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sexta-feira, março 20, 2009

VEGETALIZAR OU MINERALIZAR (Para o Dia da Árvore)

Foto de Raízes.e.Asas

Neste mês de Março comemora-se o Dia Mundial da Floresta ou Dia da Árvore, de tão antigas tradições. Não tanto a efeméride mas certamente o objecto dela, vale bem uma crónica. Já cheira a Primavera, discretas florações mostram-se aqui e ali. Um pouco por toda a parte preparam-se com certeza comemorações— onde não faltará a ritual plantação de árvores, mesmo se o nosso clima não aconselha tal acto em época tão tardia. Salva-se raras vezes a árvore plantada, quase sempre a lembrança do festejo. A entrada primaveril proporciona assim, de qualquer modo, uma oportunidade para lembrarmos a importância das árvores na nossa vida, ecologia e economia consideradas-- e talvez fique alguma coisa das homenagens ás rainhas do mundo vegetal. Pena é que, nas ruas das cidades como nos campos, a retórica ou o sentimentalismo da data seja desmentida pela dureza dos factos.
Se progresso há no tratamento da árvore urbana, a verdade é que persistem os atentados e desatinos em tudo contrários aos discursos de exaltação e aos anúncios municipais. Árvores que serão de porte considerável em espaços exíguos que não acautelam o seu crescimento futuro. Em certos locais, ainda a poda regular e assassina a desfigurar estes seres, vivos e singulares. Pior do que isso: cada vez é mais escasso e problemático o espaço da árvore nas cidades, expulsas pelo betão, pelo parque de estacionamento e mesmo por aquelas «requalificações urbanas» onde pontifica o cimento e o granito como moda, que recusa a árvore e detesta os canteiros de flores!
Em volta dos cada vez menos nítidos perímetros urbanos, é o que se vê: a expansão das construções e a febre de lotear deixam pouco lugar ao verde. O que resta são aquelas degradas monoculturas industriais de eucaliptos –e talvez de pinheiros bravos—que ardem no Verão em volta da grande cidade/metrópole, entregues ao lixo e a uma gestão pouco menos do que inexistente.
Este panorama sombrio puxa o desalento, pouco primaveril. Ultrapassar este estado de coisas não parece fácil. A cultura dominante não ama as árvores e gostaria de eliminar o que resta de rural e de ligação à terra em proveito dos negócios imobiliários— motor de uma economia que não consegue transcender o atraso e a desqualificação paralisante.
Mas ar puro, regulação do clima, paisagem harmoniosa e atractiva, solo, água, são elementos em crise— e se o campo estiola de abandono e indefinição, a cidade respira mal e revê-se pior num quotidiano cinzento e duro.
Talvez a opção estratégica para os aglomerados urbanos seja mesmo entre «vegetalização» e «mineralização». Se quisermos inverter o rumo e seguir a primeira alternativa, é na árvore que teremos o elemento básico para transformação e melhoria.
O Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP) lançou recentemente o programa global «Um Bilião de Árvores» como meta mundial para os próximos tempos.
Pois bem, provavelmente a Área Metropolitana do Porto precisa de umas centenas de milhares de árvores novas!
As coisas podem ser mais simples do que as pintam alguns teóricos. Não sei se precisamos de «cidades competitivas» (estranha ideia!) mas não restam dúvidas de que precisamos, e muito, de cidades com vida e com qualidade de vida. E era bom que houvesse uma ideia grande, generosa e mobilizadora— plantar árvores, recriar bosques e inventar jardins em todos os espaços favoráveis. Cirurgia urbana, humanização que vem da presença do que é Natureza, harmonia entre cidade e campo e não degradação dos dois conceitos.
Mais árvores, menos loteamentos. Um programa demasiado simples?

Bernardino Guimarães
(Crónica publicada originalmente no Jornal de Notícias)

quarta-feira, março 18, 2009

PRIMAVERA SILENCIOSA

Em 1962, a simples publicação de um livro nos Estados Unidos provocou uma «tempestade» cujos efeitos se fazem ainda hoje sentir.
O livro chamava-se Silent Spring (Primavera Silenciosa) e a sua autora, Rachel Carson, era já bastante conhecida do grande público, pelo sucesso de algumas dos seus livros anteriores.
Silent Spring baseou-se em vários anos de estudos e consultas, denunciava a crescente contaminação do ambiente pelos produtos químicos mais variados, em particular os aplicados na agricultura como pesticidas, herbicidas e fertilizantes. A obra mostra, com dados irrefutáveis, os prejuízos permanentes causados ao ambiente e à saúde humana com a aplicação indiscriminada de insecticidas como o DDT, que entram na cadeia alimentar, poluem água e solos e vão semeando um rasto de morte nos ecossistemas.
Primavera Silenciosa – o livro-testamento de Rachel Carson— teve um efeito imediato— dividiu opiniões, abalou na opinião pública a crença passiva nas certezas arrogantes da indústria química. Mas estes potentados económicos jamais lhe perdoaram a audácia— usando de todos os expedientes para caluniarem e demolirem a credibilidade da escritora americana. Em vão. O livro causou demasiado impacte, acabando por motivar inúmeros outros estudos e investigações e, algum tempo depois, a adopção de legislação, nos EUA como em muitos outros países, no sentido do controle dos agro-tóxicos. A proibição do letal DDT foi uma vitória importante e bastante conhecida.
Esta causa, que Rachel Carson escolheu como a batalha da sua vida (morreu em 1964)
--continua hoje. Talvez com abordagens mais sofisticadas, as indústrias químicas continuam a opor-se a regulamentações claras dos seus produtos e a agricultura dita convencional não deixou ainda o paradigma do produtivismo apoiado nos agro-tóxicos.
Talvez a Primavera um dia volte a ser cheia dos sons dos pássaros e dos insectos— a sua ausência chocante nos campos americanos inspirou a Rachel a escolha do título do livro.
Os efeitos dos insecticidas na saúde humana continuam a ser, no mundo inteiro, uma fonte de graves preocupações.

Rachel Louise Carson nasceu em 1907 no Oeste da Pensilvânia, e desde muito cedo revelou interesse pela escrita e pela natureza.
Licenciou-se em Zoologia em 1932 na John Hopkins University, e pós-graduou-se no Laboratório de Biologia Marinha de Woods Hole (Massachusetts).
Diz-se que a escrita de Silent Spring foi motivada por uma carta de uma amiga, que se queixava da aplicação massiva de pesticidas por avião sobre o santuário de preservação de aves que mantinha na sua propriedade privada. Foram 4 anos de trabalho, juntando dados, entrevistando peritos, visitando no terreno áreas afectadas.
Apesar do encarniçamento das indústrias químicas, que tentaram mesmo impedir a publicação do livro, Rachel recebeu em 1963 o Prémio de Conservacionista do Ano, e a obra foi publicada em 3 números pela revista New Yorker.
O Presidente Kennedy elogiou a autora e favoreceu a legislação que viria a ser aprovada no Congresso. Em 1980, recebeu postumamente a Medalha Presidencial da Liberdade.
Odiada por aqueles que se julgavam impunes no regime de segredo e falta de transparência, Rachel não pôde assistir aos avanços no conhecimento dos efeitos da poluição que denunciou. A sua lucidez e coragem continuarão a ser lembradas pelos que amam a Natureza e a Verdade.
Silent Spring está publicado em português (Editora-Europa-América)

Bernardino Guimarães