nos por agora a contemplá-las: está ali, no exagero e na multiplicação por cópia, um dos ícones do que foi o nosso «modelo de desenvolvimento». As auto-estradas também fazem parte do Portugal moderno. O gosto atávico pelo perigo insensato ou mera inconsciência fazem delas o palco de inúmeras tragédias, apesar de a sua construção ter tido como objecto a maior segurança rodoviária. Não contentes em traçar e executar as rodovias indispensáveis, ligando os principais eixos do território, deixando uma importante função para o transporte ferroviário e melhorando as estradas «convencionais», resolveu-se que isso seria pouco para tamanha ambição e génio das grandezas. Cobriu-se o país de asfalto, aumentando a dependência do automóvel e o consumo de combustível. Não se desenvolveu o interior, que bem precisaria de um esforço nesse sentido, mas acentuou-se a tendência de êxodo para as grandes metrópoles do litoral.
Hoje muitas auto-estradas raramente atraem trânsito assinalável e podemos orgulhar-nos das duas ligações paralelas Porto-Lisboa, separadas apenas por alguns quilómetros, proeza rara que não ostenta nenhum dos países europeus mais ricos e desenvolvidos. O abandono da ferrovia foi o contraponto a esta outra mania onde se dilapidaram centenas de milhões, saídos já do bolso do Estado ou aguardando a factura pesada que virá das «parcerias público-privadas»
Em vez de pequenas barragens que retivessem a água e tivessem impacto na agricultura local, optou-se mais uma vez pelo gigantismo: imensas represas inundam paisagens e ecossistemas únicos.
Outros exemplos poderiam ser trazidos à colação, todos neste sentido da obra faraónica ou para encher o olho, da falta de sentido global e de prioridades de acção conducentes ao bem comum.
Agora chegou o tempo de pagarmos a conta; a festa durou bastante mas dela ficou pouca coisa de positivo.
Se pensarmos que as escolas recentemente remodeladas, a cargo de uma empresa pública, passaram a consumir até três vezes mais energia do que antes, a ponto de as mesmas escolas estarem com dificuldades em pagar as contas ao fim do mês, que se há-de concluir? Ninguém na Parque Escolar EPE ouviu falar de eficiência energética, de poupança de recursos?
Mudar de vida, como diz a cantiga. Ou não se verá tão cedo a luz ao fundo do túnel onde se atolou Portugal, multissecular e hoje insustentável.
Bernardino Guimarães
(Crónica publicada em Jornal de Notícias, 27/4/2011)

quinta-feira, abril 22, 2010

A QUERCUS, SOBRE O DIA DA TERRA


4 décadas põem a nu a insustentabilidade da espécie humana

Quercus alerta para o défice ecológico de Portugal.
A Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza junta-se a milhares de outras organizações para, em 2010, assinalar, pela quadragésima vez, o Dia da Terra.

Infelizmente, quatro décadas passadas desde o momento em que se designou internacionalmente um dia para celebrar o Planeta Terra, os dados indicam que o caminho percorrido não tem ido no bom sentido e a nossa capacidade de conhecer e respeitar os limites da sustentabilidade do Planeta não tem progredido.

Portugal, para além do défice económico, tem também problemas sérios com o défice ecológico. O

panorama global
Os dados mais recentes apontam para o facto de, enquanto civilização humana, estarmos prestes a causar um cataclismo de magnitude planetária, de que as alterações climáticas são apenas um dos sintomas. O actual sistema de produção e consumo intensivos pode ser comparado à imagem de um cometa em rota de colisão com o Planeta Terra. Para já estamos a sentir apenas a chegada de pequenos fragmentos que acompanham o cometa principal. Contudo, a aproximação é rápida, pelo que o tempo para reagir começa a escassear.
Alguns dados de contexto:
— A pegada ecológica global excede em cerca de 40% a capacidade de carga do Planeta, pelo que precisaríamos de 1,4 planetas para suprir todas as necessidades actuais, sem afectar o equilibrio do planeta;

— Mais de ¾ da população mundial vive em países em débito ecológico (biocapacidade abaixo das necessidades, ou seja, não conseguem produzir dentro das suas fronteiras os recursos que consomem, nem desfazer-se dos resíduos que produzem);

— A pegada ecológica do cidadão europeu ocupa, em média, 4,6 hectares globais e a de um cidadão dos EUA 9,6 hectares globais (tendo presente que a disponibilidade global é de 1,8 hectares globais per capita);

— Este desrespeito pelos limites do planeta Terra acontece quando apenas mil milhões de pessoas têm uma vida abastada, mil a dois mil milhões vivem em economias de transição e cerca de três a quatro mil milhões sobrevivem com apenas alguns euros por dia;

— Considerando que a população mundial em 2050 terá previsivelmente crescido dos actuais 6 mil milhões para 9 mil milhões, para que consigamos viver dentro dos limites do planeta será necessário que:

— Os cidadãos europeus reduzam a sua pegada ecológica para 25% da actual

— Os cidadãos dos EUA reduzam a sua pegada ecológica para 10% da actual.

O défice ecológico nacional
Segundo dados de 2009, Portugal apresenta uma pegada ecológica de 4,4 hectares globais per capita (hg/per capita), tendo uma biocapacidade de apenas 1,2 hg/per capita. Em suma, o défice português é de cerca de 3,2 hg/per capita, ou seja, a pegada ecológica nacional está mais de 70% acima da nossa capacidade produtiva e de processamento dos resíduos que produzimos.

Se todos os países do mundo apresentassem esta pegada, seriam necessários 2,5 planetas. Como só temos um planeta à disposição, é urgente alterar a forma como nos relacionamos com o ambiente que nos rodeia.

O contributo de cada um de nós
Todos podemos e devemos ser agentes de mudança e promotores de um desenvolvimento sustentável nos diversos contextos da nossa vida, enquanto filhos, educadores, profissionais, amigos, vizinhos, etc.. Abdicar desse papel equivalerá a contribuir directamente para a manutenção da abordagem que nos conduziu à presente situação de desequilíbrio. E este é um cenário em que todos perdem e, logo, a evitar a todo o custo. Aqui ficam algumas propostas:

- Reduzir o consumo de carne proveniente da produção intensiva e consequentemente preferir alimentos de origem vegetal (frutas, legumes, cereais e leguminosas)

- Preferir alimentos produzidos em modo biológico ou biodinâmico

- Não adquirir animais ou produtos de animais em vias de extinção

- Plantar espécies autóctones

- Poupar água

- Reduzir o consumo de energia

- Pensar muito bem antes de comprar um qualquer bem ou serviço (reflectir sobre a sua necessidade, utilidade e impacto em termos de sustentabilidade – gasto de recursos, poluição e impacto no fim da vida, condições sociais em que foi produzido)

- Preferir produtos nacionais
- Andar a pé, de bicicleta e de transportes públicos;
- Respeitar os mesmos princípios em qualquer contexto: trabalho, escola, férias, etc.
- Exigir que os nossos representantes políticos assumam políticas que promovam a sustentabilidade
- Exigir que as empresas disponibilizem produtos e serviços mais sustentáveis e que o comprovem através de certificações independentes

São apenas alguns exemplos do muito que qualquer cidadão comum pode fazer para ajudar o Planeta que é a NOSSA CASA COMUM!

Definições
Pegada ecológica - procura medir a área de solo e de água que a população humana necessita para produzir ou albergar os recursos que consome e para absorver os resíduos que são produzidos
Biocapacidade – capacidade dos ecossistemas de uma dada região ou país para produzir material biológico e para absorver os resíduos produzidos pela espécie humana

Fonte: http://www.footprintnetwork.org/
Lisboa, 22 de Abril de 2010
A Direcção Nacional da Quercus - ANCN

quarta-feira, março 31, 2010

CONTABILIDADE

Muitas das polémicas suscitadas pela defesa de «causas ambientais» radicam numa incompreensão de base, quando não em grosso equívoco: os defensores da Natureza pretendem a preservação de valores ambientais, um rio, um vale, uma floresta, uma zona húmida, que deverão prevalecer em prejuízo de infra-estruturas que pretensamente induzem «progresso» e até «desenvolvimento». Em alternativa radical, a preferência por um desses valores implica a recusa do outro. Se mantemos a paisagem natural, não teremos auto-estrada e barragem e hipermercado, por exemplo. Não admira que o mais das vezes a Natureza fique para trás, porque interesses poderosos podem esgrimir com o argumento (dito de forma definitiva e grave) de que as necessidades humanas de «desenvolvimento», e as promessas de mais emprego e mais prosperidade, não devem ser prejudicadas pelo amor às belezas naturais. Poucos falam do valor que se perde e fica a ideia de que prevaleceu o «realismo».

Significa isto que é preciso abordar, em profundidade, o problema do «valor» da Natureza em termos, não apenas espirituais e culturais, ou éticos, mas igualmente em termos económicos. O divórcio antigo entre Ecologia e Economia tem marcado as grandes decisões do nosso tempo— pese embora a sintomática origem comum das duas palavras. Ambas as disciplinas são jovens enquanto ciências e não tem sido fácil acertar contas entre instrumentos de análise que nos habituámos a ver como «opostos».
Um grande economista português, interessado de forma precursora na Ecologia, Henrique de Barros (que foi em 1975 presidente da Assembleia Constituinte) escreveu que «toda a actividade económica se insere na biosfera» o que justifica tentar «o alargamento do campo de visão dos economistas para além do que é mercantil» e também «a consciencialização económica dos ecologistas». Para este autor a Ecologia privilegia o «homem natural» e a Economia o «homem social»; o âmbito de acção da primeira é o estudo das formas de vida em relação, a segunda observa o mercado e a competição. A Ecologia foca a globalidade e o «ser», a Economia tende para o parcial e para o «ter». Mas, avisa Henrique de Barros, que não é possível continuar a ver a riqueza de uma nação dentro do apertado crivo do PNB, hoje PIB-Produto Interno Bruto, porque este meio de análise não contabiliza o valor dos ecossistemas naturais nem o custo da sua destruição. Além de que «o crescimento económico constante é apenas a filosofia do impossível, a não ser que se trate de crescimento para o caos, se entendermos que tudo finda na morte».
Os leitores hão-de perdoar-me esta incursão por terrenos que não cabem na crónica. Mas quero dizer que existe o «pecado original» da desvalorização da Natureza— com trágicas consequências.
Enquanto em todo o mundo se procura reconciliar teoricamente as duas disciplinas irmãs e inimigas, no concreto se vê ao que chega a separação delas: a nossa economia faz mal, ou nem faz, as contas necessárias. O que vale mais, o rio Tâmega, o rio Tua, o Douro, que são água, fauna e flora, pesca e recreio, paisagem atractiva, agricultura e economia local, património natural e cultural— ou as barragens que prometem aprisionar os rios em paredes de cimento? Na economia que temos, ganham as barragens e suas «vantagens» imediatas. Mas será lógico não atribuir valor económico ao que os rios dão e representam? O mesmo para uma floresta--que só entra nas contas do PIB se for cortada e vendida aos toros!
Muito para mudar na definição do que é riqueza e do que não é. Entretanto, arriscamo-nos a ficar mais pobres, em vários sentidos, em nome de ganhos fugazes e enganosos!
Bernardino Guimarães
(Crónica no Jornal de Notícias em 30/3/010)

terça-feira, março 30, 2010

A RIQUEZA DAS NAÇÕES


Reconhecer valor económico aos serviços que a Natureza nos presta. Fazer entrar nas contas da cada nação a valorização das riquezas naturais e dos ecossistemas. Parece coisa simples, isto que disse? Mas é de facto uma verdadeira revolução!
Hoje, a economia que temos dá pouco ou nenhum valor àquilo que, no entanto é básico. Quanto valem uma floresta antiga, uma paisagem rural equilibrada, um sistema ecológico que garante a existência de água potável ou de solos aráveis e a protecção contra cheias, uma reserva natural onde se albergam muitas espécies de plantas e animais? Sim, que valor se lhes dá?
A economia esconde a maior parte da verdadeira «riqueza das nações»!
Perante a Economia dominante, cujas noções falíveis governam a nossa vida, tudo isso que é vital vale muito pouco. Ou nada. E muito menos se concebem instrumentos para a sua quantificação.
Talvez isso explique o grau de afastamento da realidade a que tende o capitalismo financeiro das últimas décadas, desligado da economia real e entregue avidamente às especulações mais insensatas e perigosas— conforme se tem visto e sentido.
Por isso vivemos muito acima das nossas possibilidades, não apenas porque no quadro das noções económicas vigentes consumimos muito e poupamos pouco, mas também porque a nossa exigência crescente de recursos naturais finitos faz com que já estejamos a retirar mais da Terra do que aquilo que podem repor os ecossistemas e sua auto-regeneração.
Concretizemos: para efeitos de medição do célebre PIB (Produto Interno Bruto) uma floresta vale dinheiro…se for cortada e transformada em produtos transaccionáveis. As funções ecológicas dos bosques não contam nem um centavo para esse «campeonato»!
Um rio também não tem melhor sorte neste sistema: atribui-se-lhe valor quando for aprisionado, torturado por uma barragem que gere electricidade. Ou seja, contabiliza-se a energia produzida mas aí, com forte probabilidade, já o rio deixou de ser rio.
E nem pensar em dar valor contabilizável às árvores que fixam e enriquecem o solo e contribuem para purificar e preservar a água e a atmosfera.
A Natureza mais ou menos intocada atrai cada vez maiores «fluxos turísticos verdes» --milhões de pessoas que querem ver e viver a paisagem bela e a vida selvagem íntegra e rara— mas nem por isso os valores naturais são contados justamente na riqueza nacional, que toma nota, apenas do que facturam hotéis e pousadas. O mesmo para a biodiversidade, para as plantas que acautelam a segurança genética dos cultivos e a produção de medicamentos, ou para os animais silvestres que tornam equilibrados os seus «habitats» ou fornecem serviços gratuitos como o controle de pragas e a polinização.
Muitos economistas e ambientalistas, pelo mundo fora, estudam agora as formas de atribuir o justo valor económico aos ecossistemas. Se a Amazónia for considerada um dos «pulmões do mundo» isso implica realmente um serviço a toda a Humanidade que é preciso valorizar. E por cá, como no mundo, as regiões mais pobres são aquelas onde se produz aquilo sem o qual não poderíamos viver: água pura, solo produtivo, floresta, alimentos de qualidade, biodiversidade e cenários naturais atraentes. Será isso lógico e justo? As regiões que contam maior fatia no PIB «produzem» muitas coisas que não deveriam ser valorizadas— poluição, stress, voracidade no consumo de energia e outros recursos, resíduos não recicláveis.
O PIB, (e com ele os governos) interessa-se pouco por essa injustiça, que aliás cauciona, e assim nunca os habitantes das zonas rurais do interior serão compensados por tudo aquilo que preservam e oferecem ao nosso mundo super-urbanizado.
Claro que alguns perguntam, legitimamente, se será boa ideia contar em dinheiro os benefícios da mãe Natureza, prodigalizados com graça e de graça?
Talvez não seja muito poético a uma primeira vista, e soe mal até, neste tempo em que tudo se compra e se vende. Pode ser que uma tal mudança na contabilidade da riqueza acarrete inconvenientes e distorções, que deverão nesse caso ser corrigidas e repensadas.
Mas esta transformação a haver, unindo Ecologia e Economia, afigura-se em geral como um dos caminhos para salvar a Natureza— ou melhor, para nos salvar, abrindo talvez uma era em que os serviços da Terra serão geridos com mais inteligência, equidade e em modo de cooperação.
Bernardino Guimarães
(Crónica para a Antena 1, em 18/3/010)

quinta-feira, dezembro 31, 2009

ANO NOVO ECOLÓGICO

30.12.2009Helena Geraldes ( Público)
A noite da passagem de ano não implica necessariamente “excessos ambientais”. A Quercus e a Carbono Verde, consultora de inventário e redução de emissões, aconselham a pôr na mesa copos de vidro em vez de plástico e até a plantar o pinheiro de Natal envasado.
Os ímpetos ecológicos podem começar mesmo na preparação das festas. Fernando Prioste, director da Carbono Verde, sugere a compra de produtos nacionais – com menores emissões de gases com efeito de estufa derivados do transporte - e a “utilização de produtos biológicos, transportados em sacos reutilizáveis, de pano ou papel”. O responsável aconselha ainda a preferência por “produtos vendidos a granel em vez dos embalados, para reduzir a produção de resíduos”.Os convites podem ser enviados por correio electrónico.Aqueles que escolheram contar as doze badaladas fora de casa podem “tentar juntar-se no mesmo carro com amigos”, aconselha Susana Fonseca, presidente da Quercus.Para quem decidir passar a noite em casa é preferível optar por pôr na mesa copos e pratos que depois se lavam e não vão para o caixote do lixo, assim como guardanapos de pano e não de papel. Susana Fonseca sugere também garrafas de vinho ou de espumante com rolhas de cortiça, e não de plástico, e sumos de fruta ou infusões em vez de refrigerantes. As casas com lareira podem utilizar produtos naturais, como pinhas e caruma, para acender o lume em vez das acendalhas.A música “não deverá ser muito ruidosa, para que as pessoas possam falar”.E quando a festa termina, Fernando Prioste lembra a importância de separar o lixo e colocá-lo no ecoponto. Ou ainda a “inovação” de acabar a noite a plantar o pinheiro de Natal envasado num espaço perto de casa.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

ESPÍRITO DE NATAL

A noite de Natal terá já passado, quando os leitores do JN encontrarem esta crónica. E o momento mágico de luz e de fraternidade universal será já uma recordação, ainda viva e presente. Todo o espírito de quadra se resume a isso— amor ao próximo, consciência solidária-- afinal, na celebração de um nascimento distante que resiste ao tempo e se renova cada ano, renovando-nos por um instante.
Crentes ou não crentes, a ninguém é indiferente esta noite longa e cheia de promessas, ainda na viragem da estação fria, o solstício de Inverno a sugerir recolhimento e introspecção.
Claro que uma crónica assim datada e inspirada, e para ser lida (se tiver sorte!) após a grande noite, não pode deixar de aparecer imbuída deste mistério e desse, digamos, impulso de reflexão e de solidariedade.
É difícil não ver o Natal concreto sob o prisma do consumismo, do brilho material fugaz, mesmo do esquecimento do que se pensa ser o espírito natalício, trocado pela apologia das compras e pela festa do comércio.
Qualquer ideia de fraternidade universal ficaria incompleta, e pobre, se esquecêssemos o mundo em que vivemos. O Ambiente não é mais do que o meio onde a vida humana é viável, no planeta onde nos foi dado existir.
Vista do espaço (onde os homens sonham outras viagens, e outros mundos) a Terra surge-nos na sua imensa fragilidade azul, pátria da água, da atmosfera que a existência de vida facilitou e que é garantia de vida. E morada de todas as espécies viventes, fauna e flora, e de todos os modos possíveis de a vida prosperar e evoluir, incluindo o Homem, e todos os povos que formam a Humanidade. A fotografia do nosso «planeta azul», captada pelos astronautas do programa Apolo, nos idos de 1972, ficou-nos na retina. Essa imagem fez mais pela ideia ecológica do que muitos discursos e teorias. Aquela esfera imperfeita é a casa comum dos homens, seja qual for a raça ou a cultura. Cuidar dela, curar as suas mazelas já tão visíveis, sobretudo travar as agressões que a marcha humana lhe inflige cada vez mais---devia ser nossa preocupação.
E para os que dizem que a atenção aos males do planeta, deixa para segundo plano as necessidades humanas e o cuidado com as pessoas, convém deixar a resposta que nos é dada pela ciência: factores geográficos, mas também políticos e geoestratégicos, fazem dos pobres da Terra, uma vez mais, as vítimas principais da degradação do ambiente global, agora e no futuro. As alterações climáticas, consequência da nossa voracidade em energia e em consumo, vão seguramente fazer-se sentir com pior intensidade e gravidade nos países equatoriais e tropicais e ainda nos territórios com clima já hoje árido. Por ironia do destino, aí se concentra a maior parte da população mundial. O agravamento das secas e da carência de água, o declínio da agricultura e o avanço dos desertos, os fenómenos meteorológicos extremos, tudo isso pode complicar mais a vida, já tão precária de tantos povos. Questão de injustiça: esses povos são os que menos poluem e menos recursos naturais gastam!
Um outro dilema moral e de solidariedade se nos depara: o futuro. As novas gerações, os que ainda nem nasceram, pagarão o preço dos nossos erros, do nosso egoísmo? Que Terra lhes deixaremos? Mais pobre, mais suja, menos habitável?
Consciência universal, que o Natal nos lembra, é ainda repensar o direito, a que antes nos arrogávamos, de destruirmos a Natureza e os seres que connosco partilham a existência no planeta azul. Seremos os gestores sensíveis da Terra ou os algozes da diversidade da vida?
Boas Festas para todos!
(Crónica publicada no JN em 24-12-08, precisamente há um ano.)

sábado, maio 23, 2009

CADA VEZ MAIS LIXO

A produção de resíduos domésticos tem aumentado todos os anos no Grande Porto. Esta tendência— que muito provavelmente revela uma situação idêntica no todo nacional— deveria fazer-nos reflectir. Em 2008 foram 519 590 toneladas de lixo, depositadas pelos munícipes e encaminhadas para destino final--maioritariamente a incineração nos fornos da LIPOR, entidade que nos forneceu os números e também o alerta.
Mil toneladas de resíduos não separados dão entrada diariamente na mesma LIPOR, recolhidas pelos serviços dos vários municípios da região metropolitana (não inclui vila Nova de Gaia e Santa Maria da Feira).
Significa isto que pouco ou nada mudou na nossa relação com o que chamamos lixo, isto é, os materiais que sobram do nosso consumo. Se pensarmos que apenas uns 10%, ou menos, dessa quantidade são separadas para reciclagem, e que a separação dos resíduos orgânicos só agora começa a dar os primeiros passos--temos um panorama bastante sombrio e desolador, muito aquém mesmo do cumprimento das directivas europeias a que estamos obrigados.
Com crise ou sem ela, não cessa de aumentar o desperdício que fazemos de recursos naturais— e demora a melhorar a atitude colectiva quanto à reciclagem. Sem Redução (o primeiro dos RRR) escassa Reutilização e pouca Reciclagem, lá se vai a política dos três RRR que o consenso moderno indica ser o caminho adequado. Um fracasso de todos, e das políticas ambientais nesta matéria em Portugal!
Apetece dizer: isto assim não é sustentável.
Do produtor de bens ao distribuidor a ao consumidor, passando pelas autoridades municipais e nacionais, é preciso mudar de vida, e a LIPOR aparece agora a sugerir aos cidadãos uma Carta de Compromisso, iniciativa que convida à assinatura de um documento simbólico online, comprometendo-se a contribuir, através da adopção de uma série de boas práticas, para um futuro mais sustentável— com menos lixo. Mas será isto suficiente?
Longe da vista, longe do coração. Quando nos livramos do que consideramos «lixo», esquecemo-nos dele, outros que o levem, tratem, armazenem, depositem e eliminem de alguma forma. Não é nada connosco.
E quem pensa no que significa em energia gasta, em poluição induzida ao longo de todo o ciclo de vida de um objecto ou produto, em desperdícios de recursos finitos, em necessidade de encontrar soluções, sempre caras e poluentes, para as montanhas de lixo que deixamos para trás, produto de um consumismo que pouco tem de racional?
Não nos ficará mal se pensarmos um pouco no lixo. Na sua origem, destino e impacte. Visão desagradável mas que afinal é nossa criação, nossa responsabilidade. E que de algum modo, gostemos ou não, nos define.
Bernardino Guimarães
(Crónica emitida pela Antena 1 em 21/5/09)