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terça-feira, fevereiro 15, 2011

RUMO INSUSTENTÁVEL

Entre os números que espelham a crise, o desemprego, as empresas que fecham, a confiança que desce, os problemas sociais que se avolumam e preocupam, e aqueles outros que trazem um pouco de alento, as exportações que aumentam, a maior importância da investigação e ciência, há ainda outros números. Mesmo para quem seja definitivamente avesso a estatísticas— não se pode deixar sem atenção a realidade mais surpreendente: como seja a de que, em 2010, ano de crise e de quase paragem no crescimento económico, Portugal viu crescer, e bastante o seu consumo de energia. Também surpreendentemente, entre nós aumentou o peso dos resíduos sólidos urbanos. Quer dizer: em ano de austeridade e de aperto de cinto, consumimos mais energia e fizemos mais lixo. Paradoxo? Facto difícil de explicar, certamente, e ainda não se viu pista que esclareça estes resultados que, além do mais, andam ambos em contra-vapor do que na Europa se passa. Mesmo nos países onde a depressão económica não se fez sentir tão dramaticamente.

Uma coisa é certa: a nossa rota não é de sustentabilidade nem para lá caminha, mas de desperdício e de ineficiência com múltiplas causas, que importaria compreender. Desde logo porque alguma coisa está tremendamente errada num país que consome energia de forma crescente— mais 3,3% no ano passado— sem qualquer relação com a criação de riqueza e de bem-estar social. Não faz sentido, simplesmente.
Algumas coisas, para já podem ser apontadas— falhou totalmente a intenção de promover a eficiência energética e a poupança. A trajectória que se constata levará o país, por absurdo, a dobrar o seu consumo de energia em poucos anos!
Se a produção de electricidade cada vez mais, incorpora fonte renováveis, o que é positivo, convém não esquecer que essa mudança se faz em parte com recurso a obras com enorme impacte no ambiente, como as barragens. Valerá a pena sacrificar o rio Tâmega— tão ligado à nossa cultura e cuja beleza foi cantada por autores ilustres ao longo do tempo— torná-lo numa cascata de embalses e contra-embalses, emparedá-lo e torcê-lo-- para produzir electricidade destinada ao desperdício? A melhor energia é a que não se utiliza e o facto de não termos o mínimo de eficiência e inteligência no seu uso pode pôr em causa a necessidade de trucidar rios e fazer desaparecer vales. Legitimamente se pergunta: serão necessárias essas obras e esses sacrifícios de ecossistemas e paisagens?
Fazer o mesmo ou mais, usando a mesma energia, este deveria ser o objectivo. Mas será necessário um esforço importante, e o Estado terá de dar o exemplo e o impulso— a menos que, e isso seria bom sinal, os cidadãos, a chamada «sociedade civil» queiram ter neste caso parte significativa. Muita coisa se pode fazer na base, e a iniciativa cívica tende a suprir a ineficácia e o peso inerte das instituições oficiais.

O que se diz sobre a energia, pode dizer-se sobre os resíduos. Convém perceber, antes do mais, como é que apesar da nítida—e documentada—retracção do consumo, ainda é possível que aumente o lixo urbano produzido? Toda uma política desaba, apesar da propaganda, face à realidade. Temos baixas ou muito baixas taxas de reciclagem (embora em lento crescimento) e nulas iniciativas para reduzir o volume de resíduos, nas embalagens e na promoção de práticas de reutilização, que aliás só vêm diminuindo.
Um país em processo de empobrecimento, com excesso de desigualdade social e pesadas nuvens negras sobre a forma de dívida e baixa produtividade, mas que aumenta exponencialmente o consumo de energia e gera cada vez mais resíduos, pode dizer-se que está doente. Doente o país e errados os remédios que lhe receitam.
Bernardino Guimarães
( Crónica publicada no Jornal de Notícias em 15/2/2011)

sexta-feira, março 26, 2010

MANIFESTO: SALVAR O TÂMEGA

O recente processo de consulta pública ao Estudo de Impacte Ambiental (EIA) das duas Barragens em Fridão, no rio Tâmega, evidenciou os seus enormes impactes negativos e, ao mesmo tempo, o elevado número de cidadãos, especialistas, associações e movimentos cívicos que se opuseram à sua construção. Terminado este processo, e enquanto decorre a consulta pública ao EIA de outras quatro novas grandes barragens projectadas para a sub-bacia do Tâmega (Vidago, Gouvães, Daivões e Padroselos), esses mesmos movimentos cívicos e um crescente número de cidadãos juntam-se para exigir a renúncia da construção destas 6 novas barragens ou a refutação cabal dos vários pontos que justificam esta exigência:
1 - Fracos benefícios
Produção de electricidade:
As seis barragens previstas para o rio Tâmega representam um acréscimo de apenas 1,61% na produção de electricidade em Portugal, algo facilmente obliterado por um ligeiro aumento do consumo de electricidade (só entre 2000 e 2007 Portugal aumentou o consumo em mais de 20%).
Independência energética:
Portugal importa combustíveis fósseis como fonte de energia; no entanto, só uma pequena percentagem é utilizada na produção de electricidade e estima-se que as seis barragens previstas para o Tâmega venham a representar uma redução de apenas 0,25% da importação nacional de petróleo.
Alterações climáticas:
Estas seis barragens poderão reduzir as emissões de gases de efeito de estufa (GEE), responsáveis pelas alterações climáticas. Porém, essa redução é insignificante (na ordem de algumas décimas em termos percentuais) em relação ao total nacional, admitindo-se ainda neste cálculo que não há emissões significativas de metano pelas albufeiras criadas (provenientes da decomposição da matéria orgânica e plantas do solo inundado e de prováveis fenómenos de eutrofização). Acrescente-se ainda que a poupança referida só será atingida ao fim de quatro anos (devido às emissões associadas à construção das barragens).
Criação de emprego:
Terminada a sua construção, estas novas barragens serão insignificantes a nível de emprego, uma vez que actualmente muitos empreendimentos idênticos não têm absolutamente ninguém a operá-las no local. Pelo contrário, perdem-se empregos, especialmente a nível regional, devido à destruição de solo produtivo, à perda das águas bravas que alimentam o turismo e o desporto, à deslocação de pessoas, entre outros motivos.
Armazenamento de água:
As seis novas barragens previstas para o Tâmega poderão constituir uma reserva de água útil para abastecimento e combate a eventuais incêndios, mas por outro lado serão afectadas várias captações de água existentes e fontes de águas termais, e a reserva de água não consegue justificar o investimento e prejuízos.
2 - Prejuízos avultados
Qualidade da água:
Seis novas albufeiras de água parada em substituição de um rio corrente irão provocar uma deterioração da qualidade e saúde ecológica da água, numa altura em que mesmo sem as barragens já será difícil atingir os requisitos da Directiva Quadro da Água (atingir o bom estado ecológico das águas superficiais até 2015).
Biodiversidade e ambiente:
As várias barragens projectadas para o Tâmega representarão a destruição irreversível de um importante eixo de interacção e comunicação entre os diferentes ecossistemas que constituem um rio corrente, produzirão um efeito barreira para peixes e outras espécies, submergirão muitos habitats classificados e prioritários e afectarão significativamente a fauna e a flora da região, inclusivamente várias espécies endémicas, ameaçadas, com distribuição restringida, com estatuto de protecção e variedades horto-frutícolas regionais. Com seis novas barragens na sub-bacia do Tâmega, e acrescentando a do Torrão que já existe, são previsíveis vários e significativos impactes cumulativos de todas estas barragens. Continua aliás a faltar uma análise dos impactes cumulativos das várias barragens, algo que é importante para a protecção dos ecossistemas e que é obrigatório por lei (Directiva Quadro da Água)
Socioeconomia:
As várias barragens projectadas para a sub-bacia do Tâmega não serão factor de desenvolvimento local ou regional. Irão extinguir recursos endógenos singulares, eliminar espaços naturais irreproduzíveis e ameaçar várias áreas de desenvolvimento, como o turismo (perda de turismo e desporto de águas bravas, submersão de património com interesse turístico – incluindo elementos classificados, submersão de praias fluviais e parques, profunda alteração e artificialização da paisagem), a agricultura e silvicultura (submersão de milhares de hectares de solo produtivo, perda de cultivo de variedades regionais), a pesca e a fixação de populações que terão de ser deslocadas (só a albufeira de Fridão cobrirá 108 edifícios). Só no Concelho de Amarante estima-se que as barragens possam vir a afectar 2500 ha de vinha de uma região demarcada que representa uma receita de quatro milhões de euros/ano para 3216 viticultores da sub-região.
Risco de segurança:
As barragens constituem um risco para as populações do Alto e Baixo Tâmega devido à violência das descargas de água e da oscilação brusca da cota das albufeiras e à hipótese da sua ruptura, caso que, embora raro, não é inédito. A questão da segurança coloca-se em todas as barragens projectadas para o vale do Tâmega, muito especialmente para as de Fridão que ficam a apenas 6 km da cidade de Amarante e onde um grande volume de água ficará a cerca de 100 metros acima da zona ribeirinha desta cidade.
3 - Alternativas viáveis
Eficiência energética:
Estima-se que o investimento previsto para as novas barragens, aplicado em medidas de eficiência energética, pouparia 10 a 15% do consumo total de energia do país, sem sacrificar a economia e o conforto e evitando os grandes prejuízos das barragens. No entanto, em Portugal, continua a imperar a lógica da gestão da oferta de energia e não a gestão da procura, que é a que melhor se enquadra numa lógica de desenvolvimento sustentável. Ao mesmo tempo, na última década, o consumo de energia aumentou significativamente sem igual aumento do PIB, algo indicativo de desperdício energético.
Reforço de potência e armazenamento de energia:
Portugal tem já mais de 160 grandes barragens. No que respeita às barragens com produção hidroeléctrica, apenas seis irão sofrer um reforço de potência, de acordo com informações da EDP. Prevê-se que estes seis reforços de potência possam, por si só, fornecer mais potencial de energia hídrica que toda a energia eléctrica proveniente das novas barragens do Tâmega e das restantes barragens que constam do Plano Nacional de Barragens, verificando-se assim ser desnecessária a sua construção para atingir as metas nacionais de energia hídrica previstas no Plano. Igualmente, o armazenamento do excedente da energia eólica, para ajudar a gerir as flutuações diárias, pode ser feito utilizando as barragens existentes.
Energias renováveis:
Uma maior aposta em energias renováveis com menor impacte poderia suprir os objectivos energéticos das seis barragens previstas para o Tâmega e das restantes barragens que constam do Plano Nacional de Barragens. O apoio à microgeração, eólica e fotovoltaica, por exemplo, está neste momento em risco de ser bastante restringido, sendo conhecidas pessoas e empresas que têm tentado, sem sucesso, investir milhares de euros na produção de energia limpa.
Reserva de água:
Os volumes de água necessários ao abastecimento são muito mais baixos que os das albufeiras projectadas, acrescendo que as albufeiras agravam a qualidade da água. Assim, seria mais racional apostar em sistemas de pequena escala e no uso eficiente da água: optimização das redes de abastecimento, reciclagem de águas cinzentas, aproveitamento de água da chuva, mudança para equipamentos de baixo consumo, salvaguarda dos aquíferos e nascentes.
Conclusão:
Há que ser sensível aos desafios que Portugal tem pela frente a nível das metas de produção de energia renovável, de redução de emissões de gases com efeito de estufa e da dependência energética do exterior e há que estar aberto e debater de forma equitativa as várias soluções. Fazendo uma análise aos fracos benefícios, aos avultados prejuízos e às várias alternativas disponíveis, não se consegue senão concluir que a construção de novas grandes barragens em Portugal não pode ser vista como primeiro recurso ou prioridade. Assim, exige-se a renúncia da construção das seis barragens previstas para a sub-bacia da Tâmega ou a cabal refutação de todos os pontos acima mencionados.

Vale do Tâmega, Amarante, 13 de Março 2010
Subscrito pelas seguintes entidades:
Bloco de Esquerda, Campo Aberto – Associação de Defesa do Ambiente, FAPAS – Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens, GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente, LPN – Liga para a Protecção da Natureza, Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega, Por Amarante, Sem Barragens, Proviverde - Associação de Produtores de Vinho Verde de Amarante, Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, Partido Os Verdes

quinta-feira, março 18, 2010

O RIO TÂMEGA, AINDA

Imagens do Tâmega e da manifestação em sua defesa, no passado sábado.
Fotos de Ricardo Blanc

terça-feira, março 16, 2010

CONTRA A CORRENTE


1)Aumenta a preocupação pelo futuro do Tâmega, o belo rio que inspirou tantas páginas da literatura portuguesa e onde ficarão instaladas nada menos que 5 barragens. Uma delas, a de Fridão, a escassa distância de Amarante.
Essa angústia motivou a manifestação do passado sábado, talvez o início de um movimento cívico amplo que porá em causa a utilidade e bondade da profunda desnaturalização dos rios que nos dizem ser essencial ao futuro do país. Não falta propaganda martelando na tese dos benefícios da hidroeléctrica, apresentada como fonte de energia «verde» e renovável, portanto amiga do ambiente. É saudável que sejam discutidas as opiniões dos que postulam o contrário: sinal de democracia e de vitalidade do civismo que não se conforma com «verdades» oficiais nem oculta o outro lado da moeda. E esse lado é inquietante: só a barragem de Fridão vai destruir centenas de hectares de Reserva Agrícola e Reserva Ecológica Nacional, pontes antigas, praias fluviais, uma ETAR e muitas habitações, proclamaram os manifestantes. Existe o perigo da eutrofização com o surgimento de cianobactérias e maus cheiros.
Como se lê na reportagem do JN sobre o protesto: «Há também quem receie "ter uma barragem com mais de 90 metros de altura e que, em caso de rotura, inundaria a cidade de Amarante com 13 metros de água acima do tabuleiro da ponte de S. Gonçalo". "É o INAG [Instituto Nacional da Água] que o admite", lembra o Movimento Por Amarante sem Barragens».
Antes de acusar quem quer que seja como «inimigo do progresso» ouçam-se os argumentos de todos. Convém evitar a deriva autoritária, hoje de novo muito em voga em Portugal, e não se responda com sofismas e meias-verdades a quem pergunta se é isto o progresso, se uma-- apesar de tudo residual-- produção de electricidade, vale a destruição de um rio, no país que mais energia desperdiça no contexto europeu e onde a eficiência energética é quase uma figura de retórica.
A maioria das barragens previstas no Programa Nacional Hidroeléctrico vai ser edificada na bacia hidrográfica do Douro, com os seus afluentes, e só isso deveria motivar uma reflexão global, sobre desenvolvimento sustentável e sobre o valor do que se perde: paisagem, biodiversidade, turismo de natureza, solos produtivos.
Enfim: há quem seja contra a corrente. Ainda bem que assim é. Porque contra a corrente, no sentido literal, correrá o Tâmega, violentado ao sabor das flutuações horárias do preço da electricidade. Creio que essa imagem basta, para quem tenha sensibilidade e bom senso!

2)Contra a corrente e em crescendo de adesão anda o movimento Limpar Portugal, de que já aqui falámos. Contrariando a apatia cívica que nos é habitual, o projecto juntou já mais de 40 mil voluntários, que no dia 20 de Março, atacarão o país das lixeiras, do desmazelo e da impunidade. Estamos perante uma iniciativa que deve fazer História, pela dimensão, pela sua origem na vontade de cidadãos que se propõem fazer o que poder local e administração central nunca foram capazes.
Na data aprazada, mais de 300 grupos organizados de voluntários “riscarão do mapa” mais de 11 100 lixeiras a nível nacional. Que se espera não voltem a reaparecer, mais isso é já outra tarefa de continuidade e de vigilância que caberá, em primeiro lugar, às autarquias locais e aos cidadãos despertos para a «cidadania ambiental».
Um sinal positivo e feliz, que nos enche de confiança e de esperança. Bom início de Primavera que afasta, por um dia que seja, os pesados e cinzentos factos que habitualmente dominam o noticiário pátrio!
Bernardino Guimarães
(Crónica publicada no Jornal de Notícias em 16/3/010)

domingo, março 14, 2010

NÃO CORTEM O TÂMEGA COM SEIS BARRAGENS!

em Jornal de Notícias hoje
"Não cortem o Tâmega seis veses" - a frase, escrita num cartaz, era uma entre muitas as que foram ditas por quem, ontem, participou na manifestação promovida por grupos ambientalistas. O protesto, contra a construção de seis barragens no rio Tâmega (a do Fridão, em Amarante, é a mais contestada), realizou-se na ponte de S. Gonçalo, em Amarante.

Com o dedo apontado à "classe política que se tem alheado à problemática das barragens", Emanuel Queirós do Movimento de Cidadania para o Desenvolvimento do Tâmega catalogou de "programa de mercenários" o "Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico", concluindo que o Vale do Tâmega "necessita de um programa sustentável e não de um programa contra-natura".
A manifestação foi promovida por várias associações ambientalistas, entre as quais a Quercus e o Geota e movimentos cívicos.
A montante de Amarante, no Marco de Canaveses, existe uma barragem (Torrão) "e é conhecido o resultado", lembra o representante da Quercus. Um dos principais problemas causados pela barragem do Torrão é a eutrofização com o surgimento de cianobactérias e maus cheiros. Teme-se o mesmo em Amarante.
Há também quem receie "ter uma barragem com mais de 90 metros de altura e que, em caso de rotura, inundaria a cidade de Amarante com 13 metros de água acima do tabuleiro da ponte de S. Gonçalo". "É o INAG [Instituto Nacional da Água] que o admite", lembra o Movimento Por Amarante sem Barragens. Na próxima semana, o Parlamento vota a proposta de Os Verdes para que seja reaberta a consulta pública do Estudo de Impacte Ambiental.
Júlio Cerqueira e Alice Araújo adeptos do movimento "Não à barragem", disseram ao JN, enquanto tomavam café com a filha e a neta, num bar com vista para o protesto, que desconheciam a manifestação. "Fomos apanhados de surpresa e o dia já está reservado para a família", justificaram. No entanto, foram algumas as dezenas de participantes na marcha.

sábado, março 06, 2010

TÂMEGA: « GRAVES PREOCUPAÇÕES» DOS AUTARCAS


04.03.2010  Público

A Associação de Municípios do Alto Tâmega (AMAT) solicitou hoje uma audiência com carácter de urgência à ministra do Ambiente a fim de alertar para os “graves problemas” decorrentes da construção de quatro barragens, disse o autarca de Vila Pouca de Aguiar.
Domingos Dias é presidente em Vila Pouca de Aguiar, um dos concelhos mais afectados pela cascata do Alto Tâmega, já que vai ser atingido pela albufeira de três das quatro barragens previstas.
A “cascata” do Alto Tâmega, adjudicada à espanhola Iberdrola, prevê a construção de quatro barragens: a do Alto Tâmega, em Vidago, e Daivões (ambas no rio Tâmega) e Gouvães e Padroselos (afluentes).
Especialistas da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) apresentaram ontem aos seis autarcas da AMAT - que junta as câmaras de Boticas, Chaves, Montalegre, Ribeira de Pena, Valpaços e Vila Pouca de Aguiar - as suas conclusões sobre o Estudo de Impacte Ambiental (EIA) das barragens do Alto Tâmega.
Os autarcas não gostaram do que ouviram porque, segundo Domingos Dias, são apontadas algumas lacunas e, por isso mesmo, querem ser recebidos pela ministra do Ambiente, a quem solicitaram ontem uma audiência com carácter de urgência.
“O objectivo é, em conjunto, analisarmos os pormenores do EIA. Debatermos o efeito das barragens na qualidade da água, na fauna ou na flora, nomeadamente no que diz respeito ao lobo ibérico, à lontra ou toupeira de água, ou até nas alterações climáticas que poderão ocorrer”, salientou.
O autarca referiu ainda que a Iberdrola fez o EIA individualmente para cada barragem, mas considera que os impactos têm que ser analisados no seu conjunto.
Domingos Dias afirmou ainda que os concelhos só vão beneficiar com as barragens durante o período de construção, devido à movimentação que vão criar os cerca de 3500 trabalhadores previstos. “Quanto ao que vem a seguir está tudo muito nebuloso e no ar. Essa parte tem que ser devidamente esclarecida”, referiu. O autarca vai mais longe e diz que não antevê mais valias, pelo menos “para as gerações futuras”.
No decorrer da elaboração do EIA destes empreendimentos foi descoberta uma importante população de bivalves com elevado estatuto conservacionista no rio Beça. Em sequência destes “fortes constrangimentos de ordem ambiental” na área de implantação da albufeira de Padroselos, o EIA revela um “possível cenário alternativo do projecto”, que passa pela exclusão desta barragem aumentando a potência prevista para Gouvães. Se for aumentada a cota em Gouvães, segundo o autarca, serão aumentados ainda mais os problemas para Vila Pouca de Aguiar.
Além da eliminação de grande parte dos terrenos agrícolas das localidades de Carrazedo do Alvão e Gouvães, Domingos Dias defende que é preciso fazer uma avaliação de solos e de contaminação de águas e saber em que estado ficará a Rede Natura.
O EIA vai estar em discussão pública até 14 de Abril.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

MAIS BARRAGENS, NÃO!

Os rios portugueses estão perante uma grave ameaça – a construção de 11 novas grandes barragens. 5 das quais, na bacia do Tâmega!
Tal tem sido vendido como um factor de desenvolvimento económico, social e até ambiental mas os factos evidenciam uma enorme destruição ambiental, a perda de muitas centenas de hectares de terrenos produtivos e/ou protegidos, a deterioração da qualidade da água e a perda irreversível de património cultural. Estes e muitos outros prejuízos por um acréscimo de apenas 3% de produção de electricidade. Prejuízos que têm sido anunciados como indispensáveis muito embora sejam conhecidas alternativas que permitiriam atingir os mesmos objectivos: reforço de barragens já existentes, eficiência energética, outras energias renováveis, etc…
Assim, dia 13 de Março de 2010, na ponte de Amarante sobre o rio Tâmega, vamos reunir cidadãos, associações, comunicação social e movimentos vários> numa grande manifestação de oposição a esta política errada.
Apareça por volta das 12h00 e junte-se ao movimento que vai parar estas> barragens! E não se esqueça de divulgar esta mensagem por todos os seus> contactos.

Sabia que…?
…já existem mais de 165 grandes barragens em Portugal?
…a transformação de um rio de água corrente num lago artificial põe em risco> a qualidade da água e muitas espécies de animais e plantas?
…só a barragem de Fridão vai destruir centenas de hectares de Reserva Agrícola e Reserva Ecológica Nacional, pontes antigas, praias fluviais, uma> ETAR e muitas habitações?
…as barragens não criam empregos e que aliás a EDP tem várias barragens sem> ninguém a trabalhar no local?
…é obrigatório fazer um estudo conjunto de todas as barragens no Tâmega e> tal não foi feito? …existem alternativas mais baratas e com menos prejuízo para o ambiente e> para as populações? Como o aumento de potência das barragens já existentes, a aposta na eficiência energética, a energia solar...
Saiba mais em http://salvarotamega.wordpress.com

sábado, fevereiro 13, 2010

CÂMARA DE AMARANTE OPÕE-SE POR UNANIMIDADE À CONSTRUÇÃO DA BARRAGEM DO FRIDÃO

10.02.2010 Lusa
A Câmara de Amarante deliberou, por unanimidade, opor-se à construção da barragem de Fridão, no rio Tâmega, por considerá-la “um sacrifício demasiado elevado para os munícipes”.
“É para nós impensável a construção de uma barragem a montante da cidade de Amarante, a aproximadamente dez quilómetros”, lê-se na moção, aludindo aos problemas da segurança. A decisão do executivo, de maioria socialista, ocorreu a poucos dias do fim do período de discussão pública do estudo de impacte ambiental, que decorre até 15 de Fevereiro. A barragem de Fridão é uma das dez que constam do Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroeléctrico. O documento foi inicialmente apresentado pelos quatro eleitos social-democratas, na oposição, mas foi bem acolhido pela maioria socialista liderada por Armindo Abreu. Na moção sublinha-se “a preocupação dos amarantinos” face aos impactes da construção da barragem nas freguesias de Chapa, Fridão, Gatão e Rebordelo, além da cidade, que é atravessada pelo Tâmega. Destaca-se ainda que “não existe um estudo integrado envolvendo todas as barragens, a construir, ao longo da bacia do Tâmega, que permita garantir a qualidade da água em todas as estações do ano em Amarante, nem ao nível químico nem ao nível bacteriológico”. “Correremos o risco de transformar o rio Tâmega, no centro de Amarante, numa espécie de lago de águas pestilentas no verão”, adverte-se na moção, chamando à atenção para os impactes negativos na fauna e na flora. Segundo o executivo municipal amarantino, “estão por provar as vantagens que, objectivamente, o concelho de Amarante obterá com a construção da barragem de Fridão”. Concluem os eleitos que “a construção, em vez de trazer desenvolvimento sustentável, traria degradação da qualidade de vida e regressão económica. Num debate promovido dia 28 de Janeiro pela autarquia, o presidente do Instituto da Água (Inag), Orlando Borges, garantiu que a construção da barragem não colidirá com qualquer normativo ambiental ou de segurança. Admitiu, no entanto, que a barragem terá “impactes ambientais fortíssimos em variadíssimas áreas”, apesar das “enormes” vantagens energéticas e ambientais inerentes à construção daquela infra-estrutura

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

LIMPAR PORTUGAL

A reportagem, assinada por Dora Mota, aqui no JN há dias, veio ajudar a esclarecer o escândalo continuado do Rio Tinto. Um rio de indignação percorre qualquer leitor ao ver descrita a incompetência, a incúria e indiferença conduzindo ao estado de coisas que hoje podemos ver: a história do Tinto, que corre entre Ermesinde e o Porto, devia ser caso de estudo. Transformado em esgoto, destruído pela urbanização selvagem, ignorado por autarcas, chorado por muitos que o conheceram como espaço de pesca e de banhos, corredor ecológico vital que nos últimos anos se degradou de forma inimaginável. Na peça do JN ficou claro o processo de destruição: a construção sem regras nem ordem foi sitiando o rio, ocupando as suas margens, entubando alguns dos seus troços, estreitando o seu leito, arruinando a vegetação ribeirinha. A falta de saneamento faz o resto, de forma perversa, pois o rio que cheira mal e se transforma em caneiro de toda a sujidade, oferece a alguns, sob aplauso quase geral, a oportunidade, não de despoluir, mas de entubar mais ainda, para que se possa construir sobre o que foi o seu leito milenar. Mais construção desordenada e o rio passa a ser uma «não/existência.» Longe da vista, longe do coração. Pobre rio e pobre de quem em torno dele vive!
Neste jogo perverso e irresponsável destaca-se a Câmara Municipal de Gondomar. Mas os outros municípios, Valongo e Porto, não acertaram agulhas para uma recuperação que ainda é possível.
Como não se respeitam os leitos de cheia, ecológica e historicamente assinalados, que pelos vistos nem constam do planeamento municipal, eis que se põem em risco a vida e os bens das populações. Acresce que o traçado do Metro veio potenciar erros e perigos, entubando mais o rio e inutilizando áreas verdes que poderiam aumentar a qualidade de vida dos cidadãos. Em Dezembro, com a cheia, percebeu-se que a asneira estava feita. Quem a desfaz? Quem rompe o nó górdio desta situação, cooperando para salvar o rio Tinto, ou o que dele resta?
Já que se fala em rios, às vezes este cronista treme quando ouve falar em «limpeza» de um rio ou ribeiro. Por ignorância e facilidade, e se calhar com boa intenção, muitas vezes se procede, não tanto à remoção do lixo que superabunda nas margens e no leito dos cursos de água, mas ao corte raso da vegetação ribeirinha, das árvores e arbustos que ajudam a fixar o solo das margens e são filtros naturais dos rios, além de albergarem apreciável biodiversidade e serem um regalo para a vista. «Limpa-se» e o resultado é ficar o rio mais sujo, mais pobre e mais indefeso.
O estado dos nossos rios é deplorável. A maioria deles apresenta níveis inaceitáveis de contaminação. Acresce que a construção de barragens a esmo tende a piorar a situação. Basta pensar no rio Tâmega e no que lhe vai suceder, uma tragédia sem remédio que não faz pestanejar as tecnocráticas mentes que nos governam. Mas isso merece já outra crónica.
Falemos de coisas positivas: o projecto Limpar Portugal, que quer pôr milhares de portugueses a contribuir para a limpeza das matas e dos campos, já no dia 20 de Março.
Partindo do relato de um projecto desenvolvido na Estónia em 2008, um grupo de amigos decidiu propor “Vamos limpar a floresta portuguesa num só dia”. Em poucos dias estava em marcha um movimento cívico que conta já com muitos milhares de voluntários registados.Muito ainda há a fazer, pelo que toda a ajuda é bem vinda!Quem quiser ajudar como voluntário só tem que consultar o sítio do projecto na internet, www.limparportugal.org, onde tem toda a informação de como o fazer.
Bernardino Guimarães
(Crónica para o Jornal de Notícias em 2/3/010)

domingo, janeiro 24, 2010

SALVEM O TÂMEGA! ( URGENTE)

Caros Amigos da Água, dos Rios, da Terra, de Amarante, do Tâmega e seus afluentes Olo, Beça e Louredo:
De acordo com a agenda parlamentar, o plenário da Assembleia da República na próxima Quarta-feira (27/1) vai ter de se pronunciar e deliberar sobre uma iniciativa legislativa proposta pelo Partido Ecologista "Os Verdes" visando a «suspenção imediata» do Programa Nacional de Barragens.

Nos concelhos do Tâmega, antevemos e sabemos dos malefícios que advirão com a perda dos rios, Tâmega e afluentes Olo, Beça e Louredo:
a implosão dos ecossistemas ribeirinhos,;
a artificialização dos regimes hídricos;
a extinção de espaços naturais irreproduzíveis propensos ao turismo, desporto e lazer, suportes naturais de paisagens milenares;
a submersão de peças classificadas da arquitectura civil;
a degradação da qualidade das águas;
a desestruturação da relação equilibrada, auto-sustentável,entre os vários factores integrantes da hamonia do «sistema hidro-bio-geográfico», que ficarão a pender de modo insustentável e ameaçador sobre a cidade de Amarante a uma escala sobredimensionada;
o incumprimento da Lei.
Perante o contexto absurdo de absoluta desregulação hídrica da Bacia do Tâmega, criado em 2007 pelo XVII Governo com a passagem para a mão de privados destes recursos naturais-patrimoniais da Terra e da região, estratégicos para as nossas populações, estamos perante uma nova oportunidade de, individualmente, manifestarmos aos diversos grupos Parlamentares (por nós eleitos) o nosso apreço e atenção pela matéria agendada e a discordância quanto ao desprezo pelo Tâmega no que comportaria a execução do Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico.
Propomo-vos e solicitamos que até ao final da próxima Segunda-feira (25/1) divulguem esta mensagem, nomeadamente para os Grupos parlamentares na Assembleia da República: Senhores Deputados, Salvem o Tâmega!
Pelo direito à vida no vale do Tâmega!
Pelo Tâmega livre da pressão das barragens!
Não ao transvase do rio Olo para a barragem de Gouvães!
Não à Barragem de Fridão! Sim ao desenvolvimento da Região!


Obs: o «MCDT» tem as suas bases programáticas editadas em Manifesto e Petição no endereço http://cidadaniaparaodesenvolvimentonotamega.blogspot.com/
e actualiza a informação sobre o Tâmega em http://artigosediscussao.blogspot.com/.