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sábado, fevereiro 13, 2010

PEIXES MIGRADORES AMEAÇADOS, DIZ A QUERCUS

A Quercus solicitou recentemente ao Ministro da Administração Interna que transmitisse instruções claras aos Comandos da Forças de Segurança, em particular ao da Guarda Nacional Republicana, no sentido de se intensificar a fiscalização da actividade piscatória nos principais rios do país, em particular na época de migração das espécies piscícolas que se iniciou em Janeiro e termina em Maio/Junho. Na opinião da Quercus, este esforço adicional solicitado agora ao Ministério da Administração Interna, para além de ser um contributo eficaz para reduzir a perda de biodiversidade neste Ano Internacional da Biodiversidade, criará as bases para implementar um modelo de fiscalização contínuo e sistemático que, no médio prazo, permitiria obter bons resultados na recuperação das populações de espécies piscícolas migradoras de elevado interesse económico, como a lampreia-marinha, a enguia, o salmão, a truta-marisca, o sável e a savelha.

Fiscalização eficaz é fundamental

Para a Quercus, a pressão da pesca ilegal e o excesso de captura de peixes migradores, sem que a componente de fiscalização por parte das autoridades policiais, que actualmente é claramente insuficiente, esteja assegurada, são factores decisivos para o desaparecimento a prazo de algumas espécies. A intensificação da fiscalização, uma medida que apresenta custos reduzidos, permitiria diminuir o esforço de captura sobre os indivíduos reprodutores (permitindo que atinjam as áreas de postura) e aumentar o repovoamento de populações por novos indivíduos jovens. Por outro lado, se esta acção for complementada com o desenvolvimento de acções de sensibilização dos pescadores, tornando-os parte comprometida numa gestão racional dos recursos, terá um forte impacte na redução da actividade ilegal. É também neste contexto que a Quercus deu conhecimento da missiva à Ministra do Ambiente e do Ordenamento do Território, pois considera que é desejável que as forças policiais interajam com os corpos de vigilantes sob sua tutela, nomeadamente os Vigilantes da Natureza, para ampliar significativamente o esforço de fiscalização e para garantir uma maior eficácia.

Barragens e açudes ameaçam espécies migradoras

Para alem da sobrepesca e da utilização de meios de captura ilegais, a construção de açudes e barragens, a extracção de inertes, a perda da qualidade da água, a regularização dos sistemas hídricos, a destruição da vegetação ripícola, são os factores que mais contribuem para o declínio das espécies. No que se refere aos represamentos, dados recentes apontam para que em Portugal existam actualmente 100 grandes barragens e 800 de média e pequena dimensão, encontrando-se previstas ou em construção mais 11 para aproveitamento hidroeléctrico. Estes represamentos, que ocupam já 90% dos troços dos principais rios, alteram o regime de caudais e a conectividade hídrica, causando a diminuição e mesmo a extinção das populações de espécies piscícolas migradoras de interesse económico assinalável.


Peixes migradores em situação preocupante

O esturjão, por exemplo, outrora presente nos rios Douro e Guadiana, extinguiu-se na década de 70 e de 80, respectivamente, sendo que degradação da qualidade do habitat inviabiliza qualquer acção de recuperação da espécie no nosso país. A lampreia-marinha encontra-se provavelmente em declínio nos seus efectivos e na área de habitat utilizável, sendo classificada como “Vulnerável” no Livro Vermelho dos Vertebrados. O salmão encontra-se “Criticamente em Perigo”, estando a população portuguesa confinada ao rio Minho, não apresentando mais do que duas centenas de reprodutores. A truta-marisca, que apresenta apenas forma migradora nos rios Minho e Lima, possui o estatuto de “Criticamente em Perigo” e, tal como o salmão, se não forem tomadas medidas de conservação efectivas, extinguir-se-á brevemente.
O sável, com estatuto de conservação de “Em Perigo”, encontra-se em forte regressão, possuindo já um baixo número de reprodutores e pouco habitat adequado à espécie. A savelha, embora com uma melhor condição que o sável, está em regressão em todas as bacias hidrográficas de ocorrência, possuindo o estatuto de “Vulnerável”.
A enguia apresenta efectivos populacionais abaixo dos limites biológicos de segurança e, no caso português, acresce ainda o facto de ser prática corrente a intensa captura de juvenis (meixão), situação que coloca a espécie na categoria de “Em Perigo” de extinção.
Apesar de ter sido enviado o Plano de Gestão da Enguia para a Comissão Europeia, este continua sem ser aplicado, o que revela a inércia da actuação das autoridades.
A Quercus tem ainda conhecimento da existência de uma investigação criminal sobre captura do meixão a nível nacional, sem que conheçam resultados visíveis na diminuição desta pesca ilegal que, ao utilizar redes de malha muito fina provoca uma elevada mortalidade em diversas espécies de peixes.

Lisboa, 10 de Fevereiro de 2010

A Direcção Nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza

Para mais informações contactar:
Carla Graça (938 600 252) ou Paulo Lucas (933 060 123)

sexta-feira, junho 19, 2009

RIOS E PEIXES DE ÁGUA DOCE

O estado dos nossos rios é mau. Ao contrário do que seria razoável supor, não tem sequer havido melhorias importantes nos últimos anos, pelo menos compatíveis com os investimentos realizados no tratamento de esgotos e outros trabalhos.
Os problemas que afectam os rios portugueses são vários. Enumeremos alguns:
--poluição— origem esgotos domésticos e industriais, escorrências da agricultura (fosfatos etc) e de fenómenos como a erosão de solos e fogos florestais;
--Barragens e represamentos, extracção de areias
--Problemas de gestão conjunta dos rios internacionais, com Espanha, tornando difícil assegurar os «caudais ecológicos» mínimos apesar dos acordos havidos
--Má gestão dos recursos hídricos superficiais, nomeadamente na agricultura e turismo
--Perda de biodiversidade
--Indefinição administrativa— demasiados organismos públicos têm competências na gestão dos rios, confusão e sobreposição de funções
--Efeitos das alterações climáticas—- secas mais prolongadas, chuva mais escassa ou concentrada em determinada época do ano. Estes problemas relacionam-se entre si. A nova legislação comunitária impôs regras definidas para a gestão das águas. No que aos rios diz respeito, os princípios plasmados na directiva da Água foram – tardiamente— transpostas para a nova Lei da Água, ainda recente mas introduzindo regras de gestão unificadas, dividindo o país em 5 Regiões hidrográficas supervisionadas no plano nacional pelo INAG.
A gestão integrada por bacia hidrográfica já constava da legislação nacional, mas nunca foi cabalmente implementada. Resta saber se agora os princípios de gestão integrada e unificada o serão. Por exemplo, as Administrações Portuárias têm poderes consideráveis de tutela sobre os estuários dos rios e zonas adjacentes, que conflituam com as autarquias, o Ministério do Ambiente e outras entidades. Sem que haja clarificação de competências e sem que se saiba quem gere, envolvendo todos os interessados nos rios, dificilmente se resolverá o problema.
Documentos importantes: Plano Nacional da Água, Planos de Bacia Hidrológica, Lei da água, Directiva-Quadro da Água.
O estado dos rios em termos de carga poluente continua a ser preocupante.
De acordo com o Sistema Nacional de Informação dos Recursos Hídricos do INAG, mais de 44% dos recursos hídricos superficiais monitorizados tinha (2005) qualidade «má» ou «muito má» e cerca da 36% era apenas razoável. Para o INAG, nesse relatório, «esta situação põe em causa a utilização dos recursos hídricos, principalmente em caso de seca, e decorre das graves deficiências de tratamento das águas residuais.»
Deficiências que são reais— bastando consultar os relatórios da Inspecção-Geral do Ambiente sobre o funcionamento das ETARs nacionais— e mesmo estranha se atentarmos no facto de que foram gastas imensas quantidades de dinheiro, proveniente em boa parte dos fundos europeus— na construção das mesmas ETARs e em redes de saneamento.
Indústrias como os curtumes e a suinicultura, entre outras, contribuem fortemente para a contaminação dos rios e resistem a quaisquer medidas para melhorar a situação!
Um estudo da Comissão Europeia em 2004 dava conta de que Portugal não tratava adequadamente cerca de 60% das suas águas residuais! Ainda mais bizarro é que, em vez de se constatar uma evolução positiva, mesmo que lenta, pelo contrário se observam retrocessos: Em 2005 os rios com água considerada boa representavam menos 19% do que no ano anterior, e os de água «muito má» que eram 10, 8 em 2003 passaram a ser 23, 5 em 2005.
Os rios com água julgada «excelente» eram 1% do total em 2004… e um ano depois sumiram-se nos 0% confirmados!
Isto é-- não há rios com qualidade excelente no nosso país!

A água dos rios diz respeito a muitos sectores de actividade— a energia, a agricultura, o turismo, o abastecimento domiciliário, a indústria, os desportos náuticos, a conservação da Natureza. Atender a todas as solicitações não será fácil. As cabeceiras e nascentes dos rios são zonas extremamente sensíveis. Fogos florestais ou contaminações diversas podem pôr em causa o abastecimento de áreas urbanas importantes. A engenharia pesada que constrói barragens e canais de rega, que efectua regularizações de leitos de rios, ignora muitas vezes os mais elementares princípios ecológicos e prejudica seriamente as outras valências que um rio serve.
Outro problema é o preço da água. A nova legislação impõe o princípio do utilizador/ pagador, que deve ser implementado tendo em vista a boa utilização do recurso vital. Mas é urgente rever o «preço político» que sustenta com dinheiro dos contribuintes e elevado gasto de capital natural actividades que de outra forma seriam insustentáveis e onde reina o desperdício. O turismo e a agricultura devem gradualmente conformar-se a modelos de adaptação às disponibilidades hídricas disponíveis e previsíveis para o futuro, e não «violentar» com o apoio do Estado a lógica natural, com grandes barragens e transvazes a destruir a integridade dos rios apenas para proteger actividades insustentáveis. Turismo de acordo com a paisagem e o clima, reciclagem de águas residuais, aproveitamento das águas da chuva, sistemas de rega eficientes, culturas agrícolas adequadas ao clima e recursos existentes, combate às perdas no abastecimento, são medidas que ajudarão os nossos rios a tornarem-se aquilo que nunca deveriam ter deixado de ser: rios vivos. Os efeitos previsíveis nos diversos cenários de alterações climáticas devem ser tidos em conta no planeamento da gestão dos rios portugueses.

Os acordos com Espanha garantem os caudais ecológicos em tempo de seca e de seca extrema? Este problema ainda não reuniu consenso. Mas importa garantir:
--A gestão integrada e internacional dos rios (4) internacionais que temos;
--Recusar as obras faraónicas, como o desvio das águas do Norte para Sul como pretendia (pretende?) fazer o Estado Espanhol, em favor de uma abordagem sustentável da exploração do recurso água.
--Ter em atenção os factores de ameaça à integridade dos rios e evitá-las conjuntamente;
--Garantir uma gestão adequada, racional e solidária em tempos de seca prolongada, matéria extremamente sensível para Portugal;
OS PEIXES
Como não podia deixar de ser, a biodiversidade dos rios foi profundamente afectada pelos erros e omissões que permitimos, empobrecendo os rios e pondo em causa um recurso importante.
A poluição, «regularizações» de rios— lembremos o verdadeiro crime que foram as obras ao longo do Mondego—a introdução de espécies exóticas—problema extremamente grave entre nós—a poluição, extracção de inertes, etc, além da pesca desregulada, levaram a uma situação grave em termos de biodiversidade dos rios.
O recente «Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal» dá conta da situação «muito preocupante» dos peixes dos rios portugueses.
Das 35 espécies consideradas, 63% classificam-se numa das 3 categorias de ameaça. 1 espécie foi considerada extinta. Apenas 23% ficam na categoria de «pouco preocupante».
A situação pior afecta as espécies migradoras diádromas, e por outro lado algumas espécies que são endemismos ibéricos, por vezes confinadas a uma única bacia hidrográfica.

Extinta:

Esturjão (Acipenser sturio)

Criticamente Em Perigo:

Lampreia-de-rio (Lampetra fluviatilis)
Lampreia-de-riacho ( Lampetra planeri)
Saramugo (Anaecypris hispanica)
Boga do Sudoeste (Chondrostoma almacai)
Boga-portuguesa( Chondrostoma lusitanicum)
Escalo do Arade( Squalis aradensis)
Escalo do Mira( Squalis torgalensis)
Salmão-do-Atlântico ( Salmo salar)
Truta-marisca (Salmo trutta)

EM PERIGO:
Caboz-de-água-doce ( Salaria Fluviatilis)
Esgana-gata ( Gasterosteus gymnurus)
Verdemã-do-norte ( Cobitis calderoni)
Escalo -do -sul (Squalis pyrenaicus)
Boga-de-boca-arqueada ( Chandrostoma lemmingii)
Panjorca( Chondrostoma arcasii)
Barbo-do-sul (Barbus sclateri)
Cumba (Barbus comiza)
Sável (Alosa alosa)
Enguia-europeia( Anguilla anguilla)

VULNERÁVEL:
Savelha ( Alosa fallax)
Boga-do-Guadiana( Chondrostoma willkommii)
Bordalo ( Squalis alburnoides)
Lampreia-marinha (Petromyzom marinus)


Ainda outras espécies distribuem-se pelas categorias de «quase ameaçadas» e «informação insuficiente».
Bernardino Guimarães