Parece que um dos mais mediáticos cépticos, ou « negacionista» da tese as alterações climáticas, o dinamarquês Bjorn Lomborg, que durante os últimos anos passou a vida denegrindo os que alertavam para a acção humana como causa do aquecimento global, esse céptico…deixou de o ser! Mudou de ideias e veio agora a terreiro advogar uma acção enérgica no sentido do combate às mudanças climáticas, ou seja, às emissões de dióxido de carbono e de outros gases que provocam o problema. Claro que, para os ambientalistas (e para a maior parte da comunidade científica), Lomborg não tem o mínimo de credibilidade para ser a favor ou contra do que quer que seja, já que o acusam de agir ao sabor de mera vontade de protagonismo, ou até ao serviço de muito poderosas, endinheiradas…e poluentes indústrias mundiais!
De qualquer modo, esta «mudança de campo» pode ser entendida como uma certa forma de rendição, mesmo por parte dos mais cépticos, às evidências de mudança no clima e por via dele, nos ecossistemas e no modo de vida das nações.
Talvez a realidade, disponível para qualquer cidadão nos abundantes noticiários, (e que este Verão foi particularmente impressionante!) se esteja a impor a todos, o que pode ser bom augúrio—temos daqui a poucos meses a cimeira mundial da Cancun, onde se irá tentar relançar o que em Copenhaga foi impossível erguer: um acordo global para a redução das emissões dos chamados «gases de efeito de estufa», para substituir o protocolo de Quioto, que atinge o fim do seu prazo de validade.
Optimismo a mais, tendo em conta a enormidade do problema e a fortaleza dos interesses contrários?
As evidências empíricas e facilmente verificáveis são muitas e todos as vimos correr nas parangonas: 40 graus em Moscovo, a floresta boreal russa ardendo e com ela os campos de trigo da Rússia e da Ucrânia; chuvas fortes e cheias em Agosto na Alemanha e Polónia, com consequências devastadoras; chuvas de monção particularmente abruptas no Paquistão, com milhões de desalojados; seca na América do Norte, no Brasil, em África, etc, etc. Este Verão pode ter sido o mais quente desde que há registos e em Portugal o aumento médio da temperatura nos últimos anos ultrapassou a média de subida europeia e mundial.
Também estudos científicos afiançam que o aquecimento é uma realidade, e que o seria no futuro próximo, mesmo que a emissão de CO2 parasse neste momento.
Daí que, no momento em que os céptico mais céptico, e mais «celebrado», muda de opinião e passa a ser crente ( mesmo que seja por motivos menos nobres) talvez seja altura de levarmos a sério os cientistas. Teremos de nos adaptar a um mundo com clima mais incerto…e fazer já agora, hoje, alguma coisa para evitarmos catástrofe ainda pior nas próximas décadas!
Bernardino Guimarães
( Crónica para Antena 1, em 16/9/2010)
Mostrar mensagens com a etiqueta protocolo de Quioto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta protocolo de Quioto. Mostrar todas as mensagens
sexta-feira, setembro 17, 2010
sexta-feira, janeiro 01, 2010
DESEJOS PARA O ANO NOVO
Deposto o ano velho, aberta a porta esperançosa de novo ciclo, apetece formular alguns desejos, a ver se a sorte nos atende:--- Que em Portugal, em nome da prioridade à produção de energia, mesmo renovável, não sejam esquecidos outros valores que também se alevantam. A paisagem, a biodiversidade, a integridade dos rios.
O Plano Nacional de Novas Barragens, que o ano passado viu nascer, é um exagero e uma desmesura, bem ao gosto dos tecnocratas. 10 ou 11 barragens, contando o precioso vale do Baixo Sabor, vão inundar alguns sítios únicos e irrepetíveis e até uma linha férrea ( Tua). Alguém mediu ou vai medir a sério os impactes? Bacias como a do Douro e do Tâmega, já tão causticadas, serão o palco principal desta directiva de represamento geral. E o efeito no conjunto dos rios, que não apenas no local das barragens?
É triste que, por cá, até as intenções de produzir energia «limpa» acabem sempre em…construção civil!
Quando se joga a produção de uns 2% do total de electricidade gerada, não seria de dar antes o lugar cimeiro à poupança e eficiência energética, no país da Europa que mais energia desperdiça?
--- Que os especialistas em «planeamento» territorial desistam de produzir monstros burocráticos, quimeras de gabinete que ninguém compreende, que ninguém respeita e que ninguém aplica. O ordenamento do território, para além da inconsciência de muitos autarcas, sofre na pele—e nós sofremos também—a « competência» dos planeadores, mais ou menos académicos, mais ou menos pós-modernos, liberais ou estatistas, sempre os mesmos bonzos, alinhados no gosto pelo esotérico e pelo experimentalismo que descura o terreno e a realidade. E que produz pérolas como considerar as áreas florestais ou agrícolas em zona suburbana como «descontinuidades»!
A sobreposição de planos de vários níveis, por vezes contraditórios, a sua forma indecifrável e geradora de conflitos, explica em parte o triste estado de um território entregue à cobiça de vistas curtas.
Haja ideias fortes, códigos claros, intenção política transparente, facilite-se a participação dos cidadãos e defenda-se o interesse público e a sustentabilidade. Sem esquecer a necessidade de enfrentar problemas decisivos, como a forma de remuneração das mais valias dos terrenos, tão facilmente transitados do uso agrícola e florestal para a «dignidade» de solo urbanizável, um escândalo que gera fortunas…e a miséria do território!
---Que seja levada a sério a ameaça das alterações climáticas e que as cidades possam e saibam contribuir com planos coerentes de combate às emissões poluentes, na energia, nos transportes, no urbanismo, no consumo e na defesa do que resta de verde. Portugal é incumpridor do Protocolo de Quioto. Se calhar a tarefa é demasiado importante para a deixarmos apenas nas mãos (inábeis) do governo!
--Que para «descongestionar» as vias rodoviárias, a solução não seja só…a construção de outras vias…bem cedo estarão também congestionadas e serão precisas novas vias e o alargamento das antigas e…está na hora de romper este círculo vicioso, bem patente no Grande Porto! Onde está a prioridade aos transportes públicos? E a Autoridade Metropolitana dos Transportes, para coordenar e orientar? Mais circulares, mais itinerários, mais acessos e auto-estradas urbanas, podem dar dinheiro a ganhar aos senhores do betão. Há quem pense que isso reanima a economia. Mas não resolvem nem sequer os engarrafamentos crónicos, quanto mais o resto! Para quê insistir no modelo esgotado, condenado pela alta do petróleo e pelo problema das alterações climáticas?
E por aqui me fico!
Bernardino Guimarães
(Esta crónica tem dois anos e foi publicada no Jornal de Notícias em 8/1/08.
Para se ver que os desejos poderiam ser formulados hoje…e quão pouco foram concretizados! O tempo ensina-nos muito, de facto!)
sábado, novembro 28, 2009
CIMEIRA DO CLIMA
Daqui a pouco mais de uma semana, a Conferência Mundial sobre Alterações Climáticas, em Copenhaga, vai concentrar todas as atenções. Momento crucial? As Nações Unidas apostaram nos dias dessa reunião para uma verdadeira mudança— olhos postos em 2012, altura em que expira o já desactualizado e pouco cumprido Protocolo de Quioto e momento para um novo acordo mundial sobre o mesmo tema, mas mais abrangente e ambicioso. Expectativas elevadas que se arriscam a serem frustradas— o mais que se vislumbra é um «acordo político», com ou sem metas e objectivos indicativos e deixando para 2010, ou mesmo 2011, as decisões difíceis.Ou talvez não: se é certo que a opinião pública foi sendo sabiamente preparada para um fracasso que arrefecesse excessivas esperanças, o tom é agora de optimismo moderado. Obama fez saber que estaria presente na Cimeira, juntando-se a pelo menos 65 outros chefes de estado e de governo— e essa presença pode fazer toda a diferença. Veremos.
Todas estas peripécias na fase preparatória trazem consigo matéria para reflexão. E interrogação. Se o problema (a acelerada mudança climática) é global, e diz respeito a todas as nações, como pode continuar a ser bem aceite o «egoísmo nacional» que empurra para outros as responsabilidades, os sacrifícios e os custos?
Reflecte-se no clima— a julgar pelo consenso quase geral dos cientistas— o que fazemos no dia-a-dia. Consumo de energia em primeiro lugar. A nossa civilização poderia ser designada de «civilização da queima» --combustão é o que tem feito e faz mover o mundo. Arder petróleo, carvão, gás natural, tudo isso que vem do solo e é incendiado metodicamente, enfiado em caldeiras e fábricas, mais ou menos refinado e triturado e acaba como combustível nas centrais térmicas que nos fornecem a electricidade ou nos motores das viaturas que nos levam pendularmente de um lado para outro. Tudo se queima, tudo se transforma. Boa parte desse material é rejeitado…para a atmosfera, cuja composição se alterou nos últimos 150 anos, com cada vez maior porção de carbono. Carbono que é elemento fundamental nos ciclos da matéria e da vida, na própria formação física dos seres vivos e é coisa decisiva na Terra e nos outros planetas. Ironicamente, na sua forma gasosa, tornou-se no «inimigo público número um»!
Já todos sabemos que, se pouparmos energia, poupamos o planeta e o futuro— e poupamos dinheiro também. Se formos mais eficientes na utilização da energia, faremos o mesmo com menos, sem perda de resultados. Se usarmos formas de energia renováveis, asseguramos o nosso nível de vida sem acelerarmos as mutações climáticas e outros efeitos negativos. E se consumirmos com mais critério, moderação e inteligência, gastaremos menos energia e deixaremos menos resíduos no final do processo.
Com Copenhaga ou não, pensemos que a defesa do Ambiente também quer dizer solidariedade— com as gerações futuras, sim, e com os que hoje em dia são pobres…
Enquanto se tenta (e com que dificuldades!) abrandar o consumo voraz de energia nos países desenvolvidos, uma notícia de há dias deu-nos conta de que trinta por cento— cerca de um terço! — da Humanidade nem sequer tem acesso à electricidade.
Dá que pensar. O mundo da poluição e do desperdício é também o mundo da desigualdade e do desencontro.
Bernardino Guimarães
(Crónica na Antena 1, em 26/11/09)
domingo, maio 24, 2009
SEQUESTRO...DE CARBONO
1) Aquilo a que se chama «captura ou sequestro de carbono», ou ainda «aprisionamento de carbono», no âmbito do tema das alterações climáticas, abrange, não apenas a procura de um método artificial de confinamento do carbono—evitando a sua saída para a atmosfera—mas principalmente tudo aquilo que há de mais natural: a absorção de carbono gasoso pelas plantas verdes, num processo que possibilitou a existência de um mundo habitável desde há muitos milhões de anos.Assim, o Protocolo de Quioto, quando se refere ao mercado emergente de créditos de emissão de carbono, ou no capítulo dos «mecanismos de desenvolvimento limpo (medidas de compensação) refere-se ao valor das florestas e dos oceanos como a verdadeira e óbvia forma de captar e aprisionar o CO2 emitido.
Convém não perder isto de vista quando falamos de «aprisionamento» no sentido de métodos de engenharia tendentes a «prender» o CO2 em confinamentos diversos. Trata-se realmente de o «confinar» mais do que realmente o absorver e transformar. Ou como alguém dizia, há o «sequestro biológico» e tenta-se agora, em desespero de causa, inventar «sequestros geológicos».
2) -Seja como for, face ao relativo fracasso do cumprimento de Quioto— aliás ele próprio um tratado insuficiente, a pedir abordagens mais exigentes— tem emergido a intenção de criar processos tecnológicos de confinamento dos gases. Se um grande complexo industrial, uma central térmica, puder impedir as emissões de escaparem para a atmosfera, enviando-as para um «armazenamento» seguro, torna-se possível atenuar as restrições impostas e transferir o problema, por assim dizer.
Mas colocam-se questões:
--Há soluções desse tipo? A que preço? O custo compensa o investimento feito, ou por ser proibitivo mais vale conseguir os ganhos de eficiência e apostar no mercado de emissões?
---É seguro? Que sucederia se o CO2 confinado escapasse subitamente? Não será mais um legado funesto que se deixa às gerações vindouras?
Hoje parece consensual a ideia de que, mesmo que soluções tecnológicas possam ser viáveis e a custo compensador, esta solução será apenas um complemento, nunca «a» solução. Mas pode oferecer uma contribuição positiva pontual, em determinadas circunstâncias, desde que não se perca de vista o essencial— a redução drástica das emissões de gases com efeito de estufa e a ultrapassagem do paradigma das energias fósseis!
3) — Em Portugal, a ideia está a ter também seguimento: Na EDP e no INETI trabalha-se na pesquisa de soluções para a captura de carbono. A EDP é uma das participantes no projecto NanoGlowa, que visa desenvolver uma tecnologia nova para captura de CO2 nas centrais térmicas. O projecto envolve 26 empresas e instituições, entre as quais a Comissão Europeia, e tem um orçamento de 13 milhões de euros para uma tecnologia que passa pelo desenvolvimento de membranas com uma estrutura molecular que lhe confira capacidade de captação dos gases.
Um responsável da EDP disse que este tipo de técnicas, quando aplicadas, poderá ter como efeito o encarecimento da produção eléctrica, o que nos remete sempre para o problema dos custos.

4) – Como se processa? No mundo, que projectos estão já no terreno?
Antes do mais, diga-se que o sequestro de carbono deve ser ambientalmente aceitável, não deixando nenhum legado para as gerações vindouras, e respeitar os ecossistemas existentes; ser seguro, não podendo implicar níveis de descargas inesperadas de CO2 em grande escala; a quantidade de carbono capturado deve ser mensurável: deve ser economicamente viável, quando comparado com as outras opções de gestão do carbono; (definição dos promotores)
5) —Na Noruega, a cargo da Statoil, estão a ser desenvolvidos trabalhos ( na verdade, desde 1996) para a reinjecção de CO2 gerado pela produção de petróleo e gás natural, nos poços, num processo de « captura e armazenamento».
O CO2 é injectado em estado líquido em águas fossilizadas, no fundo de poços mortos de petróleo. Como o CO2 líquido é mais denso que a água, fica armazenado no fundo do mar por tempo indefinido, e não gera impactos substanciais no ambiente. O projecto chama-se « SACS-Saline Aquifer CO2 Storange» O armazenamento em aquíferos salinos( formação arenosa com 200m de espessura, 800-100 metros abaixo do fundo do mar) tem sido apontada como uma das soluções, mas a viabilidade económica não parece animadora—o processo norueguês revela um deficit do processo ( sobretudo devido ao custo da liquidificação do carbono antes do confinamento) face ao comércio dos créditos de carbono. Talvez a melhoria das tecnologias possa trazer novidades!
6) — Outro processo em estudo é do Instituto Federal de Tecnologia da Universidade de Zurique, assente em processos químicos de fixação do CO2 em minerais. Comprovadamente possível tecnologicamente, não o é ainda economicamente, porque são altos os custos do transporte e armazenagem dos componentes.
Já o MIT nos EUA aposta em projectos próximos dos da Noruega (descarbonização geológica em aquíferos salinos e semelhantes, e também aqui os custos são apontados como entrave: A captura e compressão do CO2 correspondem a 80% dos custos, para 20% atribuídos ao transporte e injecção do carbono.
7) — A localização dos «armazéns» é uma dor de cabeça para os investigadores.
No Japão— Laboratório de Engenharia Oceânica da Mitsubishi Heavy Industries---prevê-se o armazenamento nos oceanos. O processo resume-se à injecção do carbono em estado líquido no oceano, em águas muito profundas onde a pressão permita condicionar o CO2 durante séculos. Este processo exige enormes tubulações que conduzam o carbono até ao destino. Aí se formará uma autêntica lagoa de CO”2 e gerar-se-à eventualmente uma lenta absorção pela água do mar. Estes métodos levantam dúvidas ambientais e de segurança, ao que os cientistas japoneses respondem que «os oceanos já hoje absorvem 70% do CO2 produzido pelo Homem.» Não demasiado apaziguador!
Há também projectos a decorrerem na Argélia, onde a BP está a testar processos de armazenamento do CO2 produzido na extracção do gás natural, na Califórnia e em outros locais.
8) — Não se pense que apenas o mar é destino olhado pelos cientistas para o CO2— muita da pesquisa centra-se na procura de formações geológicas terrestres que possam acolher, espera-se que por muitos séculos, os gases que não queremos ver na atmosfera.)
9) — Prometedora é a ideia de produção de energia. a partir do carbono sequestrado—consiste afinal na injecção do carbono em formações de leito de carvão. Segundo os técnicos, nesse ambiente o CO2 poderia ser absorvido preferencialmente, libertando o metano aderido ao carvão. Decorrem pesquisas inda em estado inicial.
A viabilidade económica acabará por definir o destino destes esforços. A transformação do CO2 em energia, através de processamento químico e outros, é uma das promessas bonitas com um custo, pelo menos agora, tão elevado que de pouco adianta lembrar que é uma possibilidade teórica e técnica!
BG

Etiquetas:
captura de carbono,
protocolo de Quioto,
sequestro
Subscrever:
Mensagens (Atom)

