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quarta-feira, março 17, 2010

BORBOLETAS EM RISCO NA EUROPA


Filomena Naves em Diário de Notícias /Ciência hoje.

Grande-branca-da-madeira encontra-se entre as várias espécies mais ameaçadas

Um terço das 482 espécies de borboletas da Europa sofreu um declínio visível na última década e 9% (43) estão agora gravemente ameaçadas de extinção, enquanto outros 10% (48) se encontram na fronteira desse perigo. Uma das que está à beira da extinção é uma borboleta branca da Madeira. Estes são dados da "Lista Vermelha das Borboletas Europeias", elaborada pela IUCN - International Union for Conservation of Nature, em colaboração com a União Europeia (UE), que foi divulgada ontem.
A grande-branca-da-madeira (Pieris wollastoni), borboleta única que só existe naquela ilha portuguesa, é uma das 43 espécies destes insectos que se encontram em situação crítica na Europa. Não é avistada há mais de 20 anos e há até quem já a tenha declarado extinta (ver caixa). Para inverter o problema que está a afectar estas espécies na Europa, a IUCN propõe no relatório que se invista, entre outra medidas, na protecção dos habitats, com a melhoria das políticas agrícolas, e na monitorização mais apertada das espécies ameaçadas.
A perda acelerada de habitats, com alterações drásticas nas práticas agrícolas, quer pela sua intensificação em algumas regiões quer pelo abandono noutras, é justamente um dos problemas- -chave para explicar o que está à acontecer às populações de muitas espécies de borboletas europeias. Mas as mudanças climáticas, sobretudo pelas secas mais intensas que acarretam, e a crescente pressão turística também estão entre os culpados do panorama pouco animador traçado no relatório da IUCN.
"A maioria das borboletas em risco são do Sul da Europa", adiantou Annabelle Cuttelod, a coordenadora da "Lista Vermelha Europeia" na IUCN, sublinhando que "a sua principal ameaça é a perda de habitat, a maior parte das vezes provocada por alterações nas práticas agrícolas, tanto pela intensificação como pelo abandono, ou devido às alterações climáticas, fogos florestais e a expansão do turismo".
De acordo com o levantamento feito pelos especialistas, é a prática intensiva da agricultura, que surge no topo das ameaças às espécies de borboletas europeias (afecta mais de 30 espécies), seguida de perto pelo abandono da terra (mais de 20 espécies afectadas) e pela mudança climática, sobretudo por causa das secas, com duas dezenas de espécies a sofrer impactos negativos em consequência deste problema.
Além do seu valor próprio, enquanto riqueza biológica, "as borboletas são importantes indicadores de biodiversidade e desempenham um papel importante nos ecossistemas, nomeadamente através das suas actividades polinizadoras", lê-se no relatório. Ou seja, o declínio acentuado das populações de um terço das borboletas europeias verificado durante o século XX, e que se prolongou até hoje, não é um bom sinal do ponto de vista da saúde dos ecossistemas onde esse declínio se manifesta.
Considerando apenas o território europeu da UE a 27 - o relatório faz essa especificação -, os especialistas contabilizam um total de 451 espécies de borboletas. Destas, 37 (8,5%) estão ameaçadas. Em Portugal existem 147 espécies de borboletas e, aparte a grande-branca-da-madeira, não existe mais nenhuma em risco crítico de extinção.
Multiplicar acções de protecção dos habitats é a palavra de ordem para o futuro imediato.

domingo, março 14, 2010

ABUTRE-PRETO RENASCE DAS CINZAS

Diário de Notícias hoje, Roberto Dores
Fotografia © Sebastian Wallroth - Wikimedia Commons
Até aos anos 50 fez parte da lista dos predadores cujo abate era pago à peça pelo Estado português. E foi um alvo apetecível na mira dos caçadores, que lhe custou a quase extinção. Sobreviveu, mas de lá para cá nunca mais o abutre-preto se reproduziu em Portugal. Hoje há esperança de um regresso para breve.

Chegou a ser comum nos céus portugueses até à década de 50, distribuindo ninhos pelas zonas interiores do País, entre as serras da Estrela e do Caldeirão. Porém, o abate de florestas para dar lugar às campanhas de trigo retirou espaço ao abutre-preto, que teve de enfrentar a perseguição das caçadeiras, como se de uma espécie daninha se tratasse. O declínio da população acentuou-se nos anos 60, extinguindo-se mesmo como ave reprodutora no território nacional.
Os abutres que por aqui apareciam eram provenientes de Espanha, onde a comunidade registou nos últimos anos um aumento muito significativo, passando de 300 para mil casais, tendo contribuído para o renovar da esperança também do lado de cá da fronteira, onde se estima que a população flutuante possa ascender aos 120 indivíduos.
Carlos Pacheco, consultor na área do Ambiente, que trabalha em plataformas para a criação de ninhos de aves de grande porte na empresa Mãe de Água, revela que se têm feito várias tentativas para a fixação definitiva do abutre-preto, mas, até à data, continua a não haver reprodução. "Vamos acreditar que vai acontecer como à águia-imperial que voltou a reproduzir-se em Portugal em 2002 após ter desaparecido durante 30 anos como reprodutora", sublinha.
Em relação ao abutre, houve tentativas de reprodução nas zonas de Barrancos, Malcata e Tejo Internacional, mas todas sem sucesso, apesar de, em 2004, Carlos Pacheco ter chegado a encontrar um ninho natural construído em território português do Tejo Internacional, mas que viria a cair no ano seguinte sem qualquer ocupação. "Nessa altura ainda fizemos umas plataformas artificiais, mas nem assim", lamenta, admitindo que o facto de a espécie ser bastante gregária - fixa-se preferencialmente em zonas onde já existem outros abutres, mas num raio de 20 ou 30 quilómetros - também estará a impedir o sucesso.
Ainda assim, Carlos Pacheco congratula-se pelas observações serem hoje bem mais frequentes que há uns anos. Aliás, na serra da Malcata poderão ser vistos de 40 a 50 exemplares durante o dia.
Neste momento, a maior preocupação dos ambientalistas em torno do abutre-preto é a mortalidade causada por origem humana, sendo encontrados várias exemplares mortos devido a envenenamento. "O abutre vai a todo o tipo de presas, pequenas e grandes. Se um coelho, um cão ou uma raposa morreram envenenados, ele também acaba por morrer", alerta Carlos Pacheco, lamentando a proibição de deposição de cadáveres no campo, que torna difícil ao abutre encontrar alimento.
"Estamos a falar de zonas muito frequentadas pela espécie e é possível que em breve consigamos atrair alguns casais", alerta, admitindo que a solução poderá passar pela criação de "campos de alimentação" de aves necrófagas, devidamente vedados, como forma de contornar a questão da recolha obrigatória de cadáveres. "Terá de ser uma solução acompanhada de controlo veterinário, sobretudo para animais domésticos, mas parece-nos a mais viável."

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

ANUNCIADA A LISTA DOS 25 PRIMATAS MAIS AMEAÇADOS DE EXTINÇÃO

19.02.2010, no «Público»

Existem mais de 630 espécies de primatas e, destas, mais de 300 estão ameaçadas de extinção. Mas, entre estas, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) escolheu as 25 mesmo à beira do desaparecimento: cinco vivem em Madagáscar, seis em África, 11 na Ásia e três na América Central e do Sul.
Na lista encontra-se o langur-de-cabeça-dourada, que apenas vive na ilha de Cat Ba (Vietname) e que se resume a uns 60 a 70 indivíduos. Também o lémure-desportivo-do-norte, de Madagáscar, se limita hoje a menos de 100 exemplares. A este mesmo número se resume ainda o sifaca-sedoso, igualmente de Madagáscar. Com poucos mais elementos (à volta de 110) conta o gibão-de-crista-negra, no Vietname. Também um dos nossos primos mais próximos - o orangotango de Samatra, que deverá ter cerca de 7000 indivíduos - faz parte deste relatório, intitulado Primatas em Perigo: Os 25 Primatas mais Ameaçados do Mundo, 2008-2010. Em África, o galago-anão-do-rondo, da Tanzânia, com umas orelhas e olhos imensas, é outra das espécies em sério risco. O macaco-diana-de-roloway (Costa do Marfim e Gana), o gorila-do-rio-cruz (Camarões e Nigéria) ou o cólobo-vermelho-do-rio-tana (Quénia) foram outros escolhidos. O tamarim-cabeça-de-algodão, existente só na Colômbia, também não está em boas condições. Os seus tufos de pêlo branco dão-lhe uma aparência que o torna muito procurado como animal de estimação, conduzindo ao seu declínio rápido. A destruição das florestas e a caça e comércio ilegais estão entre as principais ameaças aos primatas. "O objectivo do top 25 é salientar os que estão mais em risco, para atrair a atenção do público, estimular os governos a fazer mais e encontrar recursos para aplicar medidas de conservação", disse Russell Mittermeier, da IUCN, citado pelo jornal britânico The Independent.

terça-feira, janeiro 26, 2010

PAÍSES AFRICANOS PEDEM À UNIÃO EUROPEIA PARA SALVAR OS ELEFANTES

26.01.2010 AFP ( no Público)
Os representantes de 17 países africanos pediram ontem, em Bruxelas, à União Europeia (UE) para se opor a novas vendas de marfim, a fim de salvar as populações de elefantes, dizimadas pela caça ilegal.
“Pedimos à União Europeia para declarar abertamente o seu apoio à moratória de nove anos, adoptada em 2007 no seio da Convenção sobre comércio de espécies ameaçadas de extinção (CITES)”, anunciou em conferência de imprensa no Parlamento Europeu o ministro queniano da Floresta e da Fauna, Noah Wekesa, cujo país preside com o Mali a Coligação para o Elefante de África.A Tanzânia e a Zâmbia pediram para serem autorizadas as vendas de 90 e 22 toneladas de marfim, respectivamente, durante a próxima conferência da CITES, prevista para 13 a 25 de Março, em Doha.“A União Europeia tem uma grande importância no seio da CITES. Se ela se abstiver durante esta votação, vai contribuir para acentuar uma situação já de si crítica”, advertiu Wekesa.“Os últimos elefantes da Serra Leoa têm vindo a ser abatidos por caçadores furtivos ao longo do mês passado”, salientou.De momento, a União Europeia ainda não anunciou qual é a sua posição. “O Reino Unido, a França, Espanha e Holanda não sabem ainda o que farão, mas estão inclinados a apoiar o pedido da Tanzânia”, salientou o eurodeputado liberal holandês Gerben-Jan Gerbrandy.“Se os 27 Estados membros da União Europeia estiverem em desacordo, vão abster-se, o que equivale a luz verde para os caçadores furtivos”, alertou Wekesa.Ontem, um negociador europeu garantiu que “a União Europeia está a trabalhar para encontrar um consenso na CITES a fim de garantir a defesa dos elefantes africanos”.A delegação dos países africanos estará quatro dias em Bruxelas e prevê multiplicar as reuniões com os representantes dos 27 para “convencer a UE a adoptar o espírito da moratória encontrada no seio da CITES”.A moratória prevê luz verde para o Zimbabwe, África do Sul, Namíbia e Botswana escoarem, excepcionalmente, 108 toneladas de marfim para os mercados chinês e japonês. Os defensores dos elefantes consideram que esta venda legal aumenta a procura de marfim e pode alimentar o mercado negro.Actualmente vivem em África entre 400 mil e 600 mil elefantes. Mais de metade vive na África Austral. Milhares são abatidos por caçadores furtivos nos países da África ocidental, central e oriental.“No Quénia perdemos 232 elefantes em 2009, mortos por caçadores ilegais ou pela seca”, disse Wekesa. Em 2008 esse número foi mais baixo, 145 e em 2007 apenas 47.A coligação para o Elefante de África conta com 22 membros: Benim, Burkina Faso, República Centro-Africana, Chade, Guiné Equatorial, Eritreia, Etiópia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Quénia, Libéria, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Ruanda, Senegal, Serra Leoa, Togo, República do Congo e o Sul do Sudão.

terça-feira, dezembro 15, 2009

DEZ ESPÉCIES TORNAM-SE SÍMBOLO DA AMEAÇA CLIMÁTICA

Helena Geraldes, 14 de Dezembro de 2009, no «Público»
A raposa do Árctico, o coala e o peixe-palhaço estão entre as dez espécies escolhidas para representar os impactos das alterações climáticas na biodiversidade, revelou a UICN (União Mundial para a Conservação).
A lista das espécies que mais têm a perder com o aquecimento global, apresentada esta manhã durante a conferência de Copenhaga, inclui nomes bem conhecidos de todos, como o pinguim-imperador, o coala, a baleia-branca e o peixe-palhaço. O grupo fica completo com a raposa do Árctico, o salmão, a foca-anelada, a tartaruga de couro, a árvore africana Aloe dichotoma e a espécie de coral Acropora cervicornis.“Algumas das nossas espécies favoritas estão ameaçadas por causa das emissões de dióxido de carbono”, comentou Wendy Foden, co-autora do relatório “Species and Climate Change”.Entre as espécies com um futuro mais negro estão aquelas que vivem nas zonas polares. A foca-anelada vê-se obrigada a deslocar-se cada vez mais para Norte, à medida que o gelo no mar, do qual depende para cuidar das suas crias, vai recuando. O pinguim-imperador, adaptado às condições rigorosas da Antárctica, vive o mesmo problema. A tundra no Árctico, onde vive uma espécie de raposa de pelagem branca, está a regredir à medida que temperaturas mais elevadas transformam este habitat em floresta.
Mas as ameaças também se sentem no mar. A baleia-branca enfrenta maior pressão das actividades humanas porque o desaparecimento do gelo no mar abre zonas outrora inacessíveis. Os impactos climáticos não se limitam aos Pólos. Nos trópicos, os corais Acropora cervicornis estão ameaçados pela subida da temperatura das águas. Muitos não resistem ao fenómeno conhecido como branqueamento, quando oceanos mais ácidos, em resultado da absorção de cada vez mais dióxido de carbono, enfraquecem as estruturas dos recifes de coral.
Também o peixe-palhaço, mais conhecido pelo filme “À procura de Nemo”, é uma das vítimas de um clima em mudança. As águas mais ácidas diminuem as suas capacidades para encontrar as anémonas das quais dependem para se refugiarem de predadores.O salmão vive com níveis de oxigénio na água mais baixos e o coala australiano está ameaçado pela má nutrição, devido ao declínio da qualidade nutricional dos eucaliptos, dos quais se alimenta.
As tartarugas de couro estão a perder os habitats onde põem os ovos e a árvore Aloe dichotoma, do deserto da Namíbia ao Sul do continente africano, sofre com períodos de seca acentuada.“Várias das espécies deste relatório já constam da Lista Vermelha da UICN devido a outras ameaças, como a destruição dos habitats ou caça ilegal. Mas outras rapidamente entrarão nessa lista por causa das alterações climáticas”, salientou JeanVié, da UICN.

terça-feira, outubro 27, 2009

CIRCO

Gosto do circo. E gosto de animais. Mas não gosto de circo por causa dos animais. Nem dos animais por causa do circo.
O grande espectáculo circense, as suas luzes, o seu mundo de audácia e maravilha, de magia e de coragem, sempre fascinou os que apreciam ver, vivido e real, aquilo que transcende o «normal», o «possível». E o circo é arte do impossível. A ilusão, o risco, o encantamento, o heroísmo, está tudo lá, nas tendas que albergam sonhos e onde tudo se recria perante os nossos olhares espantados.
Sempre pensei que os animais selvagens estavam a mais nesse universo fantástico. Porque a presença desses seres aí resulta na sua diminuição. Amestrados, acorrentados, fazendo mimos forçados a custo sabe-se lá de que sofrimentos e canseiras, os pobres animais tornam-se em amarga caricatura de si próprios. Enquanto no circo o Homem se eleva à esfera do impossível, o animal selvagem perde a sua magia primordial, como que se reduz e rebaixa num desgraçado papel meio cómico, meios trágico.
O tigre majestoso e superlativamente belo, o urso inteligente e formidável, volvem-se em criaturas assustadas, servis, torturadas, apresentando momices à força de medo e de rotina.
Retirando de cena os animais selvagens, o circo ganha em consciência e em coerência. E brilhará mais alto ainda, sem sofrimento nem desrespeito.
Até porque todos fomos tendo notícia dos maus tratos infligidos a animais selvagens em (alguns) circos portugueses, e de condições de vida degradantes que não enaltecem esses circos ou quem os dirige. O circo em círculo, prisioneiro dos seus maus hábitos?
Pretender que a lei agora publicada—e que de resto se refere à posse e reprodução de espécies selvagens detidas por entidades privadas e não visa especificamente os circos—é um atentado à velha arte circense, é no fundo admitir que esta forma de espectáculo ainda se baseia, remotamente, em resquícios do que foram os combates de gladiadores, ou entre feras e feras, e homens e feras, que faziam as delícias sanguinárias da populaça aglomerada nos coliseus romanos e outros da Antiguidade.
O mundo mudou, como mudou a própria lógica, função e condições dos parques zoológicos e afins, por exemplo, que deixaram de ser meros recintos de exibição avulsa e aparatosa de animais selvagens para integrarem algum projecto educativo e cultural, de divulgação científica e preferencialmente de ajuda à conservação de espécies muito ameaçadas nos seus habitats de origem.
E essa razão também pesa: que sentido tem a aquisição de espécies tão próximas da extinção como o tigre, unicamente para fins de duvidoso entretenimento?
Continua a ser grande a tentação de exibir, ampliada e pungente, a razão e racionalidade humana dobrando e ridicularizando, na sua vitória equívoca, a natureza selvagem; mas hoje sabemos mais e podemos ver mais longe.
Entendemos, ou devíamos entender, a nossa comum pertença e proximidade à Natureza e suas criaturas— com as quais partilhamos a presença na Terra e o milagre da vida. E daí deve partir o respeito devido aos seres vivos todos, se usarmos o nosso dom da consciência para agir com mais compreensão e alguma humildade enquanto espécie.
O resto, meus amigos…é circo!
Bernardino Guimarães
(Crónica emitida pela Antena 1 a 22/10/09)

sexta-feira, junho 19, 2009

RIOS E PEIXES DE ÁGUA DOCE

O estado dos nossos rios é mau. Ao contrário do que seria razoável supor, não tem sequer havido melhorias importantes nos últimos anos, pelo menos compatíveis com os investimentos realizados no tratamento de esgotos e outros trabalhos.
Os problemas que afectam os rios portugueses são vários. Enumeremos alguns:
--poluição— origem esgotos domésticos e industriais, escorrências da agricultura (fosfatos etc) e de fenómenos como a erosão de solos e fogos florestais;
--Barragens e represamentos, extracção de areias
--Problemas de gestão conjunta dos rios internacionais, com Espanha, tornando difícil assegurar os «caudais ecológicos» mínimos apesar dos acordos havidos
--Má gestão dos recursos hídricos superficiais, nomeadamente na agricultura e turismo
--Perda de biodiversidade
--Indefinição administrativa— demasiados organismos públicos têm competências na gestão dos rios, confusão e sobreposição de funções
--Efeitos das alterações climáticas—- secas mais prolongadas, chuva mais escassa ou concentrada em determinada época do ano. Estes problemas relacionam-se entre si. A nova legislação comunitária impôs regras definidas para a gestão das águas. No que aos rios diz respeito, os princípios plasmados na directiva da Água foram – tardiamente— transpostas para a nova Lei da Água, ainda recente mas introduzindo regras de gestão unificadas, dividindo o país em 5 Regiões hidrográficas supervisionadas no plano nacional pelo INAG.
A gestão integrada por bacia hidrográfica já constava da legislação nacional, mas nunca foi cabalmente implementada. Resta saber se agora os princípios de gestão integrada e unificada o serão. Por exemplo, as Administrações Portuárias têm poderes consideráveis de tutela sobre os estuários dos rios e zonas adjacentes, que conflituam com as autarquias, o Ministério do Ambiente e outras entidades. Sem que haja clarificação de competências e sem que se saiba quem gere, envolvendo todos os interessados nos rios, dificilmente se resolverá o problema.
Documentos importantes: Plano Nacional da Água, Planos de Bacia Hidrológica, Lei da água, Directiva-Quadro da Água.
O estado dos rios em termos de carga poluente continua a ser preocupante.
De acordo com o Sistema Nacional de Informação dos Recursos Hídricos do INAG, mais de 44% dos recursos hídricos superficiais monitorizados tinha (2005) qualidade «má» ou «muito má» e cerca da 36% era apenas razoável. Para o INAG, nesse relatório, «esta situação põe em causa a utilização dos recursos hídricos, principalmente em caso de seca, e decorre das graves deficiências de tratamento das águas residuais.»
Deficiências que são reais— bastando consultar os relatórios da Inspecção-Geral do Ambiente sobre o funcionamento das ETARs nacionais— e mesmo estranha se atentarmos no facto de que foram gastas imensas quantidades de dinheiro, proveniente em boa parte dos fundos europeus— na construção das mesmas ETARs e em redes de saneamento.
Indústrias como os curtumes e a suinicultura, entre outras, contribuem fortemente para a contaminação dos rios e resistem a quaisquer medidas para melhorar a situação!
Um estudo da Comissão Europeia em 2004 dava conta de que Portugal não tratava adequadamente cerca de 60% das suas águas residuais! Ainda mais bizarro é que, em vez de se constatar uma evolução positiva, mesmo que lenta, pelo contrário se observam retrocessos: Em 2005 os rios com água considerada boa representavam menos 19% do que no ano anterior, e os de água «muito má» que eram 10, 8 em 2003 passaram a ser 23, 5 em 2005.
Os rios com água julgada «excelente» eram 1% do total em 2004… e um ano depois sumiram-se nos 0% confirmados!
Isto é-- não há rios com qualidade excelente no nosso país!

A água dos rios diz respeito a muitos sectores de actividade— a energia, a agricultura, o turismo, o abastecimento domiciliário, a indústria, os desportos náuticos, a conservação da Natureza. Atender a todas as solicitações não será fácil. As cabeceiras e nascentes dos rios são zonas extremamente sensíveis. Fogos florestais ou contaminações diversas podem pôr em causa o abastecimento de áreas urbanas importantes. A engenharia pesada que constrói barragens e canais de rega, que efectua regularizações de leitos de rios, ignora muitas vezes os mais elementares princípios ecológicos e prejudica seriamente as outras valências que um rio serve.
Outro problema é o preço da água. A nova legislação impõe o princípio do utilizador/ pagador, que deve ser implementado tendo em vista a boa utilização do recurso vital. Mas é urgente rever o «preço político» que sustenta com dinheiro dos contribuintes e elevado gasto de capital natural actividades que de outra forma seriam insustentáveis e onde reina o desperdício. O turismo e a agricultura devem gradualmente conformar-se a modelos de adaptação às disponibilidades hídricas disponíveis e previsíveis para o futuro, e não «violentar» com o apoio do Estado a lógica natural, com grandes barragens e transvazes a destruir a integridade dos rios apenas para proteger actividades insustentáveis. Turismo de acordo com a paisagem e o clima, reciclagem de águas residuais, aproveitamento das águas da chuva, sistemas de rega eficientes, culturas agrícolas adequadas ao clima e recursos existentes, combate às perdas no abastecimento, são medidas que ajudarão os nossos rios a tornarem-se aquilo que nunca deveriam ter deixado de ser: rios vivos. Os efeitos previsíveis nos diversos cenários de alterações climáticas devem ser tidos em conta no planeamento da gestão dos rios portugueses.

Os acordos com Espanha garantem os caudais ecológicos em tempo de seca e de seca extrema? Este problema ainda não reuniu consenso. Mas importa garantir:
--A gestão integrada e internacional dos rios (4) internacionais que temos;
--Recusar as obras faraónicas, como o desvio das águas do Norte para Sul como pretendia (pretende?) fazer o Estado Espanhol, em favor de uma abordagem sustentável da exploração do recurso água.
--Ter em atenção os factores de ameaça à integridade dos rios e evitá-las conjuntamente;
--Garantir uma gestão adequada, racional e solidária em tempos de seca prolongada, matéria extremamente sensível para Portugal;
OS PEIXES
Como não podia deixar de ser, a biodiversidade dos rios foi profundamente afectada pelos erros e omissões que permitimos, empobrecendo os rios e pondo em causa um recurso importante.
A poluição, «regularizações» de rios— lembremos o verdadeiro crime que foram as obras ao longo do Mondego—a introdução de espécies exóticas—problema extremamente grave entre nós—a poluição, extracção de inertes, etc, além da pesca desregulada, levaram a uma situação grave em termos de biodiversidade dos rios.
O recente «Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal» dá conta da situação «muito preocupante» dos peixes dos rios portugueses.
Das 35 espécies consideradas, 63% classificam-se numa das 3 categorias de ameaça. 1 espécie foi considerada extinta. Apenas 23% ficam na categoria de «pouco preocupante».
A situação pior afecta as espécies migradoras diádromas, e por outro lado algumas espécies que são endemismos ibéricos, por vezes confinadas a uma única bacia hidrográfica.

Extinta:

Esturjão (Acipenser sturio)

Criticamente Em Perigo:

Lampreia-de-rio (Lampetra fluviatilis)
Lampreia-de-riacho ( Lampetra planeri)
Saramugo (Anaecypris hispanica)
Boga do Sudoeste (Chondrostoma almacai)
Boga-portuguesa( Chondrostoma lusitanicum)
Escalo do Arade( Squalis aradensis)
Escalo do Mira( Squalis torgalensis)
Salmão-do-Atlântico ( Salmo salar)
Truta-marisca (Salmo trutta)

EM PERIGO:
Caboz-de-água-doce ( Salaria Fluviatilis)
Esgana-gata ( Gasterosteus gymnurus)
Verdemã-do-norte ( Cobitis calderoni)
Escalo -do -sul (Squalis pyrenaicus)
Boga-de-boca-arqueada ( Chandrostoma lemmingii)
Panjorca( Chondrostoma arcasii)
Barbo-do-sul (Barbus sclateri)
Cumba (Barbus comiza)
Sável (Alosa alosa)
Enguia-europeia( Anguilla anguilla)

VULNERÁVEL:
Savelha ( Alosa fallax)
Boga-do-Guadiana( Chondrostoma willkommii)
Bordalo ( Squalis alburnoides)
Lampreia-marinha (Petromyzom marinus)


Ainda outras espécies distribuem-se pelas categorias de «quase ameaçadas» e «informação insuficiente».
Bernardino Guimarães