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sábado, dezembro 19, 2009

POSIÇÃO FINAL DA QUERCUS SOBRE A CONFERÊNCIA DE COPENHAGA

A Cimeira de Copenhaga terminou às 15.30h, hora da Dinamarca, 14.30h em Portugal.

Após o anúncio de acordo feito em primeiro lugar pelos Estados Unidos da América, ontem à noite, negociado principalmente com a Índia, China, Brasil e África do Sul, e que foi alvo da adesão de muitos outros países, incluindo a União Europeia, um longo processo negocial que durou toda a noite veio ainda a ter lugar.
A sessão plenária recomeçaria esta madrugada pelas três da manhã. Alguns países, de entre os quais os menos desenvolvidos, Estados pequenas ilhas e América Central, a não concordarem com a forma como o texto do Acordo de Copenhaga tinha sido elaborado e negociado. Acusaram também o processo de falta de transparência e democracia, o que não deveria ocorrer no quadro das Nações Unidas. Já a sociedade civil, incluindo as organizações não governamentais de ambiente, havia sido praticamente arredada do acompanhamento das negociações num acto nunca até agora verificado em qualquer Cimeira desta natureza.
Apesar da Cimeira estar agora oficialmente terminada, o Acordo de Copenhaga foi apenas “registado” ou “tomado nota” e não “adoptado” pelos órgãos da Cimeira e suscita ainda dúvidas sobre o seu valor e enquadramento. Para tal necessitaria do consenso do plenário, com o voto favorável de todos os países, o que não aconteceu. Assim, o acordo, para além de representar um fracasso na opinião da Quercus é um documento ainda mais fragilizado. Aliás, nem o símbolo da Convenção das Nações Unidas deverá vir estar presente no texto final que, mesmo depois de terminada a Cimeira, ainda recebe algumas correcções.

Falsa partida com muitos culpados
Este acordo é uma falsa partida e não é claro que tenha o apoio dos todos os líderes mundiais. Apesar do que os líderes políticos estão a dizer neste momento, este desenvolvimento não torna o trabalho quase feito: está longe de ser justo e vinculativo. Este acordo tem muitas lacunas reconhecidas aliás publicamente no momento do seu anúncio.Os líderes falharam em conseguir um verdadeiro acordo como prometido. Ignoraram a ciência e guiaram-se por interesses nacionais. Estamos perante um atraso com muitos custos, que podem ser medidos em vidas humanas e em dinheiro perdido. O continuar do Protocolo de Quioto para além de 2012 está ameaçado.
O financiamento acordado representa menos que os subsídios dos países às indústrias de combustíveis fósseis. Os objectivos para reduzir a poluição mantêm-nos no caminho que a ciência diz levar a um aumento catastrófico de temperatura.
Na melhor das hipóteses, estamos agora confrontados com um atraso mortal que significa uma tragédia desnecessária para milhões de famílias. Os impactos vão fazer-se sentir em todos os países e mais drasticamente nas populações mais pobres dos países em desenvolvimento.
Os líderes mundiais precisam de repensar este acordo. Tal como está, irá desmoronar-se assim que analisado com mais atenção. É preciso os líderes mundiais reunirem-se novamente antes de Junho para resolverem os assuntos que ficaram pendentes agora.

Numa análise mais detalhada de alguns culpados, a Quercus identifica:
- os Estados Unidos da América (que não querem assumir por agora metas de emissões ambiciosas e vinculativas),
- a China (que se recusou a ver acompanhado internacionalmente o seu esforço de redução de emissões),
- o Canadá (por trazer uma posição muito fraca para Copenhaga e sem intenção de a melhorar, recebendo o prémio “fóssil do ano” atribuído pelas ONGs, e até
- o Brasil (que teve um Presidente a fazer ontem um discurso com um conteúdo brilhante, mas que pretende uma abertura a projectos inadequados no mecanismo de desenvolvimento limpo e que participou activamente com os Estados Unidos na elaboração do famigerado acordo).
O Presidente da Conferência (Primeiro-Ministro dinamarquês Rasmussen) foi também um contributo para um final confuso e algo infeliz (na última parte já sem ele a conduzir os trabalhos).

Sobre a União Europeia e Portugal

Na opinião da Quercus, é fundamental que a União Europeia se comprometa unilateralmente com uma redução de 20 para 40% das suas emissões de gases com efeito de estufa entre 1990 e 2020 (30% de esforço interno), dado que os a recessão económica e financeira reduziram significativamente os custos das medidas associadas.
A União Europeia deveria desde já ter assegurado a continuação do Protocolo de Quioto para um segundo período pós-2012 e foi demasiado passiva em termos negociais, apesar de reconhecermos a sua liderança. A União Europeia deve confirmar que o processo negocial deve seguir de modo firme o caminho da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas que sem dúvida saiu fragilizado de toda esta negocial surreal e deprimente. Deve também clarificar que a contribuição financeira aos países em desenvolvimento acordada em Copenhaga é adicional.
Portugal tem também desafios pela frente e deve tomar medidas internas mais coerentes, na área do ordenamento do território, promovendo os transportes colectivos, na área da conservação de energia e eficiência energética, a par das energias renováveis mais sustentáveis, preparando-se para uma verdadeira revolução energética ao longo da próxima década, também aqui citada em Copenhaga pelo Primeiro-Ministro e que a Quercus tem reivindicado.

AS SETE RAZÕES QUE IMPEDIRAM UM ACORDO GLOBAL E SÉRIO


19-12-09 João Céu e Silva no «Diário de Notícias»
A maior cimeira de sempre terminou ontem com um passe de mágica do Presidente Obama ao conseguir, duas horas antes da hora limite, desbloquear com o primeiro-ministro da China um projecto de acordo. O texto está muito abaixo das expectativas, vai ser continuado em Bona dentro de seis meses, mas foi o possível.
Fechados em gabinetes e longe da vista durante todo o dia, com os assessores a medir palavras que preconizavam o desaire das negociações mundiais em curso na Conferência de Copenhaga, só o automóvel presidencial de Barack Obama - estacionado em lugar proibido - provava que o homem que chegou cedo dos Estados Unidos para tirar um acordo do pântano de um debate promovido pelas Nações Unidas e a presidência dinamarquesa ainda estava no interior do Centro Bella a lutar por ele.
Às 23.00, Obama apareceu para anunciar ao mundo que todos os países vão tentar salvar o planeta do aquecimento global através de um acordo muito aquém do que estava previsto. O rumor de que havia um acordo surgiu pelas 21.57, uma hora depois de o Presidente Lula da Silva ter abandonado o pavilhão e quatro horas após o primeiro-ministro russo ter partido para outra reunião. Os que ficaram mantinham-se no violente combate pelo acordo.
Este discurso de Obama entusiasmou mais do que aquele que proferiu a meio do dia, espelho do desaire mundial que se gerava com o desentendimento entre os 119 líderes de 193 países, que vieram até Copenhaga para ficar numa fotografia oficial que acabou por não ser tirada. O último dia da COP15 acabou por ser um dia Obama, porque sem a sua acção não teria sido possível arrancar o acordo desta megarreunião, condenada ao fracasso por tantos interesses que os mais ingénuos acharam ser possível ultrapassar após dois anos de intensas negociações prévias.
Só que o que está em causa vale muitos milhões de milhões de euros e sobretudo de yuans chineses e dólares americanos, bem como a mudança de estratégias económicas e industriais em todos os países desenvolvidos. Uma situação para além da força do apelo de Sarkozy ou de outros dirigentes que viram a sua força medida. Pela negativa.
O discurso de Obama e o acordo que obteve em Copenhaga só foram possíveis após uma tentativa desesperada para criar uma plataforma definitiva de entendimento: um telefonema ao primeiro-ministro chinês. Esse foi o factor que desbloqueou um impasse que, no último dia da COP15, já ninguém acreditava ser possível de ser ultrapassado e que foi tendo sucessivas etapas de esperança e desilusão. Obama foi claro na sua alocução ao mundo: "Pela primeira vez na história, as economias dos países desenvolvidos comprometeram-se na redução das emissões." Obama foi muito claro na liderança norte-americana para tornar possível o texto que vai suceder a Quioto, referiu imediatamente os seus efeitos na economia dos EUA e valorizou os benefícios que a "economia verde" vai promover na recuperação de milhares de empregos e de novos investimentos.
O Presidente revelou que os três grandes compromissos do texto são no âmbito da transparência, da mitigação e do financiamento. Alertou que estava distante do desejado, designadamente porque não era juridicamente vinculativo, mas "o Protocolo de Quioto era-o, e de pouco serviu". Quanto ao acordo, esclareceu que não é o suficiente e que precisa de mais interacção internacional, mas foi o que se conseguiu após um longo caminho, tendo, neste sentido feito questão de afirmar que o seu país tinha trazido o trabalho de casa feito, que há um ano que clarificara posições e que agora é a vez de enfrentar problemas internos para criar legislação.
Os louros da negociação foram atribuídos à actuação dos governantes da Etiópia (representante dos países africanos), à China, ao Brasil e à África do Sul - da União Europeia não se ouviu falar. Em seguida, respondeu a algumas perguntas - só a jornalistas do seu país - e despediu-se, lamentando não ficar para confraternizar com os outros líderes, mas "havia problemas atmosféricos em Washington" que exigiam que o Air Force One partisse imediatamente.
Nas várias questões levantadas pela imprensa americana estavam a limitação do aquecimento global não superior aos 2º e a quantificação de metas de reduções fixadas a cada país. Obama respondeu, mas remeteu-as para os negociadores, "que entendem mais disso do que eu", e fez questão de referir que a ciência vai ter um papel muito importante nos próximos tempos para dirimir as teses em torno das alterações climáticas.
Quanto ao texto do acordo o DN ouviu, pelas 19.00, a opinião de um dos negociadores que confirmou a sua baixa fasquia e até deu como exemplo que as "suas" três páginas do anterior texto tinham sido reduzidas a uma linha, sem significado. A próxima fase de negociações ficou marcada para Bona, daqui a seis meses e antes da COP16, no México, no final do próximo ano. As metas de redução das emissões até 2020 serão decididas já em Janeiro.
Acordo ambicioso
As Nações Unidas e a Dinamarca apostavam num Acordo de Copenhaga extremamente ambicioso, que fosse um passo muito à frente daquele que vigora desde 1997, o Protocolo de Quioto, que os EUA nunca o assinaram.
Tempo dos EUA
A actuação dos EUA face a Copenhaga foi mais complexa porque o seu timing não é o da Europa. Os EUA necessitavam de mais um ano para legislar no âmbito das alterações climáticas e enfrentar os poderosos interesses das empresas.
China pouco clara
É uma das mais importantes economias emergentes e não pretende que lhe sejam criados travões ao desenvolvimento. Principalmente, não aceitam as regras de transparência exigidas pelos EUA, o grande óbice na concertação, na medição das suas emissões por uma entidade exterior. África contestatária
Os países africanos são os que mais têm a perder porque serão os primeiros a ser afectados, mas, mesmo assim, não aceitaram as regras do financiamento. Vão ganhar mais.
União Europeia morna
Teve um papel de grande liderança, mas na COP15 perdeu a força negocial perante os EUA e a China.
Brasil emergente
Assumiu-se como das maiores potências mundiais e influenciou até ao fim o texto. O "negócio" que fez com Obama deixa-o mal na América Latina mas bem na geopolítica.
Plenário indeciso
A ausência de uma mão forte por parte da presidência dinamarquesa e um processo de gestão decisório ultrapassado no tempo por parte das Nações Unidas abriram uma brecha na condução do processo. Ainda por cima permitiu a politização com a expulsão das ONG.

COPENHAGA--REACÇÕES AO FRACASSO

19.12.2009Susana Almeida Ribeiro, no « Público»
Perante um acordo político minimalista na Cimeira de Copenhaga, o PÚBLICO ouviu alguns especialistas e organizações ambientalistas, pedindo-lhes reacções a este fraco compromisso não vinculativo, que apesar de falar do limite máximo de 2ºC para o aumento da temperatura média da Terra no futuro, não estipula sequer quais as metas de redução de emissões globais.
Viriato Soromenho Marques, conselheiro de Durão Barroso para a Energia e Alterações Climáticas e ex-presidente da associação ambientalista QuercusO objectivo de Copenhaga era encontrar um pós-Quioto. No fundo um documento que seria um tratado vinculativo para toda a gente, que pudesse acolher países que não estavam em Quioto, como os Estados Unidos e que no fundo permitisse que a elaboração de um documento único. Mas nada disso aconteceu.O acordo não é vinculativo. É vazio. As metas de redução são voluntárias. A única coisa positiva que saiu daqui foi aquele pacote financeiro que só foi possível porque um país deu um exemplo de que ninguém estava à espera, que foi o Japão, que abriu a bolsa de uma forma generosa aos países menos desenvolvidos nesta fase de transição até ao final de Quoito. Mas, para além disto, nada de substancial saiu.
”Partido Os Verdes

“‘Os Verdes’ consideram que a conferência de Copenhaga resultou num rotundo fracasso. Nem se chegou a um acordo vinculativo mas nem tão pouco se traçaram metas de redução de emissões de gases com efeito de estufa, nem se definiu um prazo para que um futuro acordo venha a estar definitivamente estabelecido. O PEV relembra que o período de cumprimento de Quioto está a chegar ao fim [termina em 2012] e, depois disso, há um vazio absoluto na definição de metas de redução de emissões de gases com efeito de estufa. ‘Os Verdes’ atribuem a responsabilidade deste fracasso aos chefes de Estado e de Governo, com particular responsabilidade para os EUA, que arrastaram as negociações até ao último minuto e que, definitivamente, demonstraram que desde a cimeira de Bali (em 2007) até à conferência de Copenhaga, não mais pensaram nem agiram para o sucesso das negociações. De resto, Obama, havia afirmado, antes da conferência de Copenhaga, que julgava ser muito difícil chegar a um acordo vinculativo. Como se prova, é caso para dizer, em jeito de uma ironia de revolta, que a conferência de Copenhaga, quase mais não serviu do que para elevar, neste período, a emissão de gases com efeito de estufa com as inúmeras e numerosas delegações que lá se deslocaram... para nada!Tudo fica agora adiado para 2010. Esperemos que os Chefes de Estado e de Governo entendam que até lá têm um trabalho contínuo a fazer, de modo a que em 2010 não assistamos a um novo fracasso... porque o Planeta precisa de soluções e estamos na eminência de uma crise climática que urge ser resolvida.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO FURIOSOS COM CIMEIRA DE COPENHAGA

Ricardo Garcia, 16 de Dezembro de 2009, no Público
Os países em desenvolvimento estão a levantar sérias dúvidas sobre a forma como a cimeira climática de Copenhaga está a ser conduzida neste momento, quando a conferência entra na sua fase decisiva. Fortes críticas feitas hoje ameaçam atrasar ainda mais ou mesmo bloquear as negociações.
O G77-China, o grupo dos países em desenvolvimento, acusam o mundo industrializado de tentar acabar com o Protocolo de Quioto, subsituindo-o por um acordo mais fraco. No primeiro discurso de abertura do segmento de alto nível da cimeira, Nafie Ali Nafie – chefe da delegação do Sudão, falando em nome do G77-China – criticou também o modo como estão a ser feitas consultas informais num “processo multi-camadas”, complexo e para os quais as delegações com menos recursos não conseguem simplesmente acompanhar.“Sentimos que há falta de transparência na forma como as decisões foram tomadas sobre essas consultas”, disse Nafie Ali Nafie. Depois de uma noite infrutífera de discussões, a presidência da cimeira anunciou que distribuirá um novo texto negocial para tentar desbloquear os pontos pendentes para um novo tratado contra as alterações climáticas. Mas este passo foi duramente criticado pelos países em desenvolvimento. Antes do início dos discursos dos líderes mundiais que já estão em Copenhaga, o plenário da conferência ouviu sucessivas manifestações de preocupação que, na prática, ameaçam novamente bloquear as negociações.Representantes do Brasil, China, Índia, África do Sul, Bolívia e Sudão argumentaram que as negociações devem continuar com os textos que têm vindo a ser discutidos desde o princípio da conferência, e que foram debatidos durante toda a noite. A ideia de uma nova proposta diferente foi rejeitada.Sem sucesso, o primeiro-ministro dinamarquês, Lars Lokke Rasmussen, tentou inicialmente mover a discussão para um outro plenário, dando lugar aos discursos. “O mundo está à nossa espera. Não podemos continuar a discutir procedimentos, procedimentos, procedimentos”, disse Rasmussen, que preside agora à cimeira, em substituição à ministra Connie Hedegaard, que continua a liderar as consultas com os diferentes países para um acordo.Mas os países em desenvolvimento continuaram a intervir, temendo que o novo texto, que deverá ser apresentado ainda hoje, ponha em causa dois anos de negociações desde a conferência climática de Bali, em 2007. A China mencionou o temor de que uma nova proposta tenha uma “agenda secreta”. A representante da Bolívia classificou a situação de “inaceitável” e o Sudão disse que não discutirá um texto “vindo do nada” . O principal receio desses países, manifestado desde o princípio da cimeira de Copenhaga, é o de que o Protocolo de Quioto desapareça. “Opor-nos-emos a qualquer acordo que que torne o Protocolo de Quioto inútil ou redundante”, afirmou Nafie Ali Nafie, em nome dos países em desenvolvimento.

domingo, dezembro 13, 2009

SINOS TOCAM PELO CLIMA

Serão dezenas de milhar, talvez centenas de milhar os sinos que, às três da tarde de amanhã (duas da tarde em Lisboa) se juntarão aos que pedem que haja decisões sérias na Cimeira de Copenhaga: todas as igrejas católicas, ortodoxas, protestantes e anglicanas do mundo estão convidadas a aderir a este repicar de sinos pelo clima. E todos os cristãos podem juntar-se, com apitos, sinos, tambores ou outros instrumentos.
Serão 350 toques. Tantas vezes quantas as partes por milhão de dióxido de carbono na atmosfera que os cientistas consideram o limite seguro para o planeta e para os seres humanos.O toque dos sinos na tarde de domingo não pretende anunciar uma chegada prematura do Natal, mas apelar à oração e à acção para responder às alterações climáticas, escreve Peter Kenny no serviço noticioso do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), uma das entidades promotoras da ideia. Na Alemanha, a Igreja Evangélica da Epifania, de Hamburgo, irá tocar 350 tambores durante o seu concerto de Advento. Em Portugal, a diocese do Algarve anunciou já que os sinos das suas paróquias irão tocar em favor do clima, depois de uma reunião do clero da diocese ter decidido apoiar a iniciativa. Cáritas e Fundação Evangelização e Culturas são duas das entidades que dinamizam a acção no país. A escolha do dia de amanhã assinala o facto de a Cimeira de Copenhaga entrar agora na segunda e decisiva semana de trabalhos, quando se espera a participação da maior parte dos líderes mundiais – incluindo o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. As várias organizações religiosas envolvidas na iniciativa querem que os participantes filmem os seus toques, prometendo que os melhores vídeos entrarão num anúncio que pretende documentar este momento. Uma das entidades promotoras da iniciativa, a CIDSE, Rede Católica de Agências de Desenvolvimento, contabilizava já mais de 2400 paróquias católicas aderentes em 24 países. Mas aqui não entravam paróquias protestantes ou anglicanas, por exemplo, maioritárias em países do Norte da Europa. “Não é possível falhar em Copenhaga, dado que o novo pacto global sobre o clima é o acordo político mais vital que o mundo já viu”, diz a CIDSE, numa tomada de posição sobre a iniciativa. O dia de pressão religiosa em Copenhaga começará às 11h30. Nessa altura, o arcebispo Desmond Tutu, Prémio Nobel da Paz, fará entrega de uma petição internacional dinamizada pelas mesmas organizações que promovem o repicar dos sinos. Yvo de Boer, secretário executivo da Convenção da ONU sobre Alterações Climáticas, estará a receber o documento. Tutu estará acompanhado de cinco mil representantes de quase 200 países. Guillermo Kerber, do programa executivo do CMI, afirma que muitos crentes relacionam o “cuidado pela criação” com uma profunda questão ética e espiritual, além das “implicações políticas relacionadas com o bem comum.”Em Novembro, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse a um conjunto de líderes religiosos da Aliança das Religiões pela Conservação que eles estavam numa posição única para forçar a mudança da vontade política, apelando aos crentes a pedirem mudanças efectivas: “Vocês podem inspirar, provocar, desafiar os vossos líderes políticos, através da vossa sabedoria e através dos crentes.”

sábado, dezembro 12, 2009

RELIGIÕES PEDEM « JUSTIÇA CLIMÁTICA»

07.12.2009 António Marujo no «Público»
Um grupo de bispos e responsáveis católicos de 25 países (incluindo dos mais pobres), representando 180 grupos, irá a Copenhaga com a Cáritas Internacional, para pressionar a cimeira do clima no sentido da "justiça climática" - as políticas a adoptar devem dar prioridade aos pobres e cuidar da herança das gerações futuras.
A Cáritas e o Grupo Católico Internacional para a Cooperação, Desenvolvimento e Solidariedade (CIDSE, da sigla em inglês, a rede de 180 grupos) querem pelo menos mais 131 milhões de euros anuais, dos países desenvolvidos, para que os mais pobres se adaptem aos impactos das mudanças climáticas. E exigem compromissos claros: aquecimento global abaixo dos dois graus, nível estável de concentrações de CO2 na atmosfera de 350 ppm (partes por milhão)."Os líderes mundiais têm que chegar a um acordo vinculador para a redução de emissões", disse a secretário-geral da Cáritas Internacional, Lesley-Anne Knight, citada pela agência Zenit.Num plano mais vasto, líderes de nove religiões diferentes apresentaram ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, um plano de 60 propostas para reduzir as emissões de dióxido de carbono.Ao receber a proposta, no início de Novembro, numa conferência em Londres, Ban Ki-Moon disse que as comunidades religiosas têm um papel decisivo na luta contra as mudanças climáticas. A escutá-lo, líderes cristãos, muçulmanos, judeus, baha"is, budistas, taoístas, hindus, xintoístas e sikhs.O responsável do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o norueguês Olov Kjoerven, lamentou na mesma ocasião os poucos progressos feitos pelos políticos. E disse que essa foi uma das razões da aproximação do PNUD à Aliança das Religiões pela Conservação (ARC), rede dinamizada pelo príncipe Filipe de Inglaterra.Uma das iniciativas da ARC (www.arcworld.org) foi a sensibilização dos três milhões de pessoas que fizeram a peregrinação a Meca nas últimas duas semanas.Foi também consciente do papel das religiões - e do cristianismo, em concreto - que o inglês Peter Harris, 57 anos, fundou em 1983, em Portugal, A Rocha, uma organização dedicada a reflectir e promover a dimensão do cuidado presente na Bíblia (ver texto nesta página). "O consumo como "religião" é que está a dar cabo do planeta", diz ao PÚBLICO.A "teologia da criação"A relação da pobreza com as alterações climáticas é também um dos temas d"A Rocha. No Quénia, esta associação de cristãos pela biodiversidade tem um projecto de reflorestação e criação de meios de sustento para as comunidades locais. A floresta de arabuko-sokoke, que se estendia por 420 quilómetros quadrados, da Somália ao Norte de Moçambique, era a maior selva seca costeira da África Ocidental. Hoje, está reduzida a poucos quilómetros perto de Mombaça.A Rocha apoiou a formação de guias turísticos e as verbas recolhidas garantem bolsas de estudo para as crianças. Em troca, as populações apenas se comprometem a não destruir árvores e a participar na reflorestação.A "teologia da criação" aparece mais fortemente apenas no final da década de 90, no I Encontro Ecuménico Europeu de Basileia (Suíça), realizado em 1989, poucos meses antes da queda do Muro de Berlim. O tema - Justiça, paz, integridade da criação - indicava já a relação umbilical entre as questões do ambiente, da justiça social e da construção da paz.Esta consciência alargou-se, entre as Igrejas. O patriarca ortodoxo Bartolomeu, de Constantinopla - "o patriarca verde" -, acabou de promover, no final de Outubro, o oitavo simpósio Religião, Ciência e Ambiente, dedicado a lugares ameaçados - desta vez, foi no Mississípi (www.rsesymposia.org). E existe já uma importante Rede Europeia de Cristãos pelo Ambiente (www.ecen.org/).Nas vésperas da cimeira de Copenhaga, multiplicaram-se iniciativas: um dia de "oração pela mudança climática" em Melbourne (Austrália), onde está reunido desde quinta-feira o Parlamento das Religiões do Mundo e onde líderes de 29 credos diferentes irão dirigir um apelo à cimeira.Um outro apelo conjunto dos bispos católicos europeus e da Conferência das Igrejas Europeias (protestantes e ortodoxas) aos cristãos do continente sintetiza: "Só uma ecologia humana autêntica, considerando não apenas os nossos direitos, mas também as responsabilidades de uns para com os outros e para com as gerações futuras nos dará os meios de cuidar melhor do ambiente."