quarta-feira, julho 21, 2010

VERDES ANOS


Está para se ver o que deixará de perene, este que é o « Ano Internacional da Biodiversidade». Será 2010 o ano da viragem, nesta matéria tão fundamental?

Os anos temáticos—e há mais temas do que anos, pelo que cada ano suporta diversas intenções muito diversas, algumas praticamente ignoradas pelo comum dos mortais—não têm, nem podem ter, o condão de mudar as coisas. Significam uma chamada de atenção, por vezes realçada mediaticamente, que pode, talvez contribuir para a geral tomada de consciência da importância de um problema, de um objectivo. Ou apenas uma marca no calendário?
No caso da biodiversidade, dedicar-lhe este ano foi ideia presa a uma meta: 2010 seria o ano em que se conseguiria travar a perda de espécies animais e vegetais no mundo, e na Europa o assunto assumiu foros de prioridade. Já se sabe que tal objectivo não foi alcançado, e assumido o fracasso, remeteu-se para as calendas gregas a ambição de deter aquela que é considerada a nova « era das extinções» tão dramática é a erosão da diversidade da vida e destruição da Natureza.
Entretanto, a crise financeira desviou as atenções e mudou as agulhas—erro de que aqui temos falado, bem grave por sinal, assumindo-se que a crise que empobrece o planeta que habitamos, e os recursos de que dependemos, é menos séria e ameaçadora do que a doença dos mercados e a febre alta das bolsas. Como se não houvesse relação entre ambas as crises—mas isso são contos ( mais) largos!
A perda de espécies é diária e contínua. Biodiversidade é um termo—muito recente mas destinado à fama—que quer dizer diversidade de espécies do mundo vivo, variabilidade genética nas espécies e diversidade de ecossistemas, meios biofísicos onde as espécies vivem e interagem. A taxa de extinções é difícil de calcular—e por vezes é discreto o seu desaparecimento. Soube-se da extinção declarada há semanas de um subespécie de rinoceronte em África, mas quem dá pela ausência de um insecto, de uma modesta planta de montanha, de uma variedade local de um cultivo, seja árvore de fruto, hortícola ou cereal?
É o nosso futuro que está em causa. Os oceanos esvaziam-se, as paisagens tornam-se cada vez mais iguais umas às outras, o que comemos é o mesmo em todas as latitudes. O mundo uniforme e escasso em variedade é um mundo pobre, aborrecido…e perigoso!
Enfrentar a crise da biodiversidade é tarefa urgente também nas cidades. O primeiro passo a dar é saber o que existe. O inventário da vida deveria ser instrumento de cada município. Que se saiba, só Vila Nova de Gaia o está a fazer no Grande Porto—e já se detectaram no concelho bem mais de 2300 espécies, plantas e animais, terrestres e marinhas, dando conta do património que há e que é preciso salvaguardar.
Só que salvar essa herança implica mudanças de vida—deixar à natureza espaço, incluir a biodiversidade nos planos municipais e nas rotinas, e talvez, por exemplo, optar: ter menos parques de estacionamento e menos asfalto para ter mais parques verdes e áreas naturais. Essa mudança é necessária, porque, ajudando a salvar a diversidade das espécies e tudo o que isso vale, se melhora o « habitat» humano e a qualidade de vida das pessoas. De onde a Natureza desertou, é regra que a vida e actividade dos homens deixa a prazo de ser possível. Cabe-nos escolher: podemos ter de abdicar de mais uma rotunda ou troço de auto-estrada para termos natureza e vida diversificada nas cidades. Não será grande o sacrifício!
Com ou sem Ano Internacional, o futuro das espécies, que influencia o nosso humano futuro, é e será, a par das alterações climáticas, um problema central do nosso tempo!
Bernardino Guimarães
( Crónica publicada no Jornal de Notícias, 20/7/010)

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