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quarta-feira, dezembro 23, 2009

ESPERANÇA, APESAR DE TUDO

A Conferência Mundial de Copenhaga não soube dar-nos mais, após tanto trabalho e negociações prolongadas, do que um mesquinho e triste presente de Natal. O lamentável resultado já era esperado pelos mais pessimistas. Sequestrada pelas divisões nunca devidamente geridas entre países «pobres» e «ricos», confinada ao exíguo espaço deixado pelos egoísmos nacionais, a Conferência foi um exercício falhado de geopolítica que deixou tudo praticamente na mesma. Deixar na mesma é deixar pior— a menos que se sustente que basta pronunciar as palavras mágicas que proíbem a temperatura de subir mais que 2 graus no decorrer deste século!
Este fracasso lança sobre o Natal do mundo um espesso manto de desânimo. Sendo as coisas o que são, e tendo os políticos falhado, que nos resta agora? Assistir a novas rondas negociais para a redução de gases com efeito de estufa apenas quando as catástrofes climáticas se abaterem, com todo o seu peso sobre muitas regiões do globo— mas afectando todas? Parece que o rasto da crise económica fez esquecer a «crise ecológica», como se uma e outra não fizessem parte do mesmo «pacote» que nos indica um mundo seriamente desgovernado e carregado de ameaças na entrada do século XXI.
Talvez o clima frio desta época na Dinamarca— e na Europa— tenha de algum modo desempenhado um papel subliminar na história desta oportunidade perdida. A neve cobrindo as ruas não configura o melhor cenário para consciencializar os representantes das nações acerca dos perigos letais do «aquecimento global.» Mas suspeito que mesmo uma conferência feita no Quénia— onde a seca dura há dez anos e o monte Kilimanjaro já quase não tem neve— não teria sido capaz de criar «clima» para o acordo político vinculativo, abrangente e com metas definidas que a opinião pública esperou.
Quanto a clima, já se sabe que está a subir em média no mundo inteiro. Quem pagará primeiro o preço será talvez quem menos poluição produz e emite, em países pobres onde a escassez de água é endémica e se vem agravando.
Mas uma nota curiosa e preocupante diz respeito a Portugal: aqui o aquecimento registado é maior do que a média global e europeia.
“Verifica-se um aumento da temperatura média de 0,33 graus à década, um ritmo de crescimento superior ao que se verifica fora de Portugal, em termos mundiais. A temperatura de 2009 ficou muito acima dos valores médios, quase um grau”, afirmou Adérito Serrão, presidente do Instituto de Meteorologia. E acrescentou este responsável: “O aumento de 0,33 graus à década é muito significativo. Com este ritmo, em 60 anos atingiam-se os dois graus de aumento de temperatura média em Portugal, isto a manter-se o ritmo e se não fosse inclusivamente agravado, porque a tendência é de ligeiro agravamento desta elevação da temperatura”.
Razão para nos preocuparmos!
Apesar de tudo, a esperança permanece. Os cidadãos podem reagir a este desaire fazendo valer a sua força. As iniciativas locais, das cidades e regiões, das empresas, públicas e privadas, do mundo associativo, ganham ainda maior importância, no planeamento urbano e eficiência energética, na busca de outros modelos de mobilidade, no consumo que se precisa mais sóbrio, inteligente e responsável.
O Natal ensina-nos que o desalento não é uma opção. Em qualquer lugar, por mais insignificante, na dimensão do que é pequeno e aparentemente frágil, por vezes ouvem-se as vozes que pareciam silenciadas, as palavras que todos ignoravam, iluminam-se cenários até aí escondidos e acontecem, quando nada o faria prever, coisas surpreendentes— e tudo volta de novo a ser possível.
Feliz Natal!
Bernardino Guimarães
(Crónica no Jornal de Notícias, 22/12/09)

sexta-feira, dezembro 11, 2009

MAIS DE CEM NAÇÕES QUEREM METAS CLIMÁTICAS MAIS AMBICIOSAS

10.12.2009 PÚBLICO, Agências
Mais de metade dos países presentes na conferência de Copenhaga – especialmente as nações mais pequenas - querem metas climáticas mais ambiciosas do que as defendidas pelas nações ricas.
Dessima Williams, líder da Aliança dos 43 Estados Insulares (AOSIS), declarou que mais de cem nações já pediram que o aumento da temperatura média do planeta seja limitado aos 1,5 graus Célsius, em relação aos níveis pré-industriais. Os países mais ricos entendem ser seguro um aumento que pode ir mais longe, até aos 2 graus. Mas para as pequenas nações, este limite pode causar o seu desaparecimento do mapa, devido à subida do nível das águas do mar.“Metade das Nações Unidas está a pedir metas mais específicas e ambiciosas”, disse Williams, de Grenada, numa conferência de imprensa na conferência de Copenhaga. Entre os defensores dos 1,5 graus estão os países menos desenvolvidos, a maioria deles em África, e os pequenos Estados insulares. Mas para conseguir cumprir este valor seria necessário que os países desenvolvidos reduzissem as emissões de gases com efeito de estufa em, pelo menos, 45 por cento até 2020, a níveis de 1990. E isso parece ser algo difícil de alcançar. Os valores apresentados até agora rondam os 20 por cento.Seja como for, qualquer acordo em Copenhaga terá de ser aceite por unanimidade. “Vivemos na linha da frente” no campo de batalha contra as alterações climáticas, disse Williams. Talvez por isso os países da AOSIS insistam tanto num acordo vinculativo no final de Copenhaga em vez de uma mera declaração política. “Uma boa declaração política em Copenhaga sem um carácter vinculativo é como um tubarão sem dentes”, comentou Barry Coates, porta-voz da organização Oxfam.Actualmente, as temperaturas do planeta já subiram 0,7 graus e tudo indica que continuem a aumentar. Mesmo assim, muitas ilhas já sofrem “danos significativos, algumas estão a ficar submersas, outras estar a perder as suas reservas de água potável”, alertou Williams. António Lima, da Cabo Verde, e vice-presidente da AOSIS, afirmou que as alterações climáticas são um desastre para os pobres, semelhante à erupção vulcânica do Monte Vesúvio que, há 2000 anos, enterrou a cidade romana de Pompeia. “Eles não sabiam o que estavam a enfrentar. Hoje sabemos o que vai acontecer. Vai ser o planeta Pompeia.»

1 700 CIENTISTAS REAFIRMAM AQUECIMENTO GLOBAL


Público, 11/12/09
Cerca de 1700 cientistas britânicos subscreveram uma declaração comum reafirmando que as alterações climáticas são reais e causadas pelo homem.
A declaração foi preparada pelo MetOffice, a agência meteorológica do Reino Unido, e surge como uma reacção às acusações de manipulação de dados que se têm ouvido desde que foram divulgados emails da Universidade de East Anglia.No texto da declaração, os cientistas dizem ter “a maior confiança nas evidências observadas do aquecimento global e na base científica para concluir que isto se deve primordialmente às actividades humanas”.
O texto diz que a ciência e as provas das alterações climáticas são “profundas e extensivas”, provendo de “décadas de investigação cuidadosa e meticulosa, por milhares de cientistas de todo o mundo, que aderem aos níveis mais elevados de integridade profissional”.O documento corrobora as conclusões do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), de que é “muito provavel” que o aumento na temperatura média da Terra na segunda metade do século XX se deva ao aumento da concentração de gases com efeito de estufa com origem nas actividades humanas.
Cientistas de mais de 100 instituições académicas britânicas assinaram a declaração. “Esta enorme resposta reafirma a nossa confiança na ciência e reforça o imediatismo do desafio e a natureza crítica das discussões em Copenhaga”, afirma o MetOffice, numa nota publicada no seu sítio na Internet.
Há cerca de um mês, emails retirados de um servidor da Universidade de East Anglia – uma das mais importantes na área das ciências climáticas – foram divulgados na Internet. O conteúdo de algumas mensagens trocadas entre climatologistas de renome mundial deu lugar a acusações de manipulação de dados e de obstrução de acesso a informação, solicitada por cépticos que não acreditam na tese da contribuição humana para as alterações climáticas. A Universidade de East Anglia lançou uma investigação interna e o director do seu Centro de Investigação Climática, Phil Jones, afastou-se temporariamente do cargo.

domingo, dezembro 06, 2009

QUERCUS PRESENTEIA SÓCRATES COM ALERTA SOBRE COPENHAGA


Lusa, 4 de Dezembro de 2009
A Quercus entregou hoje cinco presentes simbólicos ao primeiro-ministro, para lembrar as grandes questões que vão ser discutidas na Cimeira de Copenhaga e que afectarão o futuro do planeta, como as florestas, o financiamento e a redução de emissões.
Uma calculadora solar, uma lâmpada economizadora LED, um carregador solar de telemóvel, um sobreiro para plantar e um cheque de 195 mil milhões de dólares por assinar são os cinco presentes que os ambientalistas entregaram em São Bento, no gabinete do primeiro-ministro, José Sócrates, cuja presença em Copenhaga já foi confirmada.A Quercus e a Objectivo 2015 - Campanha do Milénio das Nações Unidas - pretendem com esta iniciativa apelar a primeiro-ministro para que Portugal contribua activamente para "uma posição mais ambiciosa da União Europeia e para que faça investimentos coerentes em termos de política energética e ambiental no combate às alterações climáticas", afirmam os ambientalistas, em comunicado.
A calculadora deverá ajudar a fazer as contas aos valores de emissões necessárias para evitar alterações climáticas catastróficas, o que no caso da União Europeia implica uma redução de 40 por cento, 30 assegurados pelo esforço interno e dez pela aquisição de créditos externos de carbono.
A lâmpada LED simboliza a aposta na eficiência energética, mais decisiva do que as energias renováveis, um sector onde os investimentos têm melhor relação de custo-eficácia.
Mas como as energias renováveis também são fundamentais, o carregador solar de telemóvel assinala que é indispensável os países desenvolvidos acordarem um fundo tecnológico que ajude os países em desenvolvimento num futuro menos dependente de combustíveis fósseis e, consequentemente, com menores emissões de carbono.
O quarto presente, um sobreiro, simboliza a importância das florestas na redução das concentrações de dióxido de carbono na atmosfera.A Quercus defende que Portugal, com um terço do território ocupado por área florestal, deve "defender uma forma de contabilização do contributo das florestas na redução das emissões que seja simples, transparente e baseada numa referência histórica".
O último presente é um cheque de 195 mil milhões de dólares, que é o valor necessário por ano para ajudar os países em desenvolvimento - aqueles que menos contribuíram para o problema mas que são mais afectados por ele - na redução das suas emissões e na adaptação aos efeitos das alterações climáticas, que já não se podem evitar.Na próxima segunda-feira, dia 7 de Dezembro, tem início a 15ª reunião da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (COP15) em Copenhaga, Dinamarca.Até dia 18 de Dezembro, os países de todo o mundo vão ter de acordar numa nova meta de redução de gases de efeito de estufa que continue e supere o trabalho começado pelo Protocolo de Quioto.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

COPENHAGA SEGUNDO JAMES HANSEN


Cartazes da Greenpeace em Copenhaga. Em 2020 os líderes mundiais de hoje lamentam nada ter feito para evitar a catástrofe climática.
em «Público» 3/2/09

Considera ser o desafio moral do século: a luta contra as alterações climáticas. James Hansen, um dos mais eminentes estudiosos do clima, o homem que alertou para os perigos das alterações climáticas muitos anos antes de Al Gore abrir os olhos ao mundo com o seu documentário “Uma Verdade Inconveniente”, falou ao “The Guardian” nas vésperas da cimeira de Copenhaga. E o que tem a dizer não é agradável. Hansen diz que é preferível que a cimeira redunde em fracasso, dado que o ponto de partida é profundamente defeituoso. Mais valia começar tudo do zero, argumenta.
“Preferia que não acontecesse [um acordo em Copenhaga], se as pessoas aceitarem a cimeira como sendo a ‘via certa’, em vez de a ‘via do desastre’”, indicou Hansen, que dirige o Instituto Goddard para os Estudos Espaciais, da NASA, em Nova Iorque.O cientista que convenceu o mundo a prestar atenção ao perigo crescente do aquecimento global é muito claro quando diz ao “The Guardian” que seria melhor para o Planeta e para as futuras gerações que a cimeira de Copenhaga acabasse num desastre. James Hansen considera que qualquer acordo que venha a emergir das negociações será tão profundamente defeituoso que mais valia começar tudo de novo a partir do zero. “Toda a abordagem é tão profundamente errada que é melhor reavaliar a situação. Se isto for uma coisa ao estilo Quioto, então as pessoas irão demorar anos a tentar determinar o que é que aquilo quer dizer exactamente”, criticou Hansen.Hansen começou a apresentar-se diante do Congresso americano em 1989, alertando para as consequências do aquecimento global, e fez mais do que qualquer outro cientista na educação dos políticos norte-americanos acerca das mudanças climáticas e das suas consequências. Apesar de se considerar um relutante orador, diz que foi forçado a entrar na esfera pública depois de as catástrofes naturais se terem começado a multiplicar.Esta entrevista ao “The Guardian” acontece numa altura em que se registaram alguns progressos na cimeira de Copenhaga, com a Índia a anunciar um limite à emissão de CO2 para a atmosfera. Os quatro maiores produtores de gases com efeito de estufa - EUA, China, UE e Índia - já se comprometeram com limites para as emissões, mas ainda há muito a fazer e muitos obstáculos a serem ultrapassados.Hansen opõe-se veementemente aos esquemas de compra e venda de emissões de CO2 para a atmosfera entre nações. Compara este sistema às indulgências vendidas pelo Clero na Idade Média, quando os fiéis compravam a redenção das suas almas dando dinheiro aos padres. Neste caso os países ricos dão dinheiro aos países pobres em troca de emissões de carbono.Hansen é igualmente muito crítico das actuações de Barack Obama e de Al Gore, afirmando que estes líderes mundiais falharam aquele que é considerado hoje o desafio moral da nossa era. Porque o problema do corte das emissões de CO2 para a atmosfera não se pode ajustar aos interesses políticos e económicos internacionais. “Neste tipo de assuntos não pode haver compromissos”, avalia. “Não temos um líder que seja capaz de entender o que se passa e que diga o que realmente importa dizer. Em vez disso, estamos todos a tentar continuar com os negócios de sempre”.Apesar de tudo, Hansen permanece optimista: “Podemos já nos ter comprometido com um aumento do nível do mar em pelo menos um metro - ou mais - mas isso não quer dizer que desistamos. Porque se desistirmos, em vez de um poderemos ter de lidar com dezenas de metros. Por isso acho contraproducente as pessoas dizerem que atingimos um ponto de não retorno e que é demasiado tarde. Nesse caso, em que é que estamos a pensar: vamos abandonar o Planeta? Devemos minimizar os estragos”, vaticinou.

sábado, novembro 28, 2009

CIMEIRA DO CLIMA

Daqui a pouco mais de uma semana, a Conferência Mundial sobre Alterações Climáticas, em Copenhaga, vai concentrar todas as atenções. Momento crucial? As Nações Unidas apostaram nos dias dessa reunião para uma verdadeira mudança— olhos postos em 2012, altura em que expira o já desactualizado e pouco cumprido Protocolo de Quioto e momento para um novo acordo mundial sobre o mesmo tema, mas mais abrangente e ambicioso. Expectativas elevadas que se arriscam a serem frustradas— o mais que se vislumbra é um «acordo político», com ou sem metas e objectivos indicativos e deixando para 2010, ou mesmo 2011, as decisões difíceis.
Ou talvez não: se é certo que a opinião pública foi sendo sabiamente preparada para um fracasso que arrefecesse excessivas esperanças, o tom é agora de optimismo moderado. Obama fez saber que estaria presente na Cimeira, juntando-se a pelo menos 65 outros chefes de estado e de governo— e essa presença pode fazer toda a diferença. Veremos.
Todas estas peripécias na fase preparatória trazem consigo matéria para reflexão. E interrogação. Se o problema (a acelerada mudança climática) é global, e diz respeito a todas as nações, como pode continuar a ser bem aceite o «egoísmo nacional» que empurra para outros as responsabilidades, os sacrifícios e os custos?
Reflecte-se no clima— a julgar pelo consenso quase geral dos cientistas— o que fazemos no dia-a-dia. Consumo de energia em primeiro lugar. A nossa civilização poderia ser designada de «civilização da queima» --combustão é o que tem feito e faz mover o mundo. Arder petróleo, carvão, gás natural, tudo isso que vem do solo e é incendiado metodicamente, enfiado em caldeiras e fábricas, mais ou menos refinado e triturado e acaba como combustível nas centrais térmicas que nos fornecem a electricidade ou nos motores das viaturas que nos levam pendularmente de um lado para outro. Tudo se queima, tudo se transforma. Boa parte desse material é rejeitado…para a atmosfera, cuja composição se alterou nos últimos 150 anos, com cada vez maior porção de carbono. Carbono que é elemento fundamental nos ciclos da matéria e da vida, na própria formação física dos seres vivos e é coisa decisiva na Terra e nos outros planetas. Ironicamente, na sua forma gasosa, tornou-se no «inimigo público número um»!
Já todos sabemos que, se pouparmos energia, poupamos o planeta e o futuro— e poupamos dinheiro também. Se formos mais eficientes na utilização da energia, faremos o mesmo com menos, sem perda de resultados. Se usarmos formas de energia renováveis, asseguramos o nosso nível de vida sem acelerarmos as mutações climáticas e outros efeitos negativos. E se consumirmos com mais critério, moderação e inteligência, gastaremos menos energia e deixaremos menos resíduos no final do processo.
Com Copenhaga ou não, pensemos que a defesa do Ambiente também quer dizer solidariedade— com as gerações futuras, sim, e com os que hoje em dia são pobres…
Enquanto se tenta (e com que dificuldades!) abrandar o consumo voraz de energia nos países desenvolvidos, uma notícia de há dias deu-nos conta de que trinta por cento— cerca de um terço! — da Humanidade nem sequer tem acesso à electricidade.
Dá que pensar. O mundo da poluição e do desperdício é também o mundo da desigualdade e do desencontro.
Bernardino Guimarães
(Crónica na Antena 1, em 26/11/09)

sexta-feira, novembro 27, 2009

PARA UM ACORDO JUSTO EM COPENHAGA

Pontos Essenciais para um acordo justo, ambicioso e vinculativo em Copenhaga
A Rede Internacional de Acção Climática, composta por mais de 500 organizações em todo o mundo entre elas a Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, lança hoje os elementos essenciais para um Acordo de Copenhaga completo e robusto.
Este documento define “as acções necessárias para evitar as catástrofes associadas às alterações climáticas, enquanto também sustenta a economia global e a adaptação às alterações climáticas que já não se podem evitar”, diz David Turnbull, Director da Rede de Acção Climática Internacional (CAN-I, na sigla em inglês). “A ciência é clara. E este é o critério para medir o nível de ambição do acordo dos líderes em Copenhaga”, acrescenta.
Francisco Ferreira, Vice-Presidente da Quercus, considera que “as propostas agora feitas pelas organizações não governamentais devem ser seriamente ponderadas por cada um dos Governos, incluindo o de Portugal, pois são a garantia mínima de que as alterações climáticas não representarão um custo demasiado elevado para as próximas gerações”.
Esta lista de pontos essenciais intitulada “Alterações Climáticas: Pontos essenciais para um acordo climático justo, ambicioso e vinculativo em Copenhaga” serve como painel de pontuação aos observadores que seguirem o progresso das negociações de Copenhaga e a avaliação dos resultados. Os pontos essenciais desta lista incluem:- Um comprometimento para manter o aquecimento global abaixo dos 2ºC, com o pico de emissões entre 2013 e 2017 e as concentrações de CO2 abaixo de 350 ppm.- Os países industrializados, em conjunto, devem-se comprometer com uma meta de redução das suas emissões de gases de efeito de estufa superior a 40% até 2020 em relação aos valores de 1990.
Este objectivo deve ser alcançado maioritariamente por reduções internas.- Os países em desenvolvimento devem ser apoiados no esforço de limitar as suas emissões industriais e reduzir substancialmente as suas emissões em relação à tendência actual.- As emissões da desflorestação de degradação florestal devem ser reduzidas para zero, até 2020, com apoio financeiro dos países desenvolvidos de pelo menos 35 mil milhões de dólares por ano.- Os países desenvolvidos devem providenciar pelo menos 195 mil milhões de dólares em financiamento público anual até 2020 e em adição à já existente ajuda pública ao desenvolvimento, para acções nos países em desenvolvimento.- Os resultados de Copenhaga devem ser juridicamente vinculativos e viáveis: propõe-se um segundo período de cumprimento do Protocolo de Quioto; um acordo complementar que preveja metas exequíveis para os Estados Unidos da América comparáveis às dos demais países desenvolvidos; acções pelos países em desenvolvimento.
A Rede de Acção Climática (CAN, da sigla em inglês), da qual a Quercus faz parte, é uma rede de organizações ambientais e de desenvolvimento que trabalham juntas com o objectivo de limitar as alterações climáticas a níveis sustentáveis. O documento representa a posição global desta Rede. Cada membro tem as suas posições individuais. Mais informações em http://www.climatenetwork.org/.

Lisboa, 24 de Novembro de 2009

sábado, novembro 07, 2009

COMBOIOS PELO CLIMA

04.11.2009 Carlos Cipriano, Público

Explicar que o mundo fica a ganhar se se transferir tráfego da rodovia e da aviação para o caminho-de-ferro é a mensagem do comboio que vai ligar Quioto a Copenhaga, numa viagem de 9000 quilómetros, sempre em linhas electrificadas, pelo percurso do Transiberiano, via Vladivostok, Moscovo, Poznan, Berlim e Bruxelas.
Durante a viagem, um grupo de especialistas irá chamar a atenção – em particular durante a travessia da Sibéria – para os efeitos visíveis na paisagem das alterações climáticas e do aumento da temperatura do planeta. Testemunhos que, garantem, serão visíveis a olho nu.A iniciativa é da União Internacional dos Caminhos-de-Ferro (UIC), em parceria com o Programa das Nações para o Ambiente (PNUE) e WWF, que pretendem evidenciar que os transportes são uma parte da solução na luta contra o aquecimento global.Por isso, o comboio vindo de Quioto (onde decorreu a última cimeira mundial do ambiente) vai encontrar-se em Bruxelas, a 5 de Dezembro, com o Climate Express, uma outra composição que transportará os congressistas para Copenhaga, numa viagem que, segundo a UIC, será “inteiramente livre de CO2”.O Expresso do Clima conta já com 400 participantes inscritos, entre ambientalistas, políticos, homens de negócios e jornalistas, que terão a oportunidade, a bordo, de participar numa conferência que durará 12 horas e onde poderão trocar ideias e discutir em grupos de trabalho aquilo que os organizadores consideram como a “mobilidade sustentável”. Mais uma vez, a tónica será a defesa da ferrovia à escala mundial para combater o aquecimento do planeta, sublinhando-se ainda as particularidades de um modo de transporte reconhecidamente económico, rápido e seguro.Designado “fechemos o acordo”, este projecto conta com a participação dos operadores ferroviários do mundo inteiro, de acordo com a UIC, que chama a atenção para o facto de o sector dos transportes ser responsável por um quinto das emissões de CO2 no planeta. As previsões apontam para que estas emissões dupliquem nos próximos 40 anos.Questionada pelo PÚBLICO sobre a forma como a CP está envolvida neste projecto, fonte oficial da empresa disse que esta “tem conhecimento das iniciativas e está em articulação com a UIC, a equacionar as formas de participação e divulgação de Portugal nas mesmas”.

quarta-feira, outubro 28, 2009

CONSCIÊNCIA E URGÊNCIA

Um, vários «350» formados por pessoas desenhando com os seus corpos a cifra «mágica» --mas bem real. Cartazes e tarjetas com o mesmo número. Na Ponte D.Luís assim foi, e também no Padrão dos Descobrimentos em Lisboa e em mais 181 países espalhados pelo globo todo, assinalando o dia Mundial de Acção Climática. A ideia é simples e o sentimento de urgência: salvar o mundo das calamidades que os cientistas prevêem, devido às alterações climáticas.
E o 350 explica-se: trata-se de manter nesse nível o dióxido de carbono presente na atmosfera, sendo 350 partes por milhão (ppm) de CO2 na atmosfera a concentração julgada mais segura para evitar os piores efeitos do aquecimento global. Dizem os cientistas que a concentração actual é já de 390 ppm e a subir vertiginosamente!
Urgência também porque é já em Dezembro que se reúne em Copenhaga a Conferência Mundial sobre Alterações Climáticas, sob a égide das Nações Unidas com o fito de alcançar um acordo global para a redução efectiva das emissões de CO2 e outros gases de efeito de estufa. Os impasses, os egoísmos nacionais, as vistas curtas de muitos dirigentes, a pressão de lobbies que pretendem que nada mude, tudo isso não faz senão esmorecer o mais esfusiante optimista. Mas não há alternativa, nem mais tempo disponível, como lembrou há poucos dias, em discurso surpreendentemente dramático, o primeiro-ministro britânico.
A mobilização da opinião pública pode ser um estímulo e um aviso à navegação? Sem dúvida que movimentos como 350.org com iniciativas simultâneas à escala planetária têm enorme oportunidade e utilidade.
Em vão criticaremos a tibieza e mediocridade dos políticos e dos grandes agentes económicos, se não percebermos que o que está em causa é algo que diz respeito a todos, às nossas atitudes quotidianas, à organização das nossas cidades, aos nossos hábitos. Mudar de modelo energético é urgente, de facto, e nem existe vagar para transições demasiado suaves. Fazer dessa mudança (para as energias renováveis, para um novo tipo de mobilidade urbana, para melhor harmonia e racionalidade no ordenamento do território) uma oportunidade, isso depende da iniciativa da própria sociedade. As cidades e regiões que melhor fizerem a modificação do seu «modo de funcionamento», rompendo o beco sem saída da «economia carbónica», serão também as que mais facilmente prosperarão no futuro que se anuncia.
No Porto e sua Área Metropolitana, muita coisa tem sido feita. Mas será demasiado, pedir mais e melhor, mais iniciativa local pela eficiência energética, concertando os «parceiros sociais» os decisores políticos e os investigadores? Mais energia para mudar? As autarquias não podem alhear-se destes problemas, pelo contrário, e continua a ser indispensável a concertação metropolitana de medidas e acções que preparem um novo paradigma, como agora se diz. Diminuir o consumo de energia em todos os sectores, residencial e transportes, consumo e produção na lista das prioridades.
Bem se conhece que alguma coisa ficou do tempo— não assim tão distante— em que o desenvolvimento se media através dos níveis de consumo de energia— quanto maior desperdício, mais desenvolvidos seríamos! Agora é preciso fazer o mesmo com menos (energia) e produzir energia de outras fontes e com outra lógica de descentralização e sustentabilidade.
Alterámos a composição da atmosfera. Sabemos hoje o que isso nos pode custar, e talvez mais rapidamente do que se pensa.
Agir é preciso! De pouco servirá lamentarmos as hesitações dos líderes mundiais, se não formos capazes de pôr em marcha a mudança aqui mesmo, à porta de casa!
Bernardino Guimarães
(Crónica publicada no JN de 27/10/09)

terça-feira, outubro 20, 2009

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS: AS DUAS SEMANAS DECISIVAS PARA A EUROPA COMEÇAM AMANHÃ

Nas próximas duas semanas realizam-se um conjunto de reuniões de alto nível na União Europeia (UE) onde um conjunto de decisões importantes será tomado sobre o posicionamento da União no processo internacional sobre alterações climáticas que culminará em Copenhaga em Dezembro.

As decisões tomadas formarão a base da posição negocial da União Europeia em Copenhaga. Dado que a UE se tem posicionado ela própria como líder nas negociações climáticas, o nível de ambição mostrado terá um enorme impacto no resultado de Copenhaga. Se não houver medidas e reduções de emissões suficientemente fortes, o objectivo de assegurar um aumento inferior a 2º C não será conseguido, conduzindo o mundo a um caminho de impactes dramáticos associados às alterações climáticas.

Quercus escreveu aos Ministros do Ambiente e Finanças de Portugal

As reuniões em causa são:

- ECOFIN, 20 de Outubro: reunião dos Ministros das Finanças da UE que decidirão sobre a escala, fontes e meios de financiamento da União Europeia para adaptação e mitigação nos países em desenvolvimento. A falta de acordo sobre financiamento para os países em desenvolvimento é um dos assuntos chave para um acordo em Copenhaga.
- Conselho Europeu de Ambiente, 21 de Outubro: reunião dos Ministros de Ambiente que decidirão sobre os elementos da posição Europeia para Copenhaga, incluindo a revisão e inclusão das conclusões do ECOFIN. As conclusões do Conselho de Ambiente definirão o mandato negocial para a delegação da União Europeia em Copenhaga.
- Conselho Europeu, 29 e 30 de Outubro: reúne os Chefes de Estado da UE e decidirão ao mais alto nível os aspectos políticos da posição Europeia para Copenhaga.

A Quercus enviou uma carta aos Ministros do Ambiente e Finanças, apelando para decisões ambiciosas nos diferentes aspectos em decisão, desde a redução de emissões ao financiamento da adaptação.

A Ciência exige acção urgente em Copenhaga

Os impactes devastadores das alterações climáticas estão já a ser sentidos – na forma de secas agravadas, cheias e eventos meteorológicos extremos – pelos países e comunidades mais pobres e vulneráveis, entre eles os países menos desenvolvidos e os países pequenas ilhas. A investigação científica recente diz-nos que os impactes mais graves das alterações climáticas ocorrerão mais cedo e serão mais severos que inicialmente previsto, quer na Europa, quer no resto do mundo. Os cientistas concordam que o aquecimento global deve ser mantido tão longo quanto possível de 2º C de modo a evitar efeitos desastrosos, consequência das alterações climáticas. Na prática, tal requer um pico global de emissões a atingir no máximo no ano de 2015 seguido de um declínio significativo na ordem dos 80% abaixo de 1990 até 2050.

Na Conferência de Copenhaga, os líderes da Europa e do resto do mundo terão a oportunidade de tomar acções para prevenir alterações climáticas dramáticas. Um atraso nas acções face ao alarmante aumento da temperatura elimina a possibilidade de nos mantermos abaixo de um aumento de 2º C.


Uma meta de redução de emissões superior a 40% abaixo dos níveis de 1990

O Acordo de Copenhaga deve solidificar uma nova ronda de compromissos para a redução de emissões de gases de efeito de estufa dos países industrializados, bem como envolver os países em desenvolvimento para diminuírem o crescimento das suas emissões.

A actual meta de redução da União Europeia é inadequada. A ciência recente sugere uma redução mais ambiciosa, superior a 40% para 2020 em relação a 1990, das emissões de gases com efeito de estufa (GEE), necessária para garantir, com uma elevada probabilidade, que o aquecimento global não ultrapassará os 2º C. Mais ainda, a grande maioria destas reduções de emissões devem ocorrer internamente na própria União Europeia.

Actualmente, a UE cumpre uma porção substancial dos seus compromissos de Quioto através de compensação na forma de financiamento de projectos nos países em desenvolvimento. Mas, na maioria destes projectos, a compensação não se traduz numa redução real de emissões e tem muitas vezes impactes sociais e ambientais negativos. Mais ainda, a compensação desvia a atenção da Europa para um desenvolvimento económico estruturalmente mais amigo do ambiente.

Neste contexto, em Copenhaga, a UE deve comprometer-se em reduzir bem mais de 30% das suas emissões à escala doméstica. A restante parte para se atingir uma redução de 40% pode ser conseguida através de uma maior obrigação de financiamento e/ou suportando projectos de baixo carbono (compensação) em países em desenvolvimento.

União Europeia deverá contribuir com pelo menos 35 mil milhões de euros em novo financiamento público em 2020

A UE deve providenciar financiamento, tecnologia e outros apoios aos países em desenvolvimento para se adaptarem às alterações climáticas e reduzir o crescimento das suas emissões, sem impedir as suas expectativas de desenvolvimento. O valor global de financiamento público necessário para as alterações climáticas está estimado num valor superior a 110 mil milhões por ano em 2020.

Isso significa que a UE está obrigada a alocar pelo menos 35 mil milhões por ano em financiamento público, novo e adicional até 2020, num quadro de partilha justa do total de financiamento internacional. Esta figura baseia-se na quantificação da partilha da Europa com base nas suas emissões históricas e capacidade financeira. Os actuais níveis de ajuda direccionados para a área do clima pela UE e os seus Estados-Membros estão longe do necessário. São imprescindíveis fundos substanciais que devem ser progressivamente aumentados até se atingir o nível pretendido em 2020.

Este financiamento não deverá ser apenas um conjunto de promessas de ajuda reorganizadas. As alterações climáticas impõem novos custos para os países mais pobres que não estão calculados nem estão integrados na ajuda oficial ao desenvolvimento (0,7% do PIB), pelo que deverá ser considerada para além deste valor. Estes compromissos também têm de ser adicionais aos fluxos financeiros da compensação de emissões da UE através dos projectos desenvolvidos.

Donde poderá vir o dinheiro?

- Estados-Membros poderão usar parte das receitas do leilão associado ao comércio europeu de licenças de emissões associadas à indústria (prevê-se 15 a 40 mil milhões de euros anuais) a partir de 2013;
- Impostos sobre os combustíveis da aviação e transporte marítimo;
- Leilão de licenças de emissão associadas ao transporte internacional por avião e marítimo;
- Taxas sobre transacções financeiras.

Um acordo legal vinculativo com um regime de cumprimento robusto

O acordo legal vinculativo resultante de Copenhaga deve providenciar um regime de cumprimento robusto. Isto vai requerer simultaneamente uma componente de obrigatoriedade e de facilitação. Se Copenhaga é para ser um sucesso, os países desenvolvidos têm de saber que qualquer falha para conseguir os compromissos (por eles próprios ou outros) será identificado e denunciado. A criação de um tal regime de cumprimento irá obrigar a requerer regras e padrões internacionais relacionados com a contabilização e verificação das reduções de emissões e o assegurar de financiamento para o clima. Na ausência de regras internacionais claras, as Partes ficarão livres para escolher as métricas mais favoráveis de acordo com as suas circunstâncias nacionais, tornando mais difícil a comparação de emissões, determinar obrigações e forçar compromissos. Regras internacionais de contabilização são necessárias para codificar que gases e sectores serão avaliados, como é efectuada a contabilização e como é apresentada. A verificação internacional dos dados de emissões e das acções de mitigação dos países em desenvolvimento será também necessária para construir uma relação de confiança entre as Partes para assegurar transparência e a integridade ambiental do sistema

Necessidades de adaptação, cooperação tecnológica e capacitação

As alterações climáticas estão a destruir as vidas de milhões das pessoas mais pobres em todo o mundo e frustrando os seus esforços para escapar da pobreza. Cada vez mais, cheias severas, secas e falta de água significam culturas agrícolas com produções reduzidas, resultando em grande pobreza e originando uma enorme tragédia humanitária. As populações mais vulneráveis do planeta são as mais incapazes de lidar com as tempestades, tufões e furacões, cada vez mais frequentes. Conhecendo-se estes efeitos potencialmente devastadores e as responsabilidades históricas dos países industrializados que causaram esta crise climática, a UE está obrigada a suportar os esforços de adaptação dos países em desenvolvimento. Este apoio deve surgir na forma de financiamento público para o clima para projectos de adaptação, bem como para cooperação tecnológica e capacitação.

O desafio colocado pelas alterações climáticas irá requerer uma revolução tecnológica verde. O Acordo de Copenhaga deve estabelecer uma cooperação internacional no financiamento de investigação ambiental de topo relacionada com tecnologias de mitigação e adaptação. Deve igualmente definir os mecanismos de transferência de competências, de bens tecnológicos e de equipamento para os países em desenvolvimento, bem como assegurar capacitação nas áreas da investigação e desenvolvimento. Este novo financiamento deve suportar particularmente projectos que garantam avanços tecnológicos no uso de fontes de energia renováveis, aumento da intensidade energética da economia global, e assegurar o acesso a serviços modernos ambientalmente sustentáveis de energia nos países em desenvolvimento.

Eliminar emissões da desflorestação e da degradação da floresta

A desflorestação é uma enorme crise ambiental que tem consequências severas para o aquecimento global, biodiversidade e povos indígenas. O Acordo de Copenhaga deve proteger as florestas existentes e especificar que a vasta maioria de emissões da desflorestação e da degradação da floresta deverão ser eliminadas até 2020. Mais do que tudo, qualquer esforço para reduzir as emissões da desflorestação e da degradação da floresta deve ser feito de forma a proteger a biodiversidade e respeitar completamente os direitos dos povos locais e indígenas.

A actual posição negocial da UE é demasiado fraca nestas áreas. A mesma deve ser fortalecida para incluir linguagem sobre a protecção das florestas naturais da desflorestação e degradação através de provisões explícitas contra a conversão das florestas naturais em plantações, habitualmente monoculturas, retirando as cláusulas que podem subsidiar o corte à escala industrial e a conversão de florestas naturais em plantações como parte de uma “gestão florestal sustentável”. Estas mudanças são necessárias não apenas para prevenir actividades fortemente emissoras, mas também para assegurar a integridade ambiental das actividades de mitigação e a preservação da biodiversidade das regiões florestais.

Bruxelas, 19 de Outubro de 2009

A Direcção Nacional da
Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza
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quinta-feira, agosto 27, 2009

CLIMA: ONU APELA AOS PAÍSES PARA AGIREM E NÃO FICAREM À ESPERA DE UM MILAGRE EM 2050

26.08.2009 PÚBLICO, Agências
Os responsáveis governamentais “não podem continuar a aumentar as emissões (de gases com efeito de estufa, GEE) e esperar que um milagre as faça cair 80 por cento em 2050!”, disse ontem Rajendra Pachauri, presidente do IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas), a cem dias do início da conferência de Copenhaga, que ambiciona chegar a acordo sobre o sucessor do Protocolo de Quioto.
“O que é verdade é que hoje não há nenhum sinal de progresso significativo”, lamentou, numa entrevista telefónica à AFP, o economista indiano que recebeu o Prémio Nobel da Paz 2007 com o vice-Presidente norte-americano Al Gore pelo seu papel no combate às alterações climáticas. “É, sem dúvida, uma decepção”.Este especialista em questões de energia apela aos dirigentes do planeta para agirem depressa a fim de travar o aquecimento global em curso.“As conclusões do IPCC são muito claras: para limitar o aumento da temperatura a 2ºC, devemos garantir que as emissões (mundiais) comecem a baixar depois de um pico em 2015”, lembrou. Mas “tenho a sensação de que os dirigentes (do G8) que reconheceram esse objectivo não o integraram verdadeiramente...”.Metas defendidas por cientistas fora de alcanceUm olhar mais atento às metas já anunciadas pelos principais países desenvolvidos mostra que o objectivo de redução das emissões de GEE – de 25 a 40 por cento até 2020, em relação a 1990 – defendido pelos cientistas parece, neste momento, estar fora de alcance.A União Europeia comprometeu-se com uma redução de 20 por cento das suas emissões – 30 por cento em caso de um maior compromisso internacional – mas as posições norte-americana (cerca de seis por cento de redução) e japonesa (oito por cento) estão longe dessa meta.“Em relação ao que foi debatido em Bali (em Dezembro de 2007), é um passo atrás”, denunciou Pachauri.Sobre a conferência de Copenhaga, em Dezembro, Pachauri alertou contra a tentação de chegar a um acordo a qualquer preço. “A ausência de acordo é, provavelmente, preferível a um acordo fraco”, considerou.Conselho da Europa lança campanha pan-europeia Novo Acordo da TerraSensibilizar os responsáveis políticos para a necessidade de um acordo em Copenhaga é o objectivo da campanha Novo Acordo da Terra (New Earth Deal), lançada hoje pelo Conselho da Europa, em Londres. O relator para as alterações climáticas no Conselho da Europa, o antigo deputado britânico e vice-primeiro-ministro John Prescott, apelou aos países ricos para aumentarem as suas metas de redução de emissões. “As alterações climáticas que vivemos por todo o mundo foram causadas pelos países ricos. Eles devem reconhecer agora o princípio central de que o poluidor paga”.No entanto, Prescott reconhece que “conseguir um acordo em Copenhaga será dez vezes mais difícil do que o Protocolo de Quioto”.A campanha defende responsabilidades diferenciadas e quer colocar no centro do acordo climático a redução da pobreza e justiça social.“O fracasso não é uma opção em Copenhaga», concluiu.

domingo, maio 24, 2009

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

Preocupação ambiental maior do nosso tempo, as alterações climáticas estão a manifestar-se perante os nossos olhos—já não se trata de prever se vão ou não dar-se, e o aquecimento global é um facto para lá de qualquer dúvida.
Desde há uns 150 anos, a actividade humana, no dealbar do que se chamou «Revolução Industrial» aumentou exponencialmente as emissões de CO2— dióxido de carbono— por via da utilização massiva do carvão e do petróleo como fontes de energia.
Esse aumento estará a progressivamente aumentar a camada atmosférica de gases que «aprisiona» a radiação solar que deveria sair para o espaço após «tocar» a superfície terrestre. É a essa retenção anormal de calor na atmosfera terrestre que se chama «efeito de estufa». Os cientistas dizem que nos últimos 50 anos se registou um aumento da temperatura média mundial da ordem dos 0,6 graus— sendo esta mais sensível nuns sítios e menos em outros--os pólos têm sofrido um aumento maior. Parece pouco, mas não é. Até porque os cientistas que elaboraram os estudos que estiveram na base da Convenção--Quadro da ONU sobre Alterações Climáticas, previram, já em 1992, um aumento entre 1, 5 e 6 graus médios até ao final do século. Muitos consideram que é uma estimativa moderada. Mas mesmo a crer nela, bastará um aumento de 2, 5 graus, a meio do intervalo da previsão, para que ocorra uma mudança radical e espectacular no quadro de vida no planeta Terra. Derretimento quase total de extensões de tamanho continental de gelos— Antártida, Gronelândia, glaciares de montanha, tundra euro-asiática e norte-americana. Subida exponencial dos níveis dos mares, cheias, mudança das correntes oceânicas, fenómenos atmosféricos imprevisíveis, secas, inundações, problemas de inviabilidade da agricultura, carências de água e efeitos graves na biodiversidade.
Em relação à agricultura, só como exemplo, refira-se que um aumento de temperatura média local de 1grau pode levar à perda de 32% da colheita brasileira de café e um aumento de 3 graus a reduções de produção de 58% no café, 20% no arroz e 11% no feijão ( pesquisa revelada pela revista «Veja».)
75% das emissões de CO2 de origem antropogénica (humana) têm origem no uso de petróleo, carvão e gás natural, os combustíveis fósseis. O resto virá das alterações no uso do solo, mineração, fogos florestais, criação de gado e transportes.
Mas o CO2, sendo o principal, não é o único mau da fita. Há outros. Para só citar os mais importantes gases de efeito de estufa (GEE): metano, óxido nitroso, hidrofluorcarbonetos (HFCs) perfluorcarbonetos, hexaflureneto de enxofre e ozono (troposférico).
Desde 1750, as emissões de metano terão aumentado 151% e um dos maiores receios dos cientistas é a possibilidade, ainda não provada, de que o derretimento dos gelos em redor dos pólos possa «libertar» quantidades imensas de metano aí confinado há milhares de anos— isso poderia levar a uma potenciação brutal do efeito de estufa, talvez provocando uma muito rápida mutação climática.
Os sumidouros de carbono, que retêm o carbono e o transformam durante o processo de fotossíntese, são as plantas verdes, antes do mais— e daí a importância da preservação das florestas, em especial as antigas. Mas esta certeza altera-se se pensarmos na floresta que arde— deixa de reter carbono e a sua matéria transfere-se para a atmosfera— sob a forma de CO2.
Nos últimos anos, têm-se estudado e destacado o papel primordial dos Oceanos na retenção de carbono e em geral no estado do clima mundial.

O alarme geral das alterações climáticas soou— e alguma coisa se tem tentado fazer para deter e prevenir o fenómeno já sensível hoje em todo o mundo. Este caso chamou a atenção para o pouco que sabemos sobre a Terra, os seus processos que têm assegurado a manutenção da vida. Um acréscimo de humildade que é saudável. Ao mesmo tempo, outras ciências, como a História, vêm ajudar à compreensão de como as civilizações dependem dos fenómenos climáticos e de como estes interferem nos eventos históricos.
Sabe-se que o clima nunca foi estável—é composto de mudança constante ao longo do historial do planeta. Aos períodos frios e secos sucederam tempos quentes e húmidos. Fenómenos como vulcões em erupção podem ser factores de alteração. A última Idade do Gelo acabou há uns 40 mil anos, quase subitamente, sem que se saiba bem porquê. Muito mais tarde, deu-se na Europa um período muito frio, entre os séculos XIV e XIX, a que se chamou a «pequena Idade do Gelo» --não foi assim há tanto tempo. Conhece-se o caso do ano de 1816, o ano sem Verão, que foi muito frio na Europa toda—gerando grandes problemas sociais-- e que hoje está a ser relacionado com a erupção de um vulcão na Indonésia, cujas imensas cinzas podem ter ocasionado uma «cortina» travando os raios solares.
Os historiadores, estão convencidos que o tempo mais frio pode ter acelerado a queda do Império Romano, com a fome no norte e centro da Europa a conduzir milhões de pessoas para as fronteiras romanas.
A Convenção Quadro das Nações Unidas sobre alterações Climáticas foi adoptada na Cimeira da Terra no Rio de Janeiro em 1992. Entrou em aplicação em 1994. Foi assinado por 180 nações.
Daí resultou o Protocolo de Quioto, que assume compromissos de redução dos GEE e prazos de implementação. A Cimeira de Quioto foi em 1997, mas o Protocolo aí surgido só entrou em vigor em 16 de Fevereiro de 2005, mesmo assim sem a subscrição dos Estados Unidos, que produz 25% da poluição, e de estados em grande crescimento económico como a China e a Índia.
O Protocolo define metas concretas—que os cientistas acham insuficientes.
Redução de GEE em 5% entre 2008-2012 com referência a 1990. Alguns acham que se fosse cumprido, essa pequena redução poderia fazer diminuir a temperatura entre 0,o2C e 0,28C até 2050, mas esta estimativa é contestada.
Aderente do Protocolo, a União Europeia estabeleceu metas próprias: 8% de redução face a 1990 em 2008-2012. Distribuídas as percentagens pelos países-membros, Portugal ficou com direito a aumentar (!) as suas emissão em 27% no mesmo período. Mas em 2002 já somava um aumento de cerca de 40%--o que torna quase impossível cumprir o objectivo— apesar do Plano Nacional das Alterações Climáticas agora revisto e aprovado, que inclui medidas algo difusas e pouco ambiciosas, embora úteis— redução de 2 dias para a circulação de táxis e uso do gás como combustível dos mesmos, eficiência energética dos edifícios segundo o Regulamento existente, taxa sobre lâmpadas incandescentes, redução do uso de fuelóleo nas centrais térmicas, mais carga fiscal sobre gasóleo de aquecimento, fomento do uso dos transportes colectivos, etc. Não se concretiza a intenção de condicionamento e portagens para o tráfego automóvel nas cidades, questão remetida para as autarquias.
O Fundo para o Carbono, criado na Lei, está descapitalizado porque não se avançou com as taxas sobre o consumo energético que o financiariam.
Em Portugal o nível de emissões de GEE passou de 60 milhões de toneladas de CO2 equivalentes em 1990 para 84,5 milhões em 2004— acréscimo de 41%.

O Protocolo de Quioto tem como pontos inovadores o comércio de emissões, a quantificação dos sumidoiros e das acções em prol destes para efeitos desse comércio e a transferência de tecnologia menos poluente dos países desenvolvidos para os mais atrasados.
A emergência de combustíveis que emitem menos e de veículos híbridos ou com motorização mais eficiente e as energias renováveis— eólica, solar, hídrica, geotérmica, biomassa, das ondas e das marés, etc., são a maior esperança para deter a dependência dos combustíveis fósseis.
Para além das tecnologias em torno do hidrogénio, ainda em fase algo incipiente. Mas é preciso dar prioridade à eficiência energética, já que uma enorme percentagem do consumo energético é inútil e constitui mero desperdício. Calcula-se que um esforço moderado de eficiência--nos transportes, nos edifícios, na indústria, etc, pouparia em Portugal uns 20% da energia consumida!
Ultimamente, estuda-se activamente formas de aprisionamento de gases de estufa— que poderiam ser retidos em casulos especiais, depósitos subterrâneos etc em vez de libertados para a atmosfera. Algumas dificuldades técnicas e de segurança precisam anda de ser vencidos antes que tais processos possam ser considerados em grande escala.
Num contexto de crise económica, com a nova liderança americana a dar sinais positivos neste sentido e a querer integrar-se nos esforços internacionais para debelar ou minimizar esta ameaça global, é a Cimeira de Copenhaga, em Dezembro próximo, que concentra todas as atenções. Daí deverá sair um novo acordo que substitua Quioto e – espera-se! — com objectivos bem mais claros e ambiciosos. Veremos. Mas o tempo urge!
Bernardino Guimarães