É costume fazer-se nesta altura do ano o balanço dos últimos 365 dias, agora que o Inverno começa e se celebra o Natal da fraternidade e da reflexão.
Não sei se um tal hábito aproveita muito à preparação de um novo ano, como as resoluções para futuro, em forma de lista de intenções, acabam muitas vezes esquecidas poucos dias depois; mas talvez valha a pena pensar o que foi este 2010 terrível em tantos aspectos. Foi certamente o ano de todas as crises, no que aliás continuou o ano anterior, cheio de sustos bolsistas e privações reais para a maioria.
Para o Ambiente, 2010 foi o ano internacional dos impasses e das grandes promessas não cumpridas. Alguém duvida? Bastará ver que a comunidade das nações se revelou incapaz de realizar alguma coisa de sólido contra dois dos principais problemas da «crise ecológica», a saber as alterações climáticas e a perda de espécies. Quanto ao clima, e depois da desilusão de Copenhaga há um ano, fez-se Cancun— uma estância turística mais amena— para confirmar o fracasso; não se foi além de umas tépidas considerações gerais e da criação de um Fundo Verde para apoio aos países mais pobres, além de uma quase patética resolução empenhando a vontade dos estados no objectivo de não «deixar» o clima global aquecer mais de 2 graus!
A biodiversidade— que era o mote de 2010 como meta temporal para travar o desaparecimento das formas de vida, animais e vegetais--- também teve o selo da inépcia e do derrotismo. Em outra conferência mundial, concordou-se em discordar sobre quase tudo, excepto quanto à gravidade desta «crise das extinções» – e na fixação de outra meta para estancar a sangria: 2020.
Este quadro pouco animador, ou mesmo deprimente, fica a dever-se, em parte, à situação de grave crise económica internacional, que desvia as atenções dos dirigentes para o imediatismo das aflições financeiras. Também a «ecologia» da política mundial se revela hoje favorável às abordagens economicistas e monetaristas, que negam a solidariedade internacional entre os povos— mesmo na Europa cuja base e sentido era precisamente essa solidariedade, agora esquecida— e recusam ver nos sinais de desgaste da Natureza uma ameaça bem concreta, capaz de pôr em causa o futuro das próximas gerações.
Por todo o lado, o liberalismo «salta» de novo como solução— alguns verão facilmente nessa ideologia, grande parte do problema— e assim como prega e impõe a desvalorização do trabalho como túnel de saída da crise, igualmente entende que as preocupações ecológicas são um «luxo» ao qual não se pode ceder: e assim temos mais pobreza e ambiente mais degradado pela certa, receita explosiva e lamentável, verdadeiro retrocesso. De onde se observa a Europa (e todo o Ocidente) a resvalar gradualmente para o modelo económico/social/ambiental que se atribui à China do capitalismo selvagem, em vez de acontecer o contrário, como seria desejável para «civilizar» a globalização.
Mas estes desabafos não se destinam a ajudar o peditório do desalento— o futuro, bem o sabemos, sempre escapa às nossas pretensiosas profecias. Depende de cada um de nós— mesmo que pouco, mesmo que só uma gota de vontade no oceano— decidir o que quer e o que quer fazer. Essa liberdade ainda não nos foi retirada e o mundo «é composto de mudanças» --nem todas más, necessariamente!
Reagir a este estado de coisas e fazer emergir de novo uma agenda ambiental realista é tarefa para 2011— na cidade, na Área Metropolitana, no país e no mundo.
Que um certo «optimismo da vontade» possa vencer o negrume do «pessimismo da razão» que nos cerca, pesada e tristemente dominador!
Bernardino Guimarães
( Crónica publicada no JN em 21/12/2010)
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sexta-feira, dezembro 31, 2010
terça-feira, março 30, 2010
A RIQUEZA DAS NAÇÕES
Reconhecer valor económico aos serviços que a Natureza nos presta. Fazer entrar nas contas da cada nação a valorização das riquezas naturais e dos ecossistemas. Parece coisa simples, isto que disse? Mas é de facto uma verdadeira revolução!
Hoje, a economia que temos dá pouco ou nenhum valor àquilo que, no entanto é básico. Quanto valem uma floresta antiga, uma paisagem rural equilibrada, um sistema ecológico que garante a existência de água potável ou de solos aráveis e a protecção contra cheias, uma reserva natural onde se albergam muitas espécies de plantas e animais? Sim, que valor se lhes dá?
A economia esconde a maior parte da verdadeira «riqueza das nações»!
Perante a Economia dominante, cujas noções falíveis governam a nossa vida, tudo isso que é vital vale muito pouco. Ou nada. E muito menos se concebem instrumentos para a sua quantificação.
Talvez isso explique o grau de afastamento da realidade a que tende o capitalismo financeiro das últimas décadas, desligado da economia real e entregue avidamente às especulações mais insensatas e perigosas— conforme se tem visto e sentido.
Por isso vivemos muito acima das nossas possibilidades, não apenas porque no quadro das noções económicas vigentes consumimos muito e poupamos pouco, mas também porque a nossa exigência crescente de recursos naturais finitos faz com que já estejamos a retirar mais da Terra do que aquilo que podem repor os ecossistemas e sua auto-regeneração.
Concretizemos: para efeitos de medição do célebre PIB (Produto Interno Bruto) uma floresta vale dinheiro…se for cortada e transformada em produtos transaccionáveis. As funções ecológicas dos bosques não contam nem um centavo para esse «campeonato»!
Um rio também não tem melhor sorte neste sistema: atribui-se-lhe valor quando for aprisionado, torturado por uma barragem que gere electricidade. Ou seja, contabiliza-se a energia produzida mas aí, com forte probabilidade, já o rio deixou de ser rio.
E nem pensar em dar valor contabilizável às árvores que fixam e enriquecem o solo e contribuem para purificar e preservar a água e a atmosfera.
A Natureza mais ou menos intocada atrai cada vez maiores «fluxos turísticos verdes» --milhões de pessoas que querem ver e viver a paisagem bela e a vida selvagem íntegra e rara— mas nem por isso os valores naturais são contados justamente na riqueza nacional, que toma nota, apenas do que facturam hotéis e pousadas. O mesmo para a biodiversidade, para as plantas que acautelam a segurança genética dos cultivos e a produção de medicamentos, ou para os animais silvestres que tornam equilibrados os seus «habitats» ou fornecem serviços gratuitos como o controle de pragas e a polinização.
Muitos economistas e ambientalistas, pelo mundo fora, estudam agora as formas de atribuir o justo valor económico aos ecossistemas. Se a Amazónia for considerada um dos «pulmões do mundo» isso implica realmente um serviço a toda a Humanidade que é preciso valorizar. E por cá, como no mundo, as regiões mais pobres são aquelas onde se produz aquilo sem o qual não poderíamos viver: água pura, solo produtivo, floresta, alimentos de qualidade, biodiversidade e cenários naturais atraentes. Será isso lógico e justo? As regiões que contam maior fatia no PIB «produzem» muitas coisas que não deveriam ser valorizadas— poluição, stress, voracidade no consumo de energia e outros recursos, resíduos não recicláveis.
O PIB, (e com ele os governos) interessa-se pouco por essa injustiça, que aliás cauciona, e assim nunca os habitantes das zonas rurais do interior serão compensados por tudo aquilo que preservam e oferecem ao nosso mundo super-urbanizado.
Claro que alguns perguntam, legitimamente, se será boa ideia contar em dinheiro os benefícios da mãe Natureza, prodigalizados com graça e de graça?
Talvez não seja muito poético a uma primeira vista, e soe mal até, neste tempo em que tudo se compra e se vende. Pode ser que uma tal mudança na contabilidade da riqueza acarrete inconvenientes e distorções, que deverão nesse caso ser corrigidas e repensadas.
Mas esta transformação a haver, unindo Ecologia e Economia, afigura-se em geral como um dos caminhos para salvar a Natureza— ou melhor, para nos salvar, abrindo talvez uma era em que os serviços da Terra serão geridos com mais inteligência, equidade e em modo de cooperação.
Bernardino Guimarães
(Crónica para a Antena 1, em 18/3/010)
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